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Especialistas em psicologia explicam: quem evita ir ao cemitério no Dia de Finados pode não ser indiferente, mas alguém que vive o luto de outra forma
Pesquisas sobre o luto mostram que se afastar da dor de vez em quando faz parte do enfrentamento e que há outras formas de homenagear quem partiu
No Dia de Finados, celebrado em 2 de novembro, muita gente reserva a data para visitar o túmulo de parentes e amigos. Quem fica em casa, porém, não esqueceu necessariamente quem partiu. Para a psicologia do luto, evitar o cemitério pode ser só outra maneira de lidar com a saudade. O luto não tem formato único, e a ciência mostra que se afastar da dor, em certos momentos, faz parte de um processo saudável.
Evitar o cemitério no Dia de Finados é sinal de indiferença?
Não necessariamente. Ficar longe do cemitério diz pouco sobre o tamanho do afeto, porque cada pessoa encontra o próprio caminho para lembrar de quem morreu. Para alguns, o túmulo é um lugar de encontro. Para outros, é onde a dor fica mais difícil de suportar.
Uma revisão sistemática publicada no periódico International Journal of Environmental Research and Public Health reuniu 15 estudos com pessoas enlutadas por suicídio. O tema eram os chamados vínculos contínuos, a ligação com quem morreu que segue viva depois da perda. Tempo desde a morte, grau de parentesco e expectativas sociais influenciam a forma como cada um expressa esse laço.
Os autores também notaram que o estigma e a cobrança social às vezes levam o enlutado a viver a saudade de forma mais reservada. Ou seja, quem não aparece no movimento de Finados pode estar lembrando do ente querido longe dos olhos dos outros.
O que a psicologia do luto diz sobre fugir da dor?
A psicologia do luto entende que dar um tempo da dor, de vez em quando, faz parte do processo e não é uma falha. Essa é a base do Modelo do Processo Dual, criado pelos pesquisadores Margaret Stroebe e Henk Schut.

Em artigo publicado no periódico Omega: Journal of Death and Dying, os dois explicam que o enlutado enfrenta dois tipos de desafio. Um é a perda em si, com a saudade e as lembranças. O outro é reorganizar a rotina depois da morte.
Segundo o modelo, ninguém dá conta das duas frentes ao mesmo tempo. Por isso a pessoa oscila entre encarar e evitar a dor. Nesse vai e vem existem momentos de descanso do sofrimento, e isso é considerado parte normal do enfrentamento.
Guardar as emoções tem limites, e entender esse equilíbrio ajuda em outras situações do dia a dia. A reportagem a seguir mostra o que acontece com quem engole o que sente para evitar brigas.
Quais rituais de despedida podem substituir a visita ao túmulo?
Os rituais de despedida continuam importantes, mas não precisam acontecer diante do túmulo. Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina concluíram, em estudo publicado na revista Escola Anna Nery, que ritualizar a morte é inseparável da elaboração da perda.
O trabalho analisou o período da pandemia de covid-19, quando os velórios sofreram restrições. Os autores apontaram velórios virtuais, orações por aplicativo e grupos de apoio on-line como alternativas válidas de despedida.

A revisão internacional sobre vínculos contínuos também lista formas de manter viva a memória de quem partiu. Entre as expressões mais comuns relatadas pelos enlutados estão estas:
- Visitar lugares que a pessoa frequentava em vida.
- Criar memoriais, físicos ou na internet.
- Participar de rituais ligados à fé ou à espiritualidade.
Na prática, isso pode ser acender uma vela em casa, rezar numa missa ou reunir a família para contar histórias. O que vale é o gesto ter sentido para quem está de luto.
Como respeitar o próprio jeito de atravessar o luto em novembro?
O primeiro passo é respeitar o próprio ritmo, sem se comparar com quem enche o cemitério na data. O luto muda com o tempo, e a forma de homenagear também pode mudar de um ano para outro. Os rituais de despedida que fazem sentido hoje podem ser outros amanhã.
Se a tristeza estiver pesando demais na rotina ou surgirem pensamentos de desistir da vida, procure um psicólogo ou a unidade de saúde mais perto de você. O Centro de Valorização da Vida atende de graça pelo 188, 24 horas por dia. E se este 2 de novembro estiver difícil para você, se cuide e escolha a homenagem que fizer bem ao seu coração.
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