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“A literatura é uma das razões para a gente estar vivo”, diz Mariana Salomão Carrara

Em entrevista exclusiva, autora fala sobre leitura, processo criativo e novo livro no Dia Mundial do Livro

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Autora Mariana Salomão Carrara. Foto: Todavia / Renato Parada

O Dia Mundial do Livro, celebrado hoje, 23 de abril, e instituído pela UNESCO, propõe um incentivo global à leitura, à circulação de obras e à valorização dos autores.

No Brasil, porém, o cenário acende um alerta. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024, mais da metade da população (53%) não é considerada leitora, um recorde negativo que reflete a perda de cerca de 6,7 milhões de leitores em quatro anos.

Em meio a esse cenário, a literatura também encontra caminhos próprios para circular. Em entrevista exclusiva ao site da Super Rádio Tupi, a escritora Mariana Salomão Carrara reflete sobre esse movimento e sobre o lugar que a leitura ainda ocupa.

O alcance e a “magia” da literatura

Para Mariana, o crescimento do público não acontece de forma repentina, mas quase silenciosa, no boca a boca. “Esse é o poder da literatura, ela vai chegando”, diz, ao explicar como os livros encontram novos leitores. “Conforme você é mais lido, tem mais chance de uma amiga, da amiga, da amiga indicar.”

Em um cenário de queda no hábito de leitura, esse tipo de circulação ganha ainda mais importância. Para a autora, esse processo não é apenas uma questão de alcance, mas de relação. “Dá um super júbilo para o escritor, para a escritora, mas também é um retrato da magia que é realmente a literatura.”

O que é literatura hoje

As discussões sobre o que pode ou não ser considerado literatura têm ganhado espaço recentemente, especialmente após a repercussão de uma fala da pesquisadora Aurora Bernardini, da USP, que diferenciou obras mais populares de uma literatura considerada mais “estética”.
Mariana, no entanto, prefere não limitar o conceito. Para ela, “a literatura tem vários modelos, e que bom que seja assim”, inclusive quando a experiência do leitor passa mais pelo enredo do que pela forma.

“Às vezes a gente gosta mais de um livro pelo enredo do que pela linguagem. Às vezes é uma linguagem mais corriqueira, mas com um enredo que cativa”, explica. Ao mesmo tempo, ela aponta que o impacto de uma obra pode surgir de diferentes elementos: “às vezes não é a linguagem que desloca a gente, é a maneira como se organiza o conteúdo ou o próprio conteúdo em si”.

Nesse sentido, tentar estabelecer uma definição rígida perde força diante da diversidade de experiências possíveis. “Não dá para simplificar dessa forma.”

Escrever como descoberta

Autora Mariana Salomão Carrara. Foto: Todavia / Renato Parada


Esse olhar mais aberto sobre a literatura também aparece na forma como Mariana escreve. Longe de um planejamento rígido, o processo acontece no próprio ato da escrita. “Eu não escrevo pensando em nada”, afirma.

A construção da narrativa surge junto com o texto. “Eu dependo inteiramente da própria escrita para gerar a escrita”, diz, explicando que é a própria linguagem que conduz a história. “Ela vai me trazendo tanto a história como os narradores.”

Esse processo faz com que a escrita seja também uma experiência de descoberta. “Eu acabo sendo quase uma leitora de mim mesma”, afirma.

O leitor brasileiro entre a queda e o interesse

Mesmo com a queda no número de leitores no país, os dados mostram que, quando leem, os brasileiros ainda valorizam autores nacionais. Para Mariana, isso se reflete em um público diverso e em transformação.

“Eu acho difícil definir o leitor brasileiro. É muita gente diferente”, diz. Ainda assim, ela percebe um movimento de aproximação. “O brasileiro está cada vez mais interessado na produção nacional.”

Ao mesmo tempo, há desafios. “Às vezes tem um estranhamento quando tenta uma coisa diferente”, observa. Mas esse mesmo leitor também pode se abrir ao novo: “de repente descobre a literatura nacional e se encanta.”

Novo livro: o jurídico entre humor e crítica

Esse diálogo com diferentes leitores também aparece em seu novo romance, Claudia Vera Feliz Natal, que será lançado em maio. A obra mergulha no universo jurídico, área em que Mariana também atua como defensora pública, mas sem se limitar à própria experiência.

“Eu gosto de deslocar a minha visão”, explica. Narrado por um juiz, o livro traz um olhar crítico e, ao mesmo tempo, bem-humorado sobre esse ambiente. “Eu peguei bastante o ridículo que tem no direito, na liturgia, nos rituais, na forma como as pessoas se relacionam.”

Ainda assim, a narrativa não se afasta de temas recorrentes em sua obra. “Tem a tragédia da justiça e da injustiça”, diz, além de elementos como “família, amizade, dificuldade de conexão”.

Por onde começar e como acessar

Para quem ainda não conhece sua obra, Mariana não indica um único caminho. “Depende muito”, afirma, destacando que cada leitor se conecta de forma diferente. “As pessoas falam de livros diferentes como preferidos, e isso oscila muito.”

Entre as possibilidades, ela sugere caminhos distintos. Para quem busca um mergulho mais profundo, com uma realidade distante da própria, indica A árvore mais sozinha do mundo. A obra, vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura, também está disponível gratuitamente no MEC Livros, biblioteca digital pública lançada pelo Governo Federal em 2026.

Já para quem quer retomar o hábito da leitura, a recomendação é outra: Se Deus me chamar não vou costuma ser o livro que as pessoas dizem que ajudou a voltar a ler.”

Em um cenário de queda no hábito de leitura, mas ainda marcado por descobertas e circulação de histórias, a literatura segue encontrando espaço.

Para Mariana, o sentido permanece direto.

“A literatura é uma das razões para a gente estar vivo.”