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Em 1970, um sacerdote vendeu 12.000 piranhas para salvar a Amazônia: 55 anos depois, sua obra faraônica continua sendo um salva-vidas na selva
Do artesanato ao museu, Giovanni Gallo transforma piranhas em desenvolvimento no Marajó
Em 1970, um padre jesuíta italiano chegou à Ilha do Marajó, no Pará, e se deparou com uma comunidade ribeirinha isolada, sem infraestrutura básica e cercada por um rio que mais separava do que conectava. O que Giovanni Gallo fez a seguir virou caso de estudo em desenvolvimento comunitário sustentável: ele transformou um peixe temido em fonte de renda, em pontes, em pista de pouso e num museu que resiste até hoje na selva amazônica.
O padre italiano que chegou ao Marajó sem recursos e com uma missão
Giovanni Gallo assumiu a paróquia de Santa Cruz do Arari e logo se instalou na Vila de Jenipapo, às margens do rio Arari. A comunidade enfrentava dois problemas sérios: o isolamento geográfico agravado pelas cheias periódicas e a falta de qualquer atividade econômica que gerasse renda de forma estável para as famílias locais.
Foi observando o cotidiano dos pescadores que Gallo identificou a oportunidade improvável. As piranhas eram retiradas das redes o tempo todo, descartadas sem nenhum valor comercial. Para o padre, ali estava a matéria-prima de um projeto que ninguém havia imaginado.
Como 12 mil piranhas viraram artesanato e chegaram à Europa
Giovanni Gallo criou um laboratório na Vila de Jenipapo e ensinou as moradoras da comunidade a embalsamar piranhas e transformá-las em peças de artesanato. Usando sua rede de contatos na Itália, ele abriu um canal de exportação para a Europa. Ao todo, 12 mil exemplares foram vendidos, gerando renda direta para as mulheres que participavam da produção.
O impacto foi duplo. As famílias passaram a ter uma fonte de renda concreta, e o dinheiro arrecadado foi reinvestido integralmente em obras que a comunidade precisava havia décadas. O peixe que os pescadores jogavam fora construiu, literalmente, a infraestrutura da vila.
O que foi erguido com o dinheiro das piranhas empalhadas
As obras financiadas pelo projeto foram expressivas para uma comunidade pequena e isolada na Amazônia. Entre as principais realizações estão:
- 350 metros de pontes de madeira sobre o rio Arari
- Um atracadouro comunitário para embarcações
- Um cemitério adaptado ao período de cheia
- Uma pista de pouso com cerca de 800 metros, a obra mais ambiciosa do projeto
A pista de pouso foi especialmente relevante. Numa região onde o acesso por terra é inviável durante as cheias e o transporte fluvial é lento, a possibilidade de receber aeronaves mudou a relação da comunidade com o restante do Pará.

O Museu do Marajó e o legado cultural de Gallo
As piranhas empalhadas foram apenas o início. Giovanni Gallo também desenvolveu um projeto para preservar a história e a cultura dos habitantes da Ilha do Marajó, que resultou na criação do Museu do Marajó. O acervo reúne peças da cerâmica marajoara, objetos históricos da região e registros da vida ribeirinha que de outra forma teriam se perdido.
Para organizar e catalogar esse acervo sem acesso à eletricidade convencional, Gallo criou o que ficou conhecido como o “computador caipira”: uma estrutura artesanal feita com painéis de madeira, barbantes e manivelas que funcionava como sistema de indexação mecânico. A solução diz muito sobre a abordagem do padre, adaptar os recursos disponíveis em vez de esperar por condições ideais.
55 anos depois, a obra ainda funciona na selva
O projeto de Giovanni Gallo na Ilha do Marajó completou mais de cinco décadas e os vestígios físicos seguem presentes. O Museu do Marajó continua funcionando como referência cultural e turística na região, preservando um patrimônio que poucos visitantes do Pará conhecem. As estruturas erguidas com o dinheiro das piranhas resistiram ao tempo e às cheias.
A história recoloca no debate ambiental uma questão que o próprio Gallo demonstrou na prática: comunidades que encontram valor econômico nos recursos naturais do entorno tendem a preservá-los com muito mais eficácia do que qualquer política externa imposta de fora. Na Amazônia de 1970, um padre italiano e 12 mil piranhas deixaram essa lição mais clara do que qualquer relatório.