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Fundada em 1682, mas registrada desde 1560: a cidade onde o Boitatá, a lendária cobra de fogo, ainda vive e ajuda a explicar o imaginário das noites do Sul
O Boitatá, lendária cobra de fogo, encontrou raízes nesta cidade gaúcha fundada em 1682.
Toda lenda que atravessa cinco séculos costuma se enraizar em algum lugar específico. Em São Borja, na fronteira oeste do Rio Grande do Sul, o Boitatá deixou de ser apenas história para virar nome de entidade tradicionalista e parte da rotina cultural da cidade fundada em 1682. É nesse pedaço da campanha gaúcha, herdeiro dos Sete Povos das Missões, que a cobra de fogo dos guaranis ainda anima conversas nas noites de baile.
De onde vem a palavra Boitatá e o que ela realmente significa?
A palavra nasce do tupi-guarani, da junção de mboi, cobra, com tatá, fogo. O primeiro registro escrito da criatura aparece em uma carta do padre jesuíta José de Anchieta, datada de 1560, em que ele descreve o baetatá como um facho cintilante que corria pelas praias e matava indígenas. Segundo o Rio Memórias, esse relato é praticamente o único documento quinhentista sobre a entidade, o que faz dele o ponto de partida de tudo que se escreveu depois.
A tradução mais aceita hoje é justamente cobra de fogo, embora Anchieta tenha registrado a expressão como coisa de fogo. A pequena variação diz muito. Antes de virar serpente com escamas em chamas, o Boitatá era uma luz sem forma definida, um clarão que ninguém entendia direito.

Por que a versão gaúcha do Boitatá é diferente das outras?
No Sul, a lenda ganhou uma explicação de origem única, ligada ao dilúvio. Conforme relata o jornal O Sul, uma cobra chamada Gauçu-boi foi um dos poucos bichos que sobreviveram à grande enchente e, faminta, passou a comer apenas os olhos dos mortos. Como os olhos guardavam a última luz que viram, o corpo da serpente foi ficando cada vez mais iluminado até estourar em um clarão que se espalhou pelo campo. Desde então, o Boitatá perseguiria os campeiros nas noites da campanha.
Essa versão foi eternizada pelo escritor pelotense João Simões Lopes Neto no conto Mboitatá, publicado em Lendas do Sul em 1913. Antes dele, porém, a lenda já circulava em Porto Alegre. De acordo com estudo publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, a narrativa foi impressa na Revista Mensal do Partenon Literário em 1869, quase meio século antes de Simões Lopes Neto reescrevê-la como conto.
O que São Borja tem a ver com o Boitatá?
A cidade é a mais antiga do Rio Grande do Sul e a primeira das reduções jesuíticas dos Sete Povos, fundada por padres da Companhia de Jesus para catequizar guaranis. Segundo a Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul, São Borja carrega o título de Terra dos Presidentes, por ter sido berço de Getúlio Vargas e João Goulart, e também é chamada de Capital Gaúcha do Fandango pela força do movimento tradicionalista local.
Não à toa, uma das entidades tradicionalistas mais atuantes da cidade se chama Centro Nativista Boitatá. Conforme reportagem da Secretaria de Comunicação do Governo do RS, o CN Boitatá esteve na comitiva que recebeu, em 2018, a sanção da lei estadual que oficializou o título de Capital do Fandango. A cobra de fogo, que assustava campeiros à noite, virou nome de salão onde se dança até de manhã.
Alguns marcos da presença cultural do folclore e das tradições em São Borja mostram o alcance desse enraizamento.
- Centro Nativista Boitatá: entidade tradicionalista ativa, participante das principais programações da Semana Farroupilha da cidade.
- 35 bailes na Semana Farroupilha de 2017: número recorde em cinco entidades, citado pelo Governo do RS como justificativa para o título de Capital do Fandango.
- Lei estadual 13.041/2008: oficializa São Borja como Terra dos Presidentes, ampliando o vínculo entre identidade local e imaginário nacional.
- Museu Missioneiro: guarda peças da tradição guarani que ajudam a entender a origem indígena de mitos como o Boitatá.
Como as versões do Boitatá mudam pelo Brasil?
A lenda não é a mesma de Norte a Sul. Cada região deu à cobra de fogo uma forma, uma função e um cenário. Conforme o portal Toda Matéria, o folclore brasileiro guarda variações regionais bem marcadas, resultado de séculos de reelaboração oral.
Essa diversidade explica por que a lenda foi incorporada, em 1965, ao rol de manifestações culturais protegidas pelo Decreto 56.747, que instituiu o Dia do Folclore em 22 de agosto. O texto assinado por Castelo Branco reconhece a importância dos estudos folclóricos como fator legítimo de conhecimento da cultura popular brasileira.
O Boitatá tem explicação científica?
Tem, e ela é anterior à antropologia moderna. O fenômeno responsável pelas aparições descritas nas noites de campanha é o fogo-fátuo, uma chama azulada que surge em áreas úmidas e ricas em matéria orgânica em decomposição. Segundo o Grupo de Estudos em Ciências da UFABC, o naturalista W. Durham já havia proposto, em 1729, que se tratava da combustão espontânea de gases como o metano e a fosfina, e não de vermes bioluminescentes, como se acreditava então.
Cemitérios, pântanos, superfícies de lagos e áreas alagadiças da campanha gaúcha são justamente os cenários mais propícios ao fenômeno. Quando alguém se assusta e sai correndo, o deslocamento do ar faz a chama parecer perseguir a pessoa, o que reforçou por séculos a ideia de uma cobra viva. Alguns elementos ajudam a entender como o encontro real se traduziu em mito.
- Gases da decomposição: matéria orgânica em pântanos e brejos libera metano e fosfina, combustíveis em contato com o ar.
- Chama azulada de baixa temperatura: o fogo-fátuo não queima a vegetação nem esquenta a água ao redor, o que reforçou a ideia de fogo sobrenatural.
- Movimento provocado pelo vento: pequenas correntes de ar deslocam a chama, criando a impressão de perseguição.
- Ambiente noturno e isolado: campeiros solitários em noite escura tinham poucos referenciais, o que amplificava o susto.
É esse cruzamento entre química, geografia e imaginação que mantém o Boitatá vivo. A ciência não desmonta a lenda, apenas mostra que ela nasceu da tentativa dos guaranis, e depois dos gaúchos, de dar sentido a algo que realmente aparecia à noite nos campos.
Um mito que ainda ajuda a cidade a se contar
Poucas cidades brasileiras têm o folclore tão embutido no cotidiano quanto São Borja. Da carta de Anchieta em 1560 ao letreiro do Centro Nativista Boitatá, a cobra de fogo atravessou 465 anos, mudou de forma várias vezes e se instalou na cultura da primeira redução jesuítica do Rio Grande do Sul como parte do próprio nome dos lugares onde se dança e se conversa.
No fim, o que a lenda revela é a maneira como uma comunidade absorve o que não entende. O clarão nos campos virou serpente, virou conto, virou salão de baile. Enquanto houver noite escura na campanha gaúcha, é provável que alguém em São Borja siga contando ter visto o Boitatá cruzar o horizonte.