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Em 1920, autoridades soltaram rãs-touro no Arizona, pensando em alimento e caça, mas um século depois ameaçam a sobrevivência de uma cobra rara
Autoridades soltam rãs-touro no Arizona para servir de alimento e caça, mas 100 anos depois elas ameaçam uma cobra rara
Uma decisão tomada no Arizona há cerca de um século mostra como a introdução de uma espécie pode produzir consequências muito além do esperado. Autoridades passaram a colocar rãs-touro-americanas em lagos e rios para criar uma nova opção de alimento e caça. Os anfíbios se adaptaram tão bem que se espalharam por diferentes áreas e hoje representam uma ameaça importante para espécies nativas, entre elas a rara cobra-liga mexicana-do-norte.
Por que as rãs-touro foram levadas para o Arizona?
As introduções começaram na década de 1920, quando órgãos responsáveis pela fauna buscavam estabelecer a rã-touro-americana no estado como espécie de interesse para alimentação e atividades recreativas. As pernas desses grandes anfíbios já eram consumidas em outras partes dos Estados Unidos, e a ideia parecia oferecer uma nova oportunidade local.
O problema é que a rã-touro não pertence naturalmente aos ecossistemas do Arizona. Originária de regiões mais orientais da América do Norte, ela encontrou no novo território ambientes aquáticos onde conseguia se alimentar, reproduzir e avançar sem enfrentar exatamente o mesmo conjunto de limitações de sua área original.
O que fez esses anfíbios se espalharem tanto?
As rãs-touro combinam várias características que favorecem uma invasão biológica. São grandes, possuem alimentação extremamente variada, reproduzem-se em números elevados e conseguem ocupar diferentes tipos de ambientes aquáticos.
Entre as características que dificultam seu controle estão:
Por que a população se espalha
- 1Fêmeas capazes de produzir milhares de ovos em uma única reprodução.
- 2Alimentação que inclui diferentes animais de pequeno porte.
- 3Capacidade de utilizar diversos tipos de ambientes aquáticos.
- 4Deslocamento por grandes distâncias entre áreas úmidas.
- 5Possibilidade de recolonizar locais onde populações haviam sido removidas.
Qual cobra rara passou a sofrer com a presença das rãs?
Uma das espécies mais afetadas é a cobra-liga mexicana-do-norte, conhecida cientificamente como Thamnophis eques megalops. Ela depende fortemente de riachos, lagoas, nascentes e áreas úmidas do sudoeste dos Estados Unidos e do México para encontrar alimento e completar seu ciclo de vida.
A espécie já enfrenta perda e fragmentação de habitat, alterações nos cursos d’água e outras pressões ambientais. A chegada de um predador invasor acrescentou um novo problema justamente nos poucos ambientes aquáticos dos quais a cobra continua dependendo.
Como uma rã consegue representar perigo para uma cobra?
A relação parece contraintuitiva porque cobras normalmente são lembradas como predadoras de sapos e rãs. A cobra-liga mexicana-do-norte realmente pode consumir girinos e indivíduos jovens de rã-touro. Quando a situação se inverte, porém, os adultos da espécie invasora atingem tamanho suficiente para capturar cobras jovens.
As rãs-touro são predadores oportunistas e podem consumir uma variedade surpreendente de presas:
- Outros anfíbios;
- Peixes;
- Pequenos répteis;
- Aves de pequeno porte;
- Pequenos mamíferos;
- Cobras jovens encontradas próximas da água.
Por que os filhotes da cobra estão entre os mais vulneráveis?
O tamanho faz diferença. Uma cobra adulta pode estar fora do alcance de muitas rãs, enquanto indivíduos jovens possuem dimensões que permitem que uma rã-touro grande os capture e engula. Isso pode retirar animais da população antes que eles tenham oportunidade de chegar à idade reprodutiva.
O impacto não termina na predação. Rãs-touro e seus girinos também ocupam os mesmos ambientes e interferem na disponibilidade de recursos usados pela fauna nativa. Assim, a cobra enfrenta tanto um novo predador quanto mudanças na cadeia alimentar ao seu redor.

Até onde as rãs-touro conseguem viajar?
Um dos maiores desafios para controlar a invasão é a capacidade de deslocamento dos animais. Estudos no sudeste do Arizona registraram rãs percorrendo vários quilômetros entre áreas úmidas. Em períodos chuvosos, pequenas poças temporárias ainda podem funcionar como pontos intermediários durante essa expansão.
Isso significa que eliminar os animais de uma única lagoa não garante que o problema terminou. Se existirem populações próximas, novos indivíduos podem chegar posteriormente e restabelecer a espécie, obrigando equipes de conservação a trabalhar em áreas muito maiores.
É possível retirar as rãs-touro e recuperar os ambientes afetados?
Equipes de conservação utilizam diferentes estratégias, incluindo captura com redes e armadilhas, remoção direta dos animais e, em determinados ambientes artificiais, drenagem temporária da água para interromper a reprodução. Existem locais no Arizona onde ações persistentes conseguiram eliminar populações estabelecidas.
Ao mesmo tempo, programas voltados para a cobra-liga mexicana-do-norte incluem proteção de áreas úmidas, acompanhamento das populações e criação de animais em cativeiro para posterior reintrodução. Controlar apenas uma ameaça não é suficiente quando a espécie também sofre com perda de habitat e alterações ambientais.
O que essa história ensina um século depois?
A introdução das rãs-touro ocorreu com um objetivo que, naquele momento, parecia simples: criar uma nova fonte de alimento e uma espécie que pudesse ser capturada por pessoas. O efeito ecológico, entretanto, continuou muito depois que aquela finalidade perdeu importância. Um animal colocado deliberadamente em novos ambientes passou a modificar relações entre predadores, presas e espécies concorrentes.
Um século depois, equipes ainda trabalham para controlar uma expansão iniciada por decisões tomadas na década de 1920. O caso do Arizona mostra por que transportar espécies para ecossistemas onde elas não evoluíram exige tanta cautela. Quando um organismo invasor consegue reproduzir-se rapidamente, viajar quilômetros e explorar uma grande variedade de presas, corrigir a decisão pode levar muito mais tempo do que foi necessário para tomá-la.