Cresceu no subúrbio pobre do Rio, sem dinheiro para pegar ônibus e ia treinar a pé por quilômetros. O pai abandonou a família e a mãe sustentava a casa sozinha. Aos 17 já era o melhor jogador do mundo e mudou o futebol para sempre - Super Rádio Tupi
Conecte-se conosco
x

Entretenimento

Cresceu no subúrbio pobre do Rio, sem dinheiro para pegar ônibus e ia treinar a pé por quilômetros. O pai abandonou a família e a mãe sustentava a casa sozinha. Aos 17 já era o melhor jogador do mundo e mudou o futebol para sempre

Ronaldo fez 5 gols em um jogo aos 17 anos, ganhou 2 Copas do Mundo e quase não virou jogador porque faltava dinheiro para o ônibus

Publicado

em

Compartilhe
google-news-logo
Cresceu no subúrbio pobre do Rio, sem dinheiro para pegar ônibus e ia treinar a pé por quilômetros. O pai abandonou a família e a mãe sustentava a casa sozinha. Aos 17 já era o melhor jogador do mundo e mudou o futebol para sempre
Ronaldo passou no teste do Flamengo, mas não tinha dinheiro para voltar no dia seguinte (Créditos: depositphotos.com / shufuu/Por Web Summit - https://www.flickr.com/photos/websummit/49020053207/, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia/88876026)

⚽ Ele não tinha dinheiro para quatro passagens de ônibus — e quase nunca chegou ao futebol

Passou no teste do Flamengo, mas não conseguiu voltar no dia seguinte. Faltava o dinheiro da condução. O garoto que dormia no sofá da casa em Bento Ribeiro precisou encontrar outro caminho. E esse caminho o levou a ser chamado de Fenômeno antes de completar 18 anos ⬇️

O sofá era o quarto dele. A casa ficava em Bento Ribeiro, Zona Norte do Rio de Janeiro, num pedaço do subúrbio onde o futebol era a única promessa que cabia no bolso de qualquer moleque. Ronaldo Luís Nazário de Lima nasceu em 18 de setembro de 1976, caçula de três filhos. O pai, Nélio, era camelô. A mãe, Sônia, revezava turnos em pizzarias e supermercados, saindo antes do sol e voltando depois que os filhos já dormiam. A família era pobre, mas Ronaldo sempre fez questão de dizer que não era miserável. Havia teto, havia comida. O que não havia era folga. Nem para o menino, nem para a mãe.

Por que Ronaldo não ficou no Flamengo se passou no teste?

Porque passar no teste não bastava. Bastava ter como voltar no dia seguinte. Ronaldo descobriu que o Flamengo faria uma peneira na Gávea e pegou dois ônibus até lá. Competiu com mais de 400 garotos. Foi aprovado. Mas para treinar todos os dias, precisaria de quatro conduções entre Bento Ribeiro e a sede do clube. O dinheiro não existia. E o Flamengo não ofereceu ajuda com transporte.

O garoto de 13 anos precisou recusar a vaga no maior clube do Rio de Janeiro por causa de passagem de ônibus. A frase parece absurda. É. Mas era a realidade de milhares de meninos com talento e sem recurso. A diferença é que Ronaldo não parou ali.

Foi parar no São Cristóvão, clube menor, mais perto de casa, que tinha um convênio com o Social Ramos, onde Ronaldo jogava futsal. O técnico Roberto Gaglianone percebeu imediatamente que aquele menino magro, dentuço e rápido demais para a categoria era diferente de tudo o que ele já tinha visto. Convenceu o diretor Ary de Sá a pagar o trem de Bento Ribeiro até a Central do Brasil para que Ronaldo pudesse treinar sem depender do dinheiro da mãe.

No primeiro jogo pelo mirim do São Cristóvão, em 12 de agosto de 1990, Ronaldo marcou três gols na vitória por 5 a 2. Tinha 13 anos. A bola que o Flamengo deixou escapar por falta de quatro passagens começava a rolar para o mundo inteiro.

O que aconteceu quando o pai saiu de casa e a mãe ficou sozinha?

Aconteceu o que a mãe já fazia antes, só que sem ajuda nenhuma. Quando Ronaldo tinha 13 anos, o pai Nélio deixou a família. Dona Sônia assumiu sozinha a criação dos três filhos, trabalhando 14 horas por dia. Cozinhava em pizzaria de noite, fazia faxina de manhã, e no tempo entre um turno e outro tentava manter a casa funcionando.

Ronaldo nunca escondeu a gratidão pela mãe. Nos momentos decisivos da carreira, era para ela que olhava primeiro. Quando marcou cinco gols contra o Bahia pelo Cruzeiro, aos 17 anos, no jogo que lhe rendeu o apelido de Fenômeno, dona Sônia estava na arquibancada do Mineirão. No dia seguinte, ele a levou pessoalmente à rodoviária para que voltasse ao Rio. A cena era simples: um garoto de 17 anos, já famoso, carregando a mala da mãe que sustentou a casa sozinha.

Como o menino de Bento Ribeiro virou o melhor do mundo antes dos 20?

Com uma velocidade que ninguém conseguia acompanhar. Nem os zagueiros, nem o tempo. A transferência para o Cruzeiro aconteceu em 1993, quando Ronaldo tinha 16 anos. Seu passe foi comprado por apenas US$ 7.500, um valor que hoje não paga nem um mês de academia de base.

