Entretenimento
Dona Beja encerra trajetória no streaming e autor celebra repercussão da novela
Autor destaca a força mítica e a atualidade de Beja, personagem que segue provocando debates sobre autonomia e identidade
Com 40 capítulos, Dona Beja acaba de disponibilizar seus últimos episódios na HBO Max. Na trama, ao se despedir de Araxá (MG), Beja (Grazi Massafera) conclui uma jornada marcada por desejo e vingança.
Em entrevista ao Extra, o autor Daniel Berlinsky, que assina a novela ao lado de António Barreira, comenta sensação de dever cumprido após reinterpretar um clássico da teledramaturgia brasileira quatro décadas depois de sua exibição original na extinta TV Manchete.
O que mais lhe orgulha ou surpreende ao ver Dona Beja no ar e a reação do público?
Daniel Berlinsky: O que mais me orgulha é ter conseguido trazer Beja para os dias de hoje sem perder sua força mítica. Afinal, Beja é um mito construído a partir de uma mulher real, Ana Jacinta de São José. Mas é um mito que já recebeu muitas leituras, e o que precisávamos era torná-la viva, capaz de ainda provocar. É preciso mergulhar fundo para construir essa narrativa, porque Beja é a personagem que sustenta toda a novela. Também me orgulha o cuidado que tivemos com o olhar sobre ela: nunca quisemos reduzi-la a um rótulo. Nosso esforço foi encontrar sua complexidade, contradição e humanidade. Tenho me surpreendido com a intensidade da resposta do público. As pessoas não apenas assistem, elas maratonam, se posicionam, discutem e tomam partido. Isso é importante, porque esses temas nunca deixaram de existir; nós apenas convidamos o público a aprofundar o debate. Assim como Beja, a novela evidencia outras existências oprimidas e marginalizadas pela sociedade e pela História. É aí que muitos se reconhecem, porque se identificam com a dor e a jornada desses personagens tentando ser quem são. Especialmente por isso, sinto que a novela está gerando conversa — e esse é o maior sinal de que nosso trabalho funcionou. Saio de Dona Beja com a sensação de dever cumprido.
Quais foram os maiores desafios na adaptação e o que fez a novela se conectar com o público?
Daniel: O maior desafio foi equilibrar o mito e a mulher. A Beja histórica é quase uma lenda, então o trabalho foi dar carne e osso a ela sem perder essa dimensão simbólica. Tivemos cuidado para não cair na caricatura, nem santificá-la ou demonizá-la, mas olhar sem julgamento para uma personagem que toma decisões difíceis e paga o preço por elas. Na adaptação, o desafio foi atualizar o olhar sem perder a mão, porque a ideia não era colocar o discurso de hoje na boca de ontem, mas revelar o que, naqueles tempos, ainda dialoga com o presente. A novela se conecta com os dias atuais porque fala de algo essencial: autonomia. Quem decide sobre a própria vida, corpo, desejos e destino.Beja e os personagens que caminham com ela, assim como cada um de nós, não cabem em rótulos. Nossa história mostra pessoas tentando ser quem são — e talvez por isso esteja tocando tanto o coração de quem assiste. Que Dona Beja siga emocionando e provocando reflexões urgentes sobre autenticidade, autoaceitação e respeito.
O texto Dona Beja encerra trajetória no streaming e autor celebra repercussão da novela foi publicado primeiro no Observatório da TV.