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Construída dentro de um vulcão adormecido de 80 milhões de anos em Minas Gerais, essa cidade onde águas chegam a 45°C e o subsolo guarda minerais raros de selo europeu que curam desde o Brasil Império
Termas, montanhas, minerais raros e uma tradição ligada à realeza brasileira.
Toda cidade tem um subsolo, mas poucas repousam sobre a cicatriz de um vulcão. No sul de Minas Gerais, Poços de Caldas ocupa o centro de uma caldeira vulcânica extinta há cerca de 80 milhões de anos. As montanhas que a cercam não são serra qualquer: são a borda dessa antiga estrutura, e é dela que sobem as águas sulfurosas que moldaram a história da cidade.
O que significa dizer que a cidade fica dentro de um vulcão?
Significa que Poços de Caldas se acomodou no interior de uma caldeira vulcânica, a grande depressão circular que se forma quando um vulcão esvazia sua câmara de magma e desaba sobre o próprio vazio. Vista de satélite, a formação revela um anel de cerca de 30 km de diâmetro e 800 km² de área, contornado pela Serra de São Domingos. O processo começou no fim do período Cretáceo, quando uma intrusão de rochas alcalinas empurrou o terreno para mais de 500 metros acima do entorno, antes de o centro afundar e formar o planalto onde a cidade cresceu.
Vale a correção que a ciência já fez: o que se vê hoje não é a boca de um vulcão pronto para explodir, mas suas porções mais internas, já resfriadas e estáveis. Segundo o professor Francisco Sérgio Bernardes Ladeira, do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o relevo atual corresponde à caldeira propriamente dita, não ao edifício externo do antigo vulcão. Trata-se de um vulcão extinto, sem qualquer risco de nova erupção.

Por que as águas de Poços de Caldas são tão raras?
As águas termais da cidade são sulfurosas de origem vulcânica, com odor forte de enxofre, textura mais oleosa e temperatura que chega a até 45°C na superfície. Elas nascem de um ciclo lento: a chuva se infiltra no solo, percorre as profundezas da caldeira, é aquecida pelo calor geotérmico e enriquecida pelos minerais das rochas alcalinas antes de voltar à superfície. O resultado é uma água carregada de enxofre e outros compostos, associada a tratamentos terapêuticos desde o século XVIII.
Essa mesma atividade geológica deixou outra herança no subsolo. Estudos identificaram 13 estruturas circulares dentro da caldeira, vestígios de pequenos vulcões que borbulharam depois do colapso principal, e foi essa movimentação que gerou as jazidas de bauxita, urânio, tório e até elementos de terras raras. O Complexo Alcalino de Poços de Caldas é classificado pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) como um dos maiores maciços alcalinos do mundo.
Como as águas ligaram uma cidade mineira à realeza europeia?
A fama das fontes é antiga e nobre. Em 1886, o imperador Dom Pedro II e a imperatriz Tereza Cristina foram conhecer as chamadas águas milagrosas, e o interesse da corte transformou o povoado num destino da aristocracia brasileira. O próprio nome da cidade nasceu dessa vocação: homenageia Caldas da Rainha, cidade termal portuguesa frequentada pela família real.
Séculos depois, esse laço rendeu um reconhecimento raro. Conforme a Prefeitura de Poços de Caldas, em maio de 2017 o município assinou, na própria Caldas da Rainha, o termo de adesão à European Historic Thermal Towns Association (EHTTA), tornando-se a cidade brasileira a integrar a rota das cidades termais históricas da Europa, ao lado de balneários como Bath, na Inglaterra, e Baden-Baden, na Alemanha. As Thermas Antônio Carlos, inauguradas em 1931, foram o primeiro estabelecimento termal moderno do país.
Poços de Caldas tem mesmo a melhor qualidade de vida de Minas?
Os números apontam nessa direção. Na edição 2025 do Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM), a cidade liderou o ranking estadual com índice de 0,8457, sendo a única mineira entre as cem melhores do país, na 54ª posição nacional, segundo a Prefeitura de Poços de Caldas. O desempenho é puxado pelo indicador de emprego e renda, reflexo de uma economia diversificada entre turismo, mineração, indústria e serviços.
O tamanho ajuda a explicar o resultado. Com cerca de 172 mil habitantes, é o maior município do sul mineiro e funciona como centro regional de saúde, educação e serviços, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A cidade abriga campi de universidades como a PUC Minas e a Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG), o que atrai estudantes e novos moradores para a serra.

Como é o clima na altitude de Poços de Caldas?
A 1.186 metros de altitude, a cidade tem clima ameno o ano todo, com invernos secos e verões chuvosos. Mesmo no auge do calor, as temperaturas raramente apertam, e o inverno rende madrugadas de um dígito na serra.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Poços de Caldas?
Poços de Caldas fica a cerca de 250 km de São Paulo, viagem de aproximadamente quatro horas pelas rodovias dos Bandeirantes e Anhanguera. De Belo Horizonte, são cerca de 470 km pela BR-381. A cidade tem aeroporto regional, e o aeroporto de Viracopos, em Campinas, fica a cerca de 170 km.
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A cidade que ferve por baixo e encanta por cima
Poços de Caldas guarda no subsolo a memória de um vulcão que se apagou há dezenas de milhões de anos e, mesmo extinto, continua presente em cada gota de água sulfurosa que sobe à superfície. Foi essa geologia rara que ligou uma cidade mineira aos balneários da Europa e ajudou a construir a qualidade de vida que hoje a coloca no topo de Minas.
Você precisa reservar alguns dias para conhecer Poços de Caldas e sentir, num banho quente cercado de montanhas, o que restou de um vulcão adormecido.