Em Belo Horizonte, a carreira decolou numa velocidade que assustava até os treinadores que apostavam nele:

  • Em novembro de 1993, marcou cinco gols em um único jogo contra o Bahia, pelo Brasileiro. Os jornais da segunda-feira o chamavam de Fenômeno. O apelido nunca mais saiu.
  • Em 1994, com apenas 17 anos, foi convocado por Carlos Alberto Parreira para a Copa do Mundo nos Estados Unidos. Não entrou em campo, mas voltou com a medalha de campeão mundial.
  • Em 1994, transferiu-se para o PSV Eindhoven, na Holanda. Marcou 54 gols em 57 jogos. A Europa percebeu o que o Brasil já sabia.
  • Em 1996, foi contratado pelo Barcelona. Na Espanha, marcou 47 gols em 49 partidas e foi eleito o melhor jogador do mundo pela FIFA, com 20 anos. No ano seguinte, ganhou o prêmio de novo.

A trajetória que transformou um garoto sem passagem de ônibus em lenda

🇧🇷

São Cristóvão e Cruzeiro

Rejeitado pelo Flamengo por não ter dinheiro para o transporte, começou no São Cristóvão aos 13. Transferido ao Cruzeiro aos 16, virou artilheiro do Brasileiro e ganhou o apelido de Fenômeno antes de completar 18 anos.

🌍

PSV, Barcelona e Inter de Milão

Na Holanda, destruiu recordes. Na Espanha, foi eleito o melhor do mundo duas vezes seguidas. Na Itália, ganhou o apelido definitivo: Il Fenomeno. Mas os joelhos começaram a cobrar um preço que ninguém previa.

🏆

Copa de 2002: o renascimento

Após duas lesões devastadoras nos joelhos e três anos de recuperação, voltou à seleção e marcou 8 gols na Copa do Japão e Coreia. Fez dois na final contra a Alemanha. O Brasil foi pentacampeão e Ronaldo, Bola de Ouro.

Fonte: Portal Contemporâneo da América Latina e Caribe (USP) e FIFA — registros oficiais de gols e premiações.

Como ele sobreviveu às lesões que quase encerraram tudo?

Com a mesma teimosia que o fez caminhar até o treino quando não tinha dinheiro para o ônibus. Em novembro de 1999, jogando pela Inter de Milão, o joelho direito de Ronaldo cedeu durante uma partida. Rompimento do tendão patelar. A lesão era tão grave que muitos médicos duvidaram que ele voltaria a jogar em alto nível.

Ronaldo voltou. Em abril de 2000, num jogo contra a Lazio, entrou em campo depois de cinco meses de recuperação. Sete minutos depois, o mesmo joelho rompeu de novo. A imagem dele caído no gramado, com o rosto coberto pelas mãos, rodou o mundo. Ele próprio descreveu o momento anos depois: “Senti como se minha vida tivesse sido levada embora.”

Ficou quase três anos longe dos gramados. Fez fisioterapia diária, treinou sozinho, enfrentou o ceticismo de quem já o considerava acabado. E em 2002, com o corte de cabelo mais comentado da história do futebol, voltou à seleção brasileira para disputar a Copa do Mundo no Japão e na Coreia do Sul. Marcou 8 gols no torneio, incluindo os dois da final contra a Alemanha. O Brasil foi pentacampeão. Ronaldo foi eleito o melhor jogador da competição e ganhou a Bola de Ouro da FIFA.

O que Ronaldo construiu depois que pendurou as chuteiras?

Um império que vai além do campo. Após a aposentadoria em 2011, Ronaldo investiu no futebol como empresário. Em 2018, comprou o Real Valladolid, clube da segunda divisão espanhola, e o reestruturou financeiramente. Em 2021, adquiriu 90% da SAF do Cruzeiro, o mesmo clube que o revelou para o mundo, numa operação que marcou o início do modelo de Sociedade Anônima do Futebol no Brasil.

O portfólio se estendeu além do esporte:

  • Fundou a Ronaldo Academy, rede de escolas de futebol que aplica o método de formação baseado na própria trajetória dele, com unidades no Brasil e em Portugal.
  • Participou de campanhas globais como embaixador de marcas de tecnologia, esportes e saúde.
  • É sócio de agência de marketing esportivo e investidor em startups ligadas à gestão do futebol.

Os números da carreira sustentam a lenda: três vezes melhor jogador do mundo pela FIFA, duas vezes vencedor da Bola de Ouro, dois títulos de Copa do Mundo, mais de 400 gols entre clubes e seleção. Tudo isso com dois joelhos que tentaram tirá-lo do jogo antes dos 25 anos.

O menino que dormia no sofá em Bento Ribeiro sabia que chegaria até aqui?

Provavelmente não. Mas dona Sônia talvez desconfiasse. Quando Ronaldo marcou os cinco gols contra o Bahia e o mundo inteiro quis saber quem era aquele garoto, a mãe sussurrou no ouvido dele: “Não deixe o sucesso subir à cabeça. Você está apenas começando.” Ele ouviu. E provou que começar sem nada não define onde se pode chegar, mas que voltar depois de perder tudo define quem você realmente é.

Se esta história fez você lembrar de algum moleque que treina descalço em algum campo de terra neste momento, mande para ele. O próximo Fenômeno pode estar a quatro passagens de ônibus de distância.