José Saramago sobre a apatia: “Acho que não cegamos, acho que estamos cegos: cegos que veem, cegos que, vendo, não veem.” Uma reflexão sobre a indiferença coletiva e a perda da empatia no mundo moderno - Super Rádio Tupi
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José Saramago sobre a apatia: “Acho que não cegamos, acho que estamos cegos: cegos que veem, cegos que, vendo, não veem.” Uma reflexão sobre a indiferença coletiva e a perda da empatia no mundo moderno

José Saramago deixou uma reflexão incômoda sobre a apatia.

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José Saramago sobre a apatia: “Acho que não cegamos, acho que estamos cegos: cegos que veem, cegos que, vendo, não veem.” Uma reflexão sobre a indiferença coletiva e a perda da empatia no mundo moderno
Saramago escreveu o romance em 1995, antes de smartphone, feed infinito e notícia em tempo real na palma da mão.

Quem já passou por um morador de rua sem olhar, rolou o feed com notícias de tragédia sem sentir nada ou fingiu não escutar uma briga no prédio conhece essa sensação incômoda. A frase de Saramago sobre a cegueira e a apatia, escrita há mais de duas décadas, continua batendo no peito de quem lê hoje. Vendo tudo, a gente parece enxergar cada vez menos.

De onde vem essa frase famosa sobre os cegos que enxergam?

A cena original está no fim de um romance duro, em que uma epidemia de cegueira branca toma uma cidade inteira e revela o pior das pessoas. Quando a visão volta, a médica personagem principal solta a frase que assombra o leitor até hoje: talvez não tenhamos cegado, talvez já estivéssemos cegos antes.

O livro é Ensaio sobre a Cegueira, do escritor português José Saramago, ganhador do Nobel de Literatura em 1998. A tal cegueira do título não é a dos olhos, é a da alma: a incapacidade de reconhecer o outro como gente, mesmo com o outro bem na frente.

José Saramago sobre a apatia: “Acho que não cegamos, acho que estamos cegos: cegos que veem, cegos que, vendo, não veem.” Uma reflexão sobre a indiferença coletiva e a perda da empatia no mundo moderno
Não dá para se comover com cada tragédia do mundo, mas dá para escolher parar diante do que está ao alcance da mão.

O que significa, na prática, ser um “cego que vê”?

É passar todo dia pelas mesmas cenas duras e não deixar mais que elas te toquem. É saber da tragédia, comentar, indignar por 15 segundos e voltar para a série no streaming como se nada tivesse acontecido lá fora.

Essa cegueira funcional aparece em vários gestos pequenos. Os pontos principais são:

1
Desvio de olhar no sinal Fingir mexer no celular para não encarar quem estende a mão na janela do carro.
2
Rolagem rápida na tragédia Passar o dedo por cima do vídeo de enchente ou guerra como quem folheia revista.
3
Escuta pela metade Perguntar “tudo bem?” sem esperar a resposta, tratando gente igual protocolo.
4
Indignação de meia hora Postar sobre a causa importante, receber curtidas e esquecer no dia seguinte.

Por que ficou tão fácil olhar sem enxergar hoje em dia?

Saramago escreveu o romance em 1995, antes de smartphone, feed infinito e notícia em tempo real na palma da mão. O que ele intuiu como diagnóstico foi ficando cada vez mais evidente com a chegada das telas, que ao mesmo tempo mostram tudo e adormecem a gente para tudo.

Algumas coisas ajudam a explicar por que a apatia cresceu:

  • O volume de más notícias é tanto que o cérebro cria uma casca protetora.
  • A distância entre a tela e a rua faz o sofrimento alheio parecer ficção.
  • A pressa do dia a dia deixa pouco espaço para parar e sentir.
  • O medo de “se envolver demais” leva muita gente a preferir não ver.
  • A ideia de que “não posso resolver tudo” vira desculpa para não fazer nada.

O resultado é uma cidade cheia de gente que se cruza sem se encontrar. Todo mundo enxerga, todo mundo passa. E o “cego que vê” da frase de Saramago vira retrato coletivo, não descrição de um personagem só.

Leia também: Sabedoria irlandesa do dia: “As chamas mais intensas da vida muitas vezes iluminam o caminho que você deveria seguir.” Uma lição sobre adversidade e crescimento.

Como esse pensamento se compara ao de outros críticos da apatia?

Saramago não foi o único a olhar para essa indiferença moderna e cutucar a ferida. Outros autores enxergaram o mesmo problema por ângulos diferentes, cada um dando um nome próprio ao silêncio que corrói o coletivo.

Veja como cada visão descreve o mesmo mal-estar:

Pensador Ideia central Foco
José Saramago Portugal, literatura Cegos que veem sem enxergar Indiferença moral
Hannah Arendt Alemanha, filosofia Banalidade do mal Obediência sem reflexão
Susan Sontag EUA, ensaísta Diante da dor dos outros Anestesia pelas imagens
Paulo Freire Brasil, educação Consciência crítica Educação que faz enxergar

Como começar a enxergar de novo o que a rotina apaga?

Não dá para se comover com cada tragédia do mundo, mas dá para escolher parar diante do que está ao alcance da mão. Cumprimentar o porteiro pelo nome, escutar o colega até o fim, sentar cinco minutos com quem parece triste na família. Empatia é decisão pequena, repetida, não gesto grandioso de um dia só.

Saramago morreu em 2010 e deixou o aviso em forma de romance. Enquanto continuarmos passando pelo outro sem realmente vê-lo, a epidemia de cegueira do livro segue acontecendo em cada esquina, cada casa e cada tela, sem precisar de doença nenhuma para explicar.

💡 Curiosidade Saramago foi o primeiro escritor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel de Literatura, honraria concedida em 1998.