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E.T: Edu e Tatá aposta em humor leve e inteligente sem cair na armadilha do deboche ofensivo
Química entre Tatá Werneck e Eduardo Sterblitch transforma situações simples em momentos memoráveis
O humor na televisão brasileira vive há alguns anos uma espécie de crise criativa. Entre produções que apelam para o exagero, piadas ofensivas ou fórmulas desgastadas, encontrar um programa que consiga simplesmente divertir sem soar agressivo virou quase uma raridade. E é justamente nesse espaço que E.T: Edu e Tatá, novo humorístico do Multishow, encontra sua força.
Liderado por Tata Werneck e Eduardo Sterblitch, o programa estreia apostando em algo aparentemente simples, mas extremamente difícil de executar: o humor leve, espontâneo e genuinamente engraçado. O título, formado pelas iniciais dos protagonistas, já entrega a proposta despretensiosa da atração, que investe em esquetes inspiradas em situações do cotidiano, cultura pop, televisão, internet e comportamento social.
A produção não tenta reinventar o gênero. E talvez esse seja justamente o seu maior mérito.
Tata Werneck e Eduardo Sterblitch carregam o programa no carisma
Desde os primeiros minutos, fica evidente que E.T: Edu e Tatá depende diretamente da química entre seus protagonistas. E isso funciona muito bem. Tata Werneck e Eduardo Sterblitch possuem um timing cômico raro, daqueles que transformam até situações simples em momentos memoráveis.
Enquanto muitos humorísticos atuais parecem excessivamente roteirizados, o programa do Multishow transmite uma sensação constante de improviso. Existe uma naturalidade nas interpretações que aproxima o público e faz com que as piadas funcionem sem esforço aparente.
No caso de Tata Werneck, sua força cômica continua impressionante. A apresentadora e atriz praticamente “respira” humor. Seus trejeitos, expressões corporais e ritmo de fala transformam qualquer cena em algo potencialmente engraçado. A imitação de Sandra Annenberg, exibida no primeiro episódio, exemplifica bem isso: não é uma cópia literal, mas uma caricatura inteligente que captura os elementos mais divertidos da personalidade televisiva da jornalista.
Já Eduardo Sterblitch demonstra mais uma vez sua versatilidade. Diferente de Tatá, que possui uma identidade fortemente ligada à comédia, Edu consegue transitar melhor entre diferentes gêneros, inclusive o drama. Ainda assim, é no humor absurdo e no improviso que ele parece mais confortável — e mais brilhante.
Humor crítico sem cair no preconceito
Um dos pontos mais interessantes de E.T: Edu e Tatá é a maneira como o programa faz crítica social sem recorrer ao constrangimento gratuito. Em tempos em que parte do humor brasileiro ainda insiste em piadas ofensivas, preconceituosas ou humilhantes, a atração do Multishow escolhe outro caminho.
O programa ri das situações, dos comportamentos e até dos próprios artistas, mas evita transformar pessoas em alvo de ridicularização. Existe uma diferença importante entre rir “de alguém” e rir “com alguém”, e a produção parece compreender isso muito bem.
As esquetes abordam exageros da internet, vícios culturais, modismos e até elementos da televisão brasileira, mas sem a necessidade de apelar para humor agressivo. O resultado é uma experiência leve, acessível e confortável de assistir.
E isso não significa falta de crítica. Muito pelo contrário.
O humor apresentado por Tata e Edu consegue provocar reflexão justamente porque não pesa a mão. As ironias surgem de maneira natural, quase casual, permitindo que o público pense enquanto ri.
Produção simples, mas eficiente
E.T: Edu e Tatá claramente não é uma superprodução milionária — e o próprio programa brinca com isso em diversos momentos. Existe uma autoconsciência divertida sobre limitações de orçamento, cenários e recursos, algo que acaba funcionando como parte da identidade da atração.
Ainda assim, a qualidade técnica é eficiente. O ritmo ágil, os episódios curtos — com cerca de 30 minutos — e a variedade de participações especiais ajudam a evitar desgaste. O primeiro episódio, por exemplo, contou com a presença de Fafá de Belém, além de atores e participações de apoio que enriquecem as esquetes.
Outro detalhe importante é que Tata Werneck e Eduardo Sterblitch também participam do roteiro da produção, o que ajuda a preservar a autenticidade do humor apresentado.
Programa tem potencial para chegar à TV aberta
Atualmente disponível no Multishow e no Globoplay, E.T: Edu e Tatá possui um perfil que facilmente poderia funcionar também na TV aberta. O humor popular, leve e acessível conversa diretamente com diferentes públicos e faixas etárias.
Em um cenário onde muitas atrações humorísticas parecem excessivamente nichadas ou carregadas de referências internas da internet, o programa consegue encontrar equilíbrio entre linguagem contemporânea e humor universal.
Talvez justamente por isso exista potencial para uma expansão futura na programação aberta do grupo Globo.
No fim das contas, E.T: Edu e Tatá não pretende revolucionar a comédia brasileira. Mas também não precisa. Sua missão parece muito mais simples: fazer o público rir sem culpa, sem constrangimento e sem agressividade gratuita.
E consegue cumprir isso muito bem.
O texto E.T: Edu e Tatá aposta em humor leve e inteligente sem cair na armadilha do deboche ofensivo foi publicado primeiro no Observatório da TV.