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Em 1997, ela foi a primeira Lara Croft de carne e osso e, quase 30 anos depois, vive em 162 hectares nas serras do Uruguai, onde já resgatou mais de 80 cavalos
Após fugir de uma indústria abusiva, a atriz vive em um santuário e voltou a atuar por um motivo: comprar ração para seus 35 animais resgatados
Aos 49 anos, a britânica Rhona Mitra vive uma realidade distante do glamour de Hollywood. A atriz trocou os tapetes vermelhos por uma propriedade de 400 acres no interior do Uruguai, onde resgata e reabilita cavalos vítimas de maus-tratos.
A decisão de deixar os Estados Unidos após quase duas décadas de sucesso foi uma questão de sobrevivência espiritual. Mitra classifica a indústria do entretenimento como exploratória, violenta e focada apenas nas aparências.
Auge no cinema e na TV
Nascida em Londres, a atriz ganhou reconhecimento global em 1997, aos 19 anos, ao ser escolhida como a modelo física da personagem Lara Croft para campanhas de videogame. A experiência rendeu um álbum de música eletrônica da personagem em 1998, produzido por Dave Stewart, do Eurythmics.
Ela encerrou o trabalho com os desenvolvedores ao perceber que Lara Croft estava sendo objetificada. Buscando fugir do esnobismo britânico, mudou-se para Los Angeles e obteve papéis em séries como “Party of Five”, “Boston Legal”, “Nip/Tuck” e “The Last Ship”. No cinema, atuou em produções como “Doce Lar” e “A Vida de David Gale”.
A fuga de Hollywood
Apesar da estabilidade, o ambiente de Los Angeles tornou-se insustentável. A atriz descreve a cidade como um mercado de ações que “vai usar, abusar, estuprar e saquear até acabar com você”. Sem uma equipe que a defendesse, ficou presa a um estereótipo, escalada para papéis de mulheres perigosas ou sensuais.
A profissional relata ter trabalhado com protagonistas masculinos abusivos e alcoólatras. Ela reconhece que o sistema perpetua violência e se aproveita de jovens em busca de validação.
Os episódios que provocaram a mudança
Três eventos inviabilizaram sua permanência na Califórnia. A atriz desenvolveu uma doença autoimune e teve dificuldade em encontrar médicos que levassem seus sintomas a sério.
Em 2015, foi impedida de retornar aos Estados Unidos, onde pagava impostos há 18 anos, porque seu sobrenome constava em uma lista de restrições de origem hindu e muçulmana. A epifania veio durante uma corrida equestre na Patagônia, quando sentiu o cavalo questionar a arrogância humana de usá-lo para ganhar prêmios.
O santuário de cavalos no Uruguai
Em 2016, Mitra vendeu sua casa em Los Angeles e comprou terras no Uruguai, país que considerou mais estável. O santuário, batizado de “The Last Ark”, abriga 35 equinos resgatados de traumas e desnutrição.
Durante seis anos, ela conduziu o trabalho de reabilitação sozinha. Recentemente, o projeto atraiu uma pequena comunidade de apoio. Em suas redes sociais, ela aborda temas como compaixão, superação e críticas ao genocídio em Gaza.
Para manter os animais, a atriz depende de doações e trabalhos pontuais. Foi essa necessidade que a motivou a participar do filme “Red Sonja”, lançado em plataformas digitais. O convite partiu da diretora MJ Bassett, uma amiga, para gravar na Bulgária.
Mitra aceitou o papel porque precisava de dinheiro para pagar a ração dos cavalos. Ela encara o filme não como um retorno, mas como uma conexão temporária com sua vida passada para manter o santuário funcionando.