Eu amo minha mãe, mas dói sentir que nunca sou boa o suficiente para ela - Super Rádio Tupi
Conecte-se conosco
x

Entretenimento

Eu amo minha mãe, mas dói sentir que nunca sou boa o suficiente para ela

Anos tentando ser boa o suficiente para a mãe levaram a uma decisão

Publicado

em

Compartilhe
google-news-logo
Eu amo minha mãe, mas dói sentir que nunca sou boa o suficiente para ela
Conviver com uma mãe crítica mudou a forma como ela via a si mesma

Amar a mãe e ao mesmo tempo sofrer com a relação que se tem com ela é uma das experiências mais difíceis e solitárias que uma pessoa pode viver. Camila, 33 anos, moradora de Belo Horizonte, conhece bem essa dor, e depois de anos tentando ser boa o suficiente para uma mãe crítica e controladora, ela tomou uma decisão que mudou a forma como enxerga a si mesma e ao vínculo que as une.

Como é crescer sem nunca se sentir boa o suficiente?

Desde a infância, Camila percebia que a relação com a mãe era diferente. Enquanto as amigas tinham pais acolhedores e tolerantes com os erros, a mãe dela sempre transformava qualquer deslize em prova de que ela havia feito a escolha errada. Uma vez, ao passar mal durante uma viagem escolar que a mãe não aprovava, ouviu: “Está vendo? Eu falei que não era para ir.”

Essa dinâmica de crítica constante foi moldando a autoestima de Camila ao longo dos anos. Na adolescência, ela já apresentava dificuldade de tomar decisões e de confiar no próprio julgamento, o que levou a orientadora da escola a sugerir acompanhamento psicológico. Foi em terapia que ela começou a entender a origem dessa insegurança.

Por que filhas se sentem tão afetadas por mães críticas?

A psicóloga Renata Souza, com consultório em São Paulo e especialização em vínculos familiares, explica que o impacto de uma mãe crítica costuma ser ainda mais profundo do que o de um pai com o mesmo comportamento. Para as filhas, esse vínculo carrega uma expectativa afetiva muito específica, e quando ele falha, a dor é descrita como uma perda maior, algo que simplesmente não deveria ser assim.

Entre os padrões mais comuns vividos por filhas que têm um relacionamento difícil com a mãe, Souza destaca:

Sinais comuns de uma relação materna emocionalmente difícil

Comportamentos que podem marcar a dinâmica entre mãe e filha ao longo da vida.

❄️
Mãe percebida como fria, severa ou emocionalmente distante durante a infância.
📏
Amor condicionado ao comportamento, ao desempenho ou às escolhas da filha.
🧭
Controle excessivo da vida adulta da filha, incluindo rotinas, relacionamentos e decisões pessoais.
💬
Envolvimento insuficiente, com pouco interesse genuíno pelo que acontece na vida dela.

Quando o amor não é suficiente para sustentar a relação?

Na vida adulta, a situação de Camila foi se intensificando. A mãe passou a opinar sobre horários de sono, planos de viagem e até sobre o namorado dela. O desejo de manter o vínculo fazia Camila responder mensagens várias vezes ao dia e visitar a mãe com frequência, mas nada parecia ser suficiente. A sensação de nunca fazer o bastante foi crescendo até se tornar insuportável.

A gota d’água veio quando a mãe se queixou de que Camila não tinha mais tempo para ela, ignorando todo o esforço que ela já fazia. Camila então decidiu ligar e, com cuidado, dizer como se sentia, explicando que não tinha capacidade de responder mensagens o tempo todo e que precisava de mais espaço para respirar.

Eu amo minha mãe, mas dói sentir que nunca sou boa o suficiente para ela
Depois de anos tentando agradar a mãe, ela resolveu falar o que sentia

Qual é o primeiro passo para mudar uma relação familiar difícil?

Para a psicóloga Souza, iniciar uma conversa honesta é quase sempre o ponto de partida mais importante. Essa conversa precisa deixar claro que o objetivo não é atacar, mas preservar a relação. Ela recomenda começar dizendo algo como: “Essa relação é muito importante para mim, e é por isso que quero conversar sobre o que está me incomodando.”

Segundo ela, alguns pontos são fundamentais nesse processo:

Como estabelecer limites em uma conversa difícil

Estratégias simples para comunicar sentimentos e expectativas com mais clareza.

📝
Prepare o que deseja dizer com antecedência para evitar se perder na emoção do momento.
💬
Nomeie o que está sendo difícil e o que espera que mude de forma clara e sem acusações.
Aceite que a outra pessoa pode não reagir bem imediatamente e que mudanças reais costumam ser lentas.
🧠
Reduza o contato mental constante com a relação, pois o excesso de ruminação é o que mais desgasta emocionalmente.

É possível ter paz em uma relação com a mãe que nunca vai mudar?

Após a conversa, a mãe de Camila ficou ofendida e assumiu o papel de vítima. Mas, mesmo sem obter a resposta que esperava, Camila sentiu algo que não sentia há muito tempo: alívio. Percebeu que havia feito o que estava ao seu alcance e que cabia a ela definir os limites necessários para o próprio bem-estar.

A psicóloga Souza reforça que não é possível mudar o comportamento de outra pessoa, mas é possível mudar a quantidade de energia mental que se gasta tentando resolver algo que não depende só de você. Segundo ela, muitas pessoas descobrem que conseguem conviver bem com um relacionamento familiar complicado quando param de se cobrar por algo que não está em suas mãos resolver. Aceitar a mãe como ela é, sem abrir mão de si mesma, foi o caminho que Camila encontrou para, finalmente, se sentir boa o suficiente.