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Mãe e filha coletam 8 mil garrafas de vidro e constroem uma casa de sete cômodos em dois anos

Oito mil garrafas descartadas viram casa sustentável no litoral

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Mãe e filha coletam 8 mil garrafas de vidro e constroem uma casa de sete cômodos em dois anos
Mulheres constroem moradia sustentável com lixo da própria ilha

Na Ilha de Itamaracá, em Pernambuco, uma estrutura de 70 metros quadrados com sete cômodos e paredes que brilham ao sol conta uma história que começa no lixo descartado irregularmente na própria ilha. Edna Dantas e sua filha Maria Gabrielly Dantas coletaram mais de 8 mil garrafas de vidro, combinaram com madeira reaproveitada e móveis descartados e ergueram a Casa de Sal em dois anos de trabalho contínuo. “Ela tem a nossa assinatura”, dizem. E tem mesmo: cada garrafa posicionada na vertical carrega a decisão de transformar resíduo em moradia, e descarte em beleza com propósito.

Como surgiu a ideia de construir uma casa com garrafas de vidro?

A origem da Casa de Sal está na combinação de dois problemas que Edna e Gabrielly encontraram ao se mudarem para a Praia do Sossego, em Itamaracá, em 2019: a falta de moradia adequada e o descarte irregular de resíduos em áreas de mata e mangue da ilha. Edna, educadora ambiental com experiência em resíduos sólidos, percebeu que o vidro era um dos materiais mais descartados na região e um dos menos recolhidos pelo sistema formal de reciclagem. A decisão de usar as garrafas como material construtivo foi, ao mesmo tempo, uma solução habitacional e uma resposta ambiental ao que estava sendo ignorado.

As duas já tinham um histórico de criatividade com o descartado. Desde 2014, conduziam o projeto Cabrochas, que começou como brechó e evoluiu para uma marca sustentável. Essa trajetória com materiais reaproveitados foi o que abriu caminho para pensar uma casa inteira construída fora dos padrões convencionais da construção civil.

Como foi o processo de construção da Casa de Sal?

A obra começou em maio de 2020 com apenas 17 metros quadrados concluídos em três meses, o suficiente para que as duas se mudassem para dentro e seguissem construindo aos poucos. “O primeiro ano e meio foi pura engenhosidade: sem banheiro convencional, lavando louça em uma bacia. Mas nunca perdemos de vista nossa visão”, contou Gabrielly. As garrafas foram recolhidas na própria ilha, com contribuições de bares, restaurantes, vizinhos e turistas, e posicionadas na vertical com argamassa, técnica que garante maior resistência estrutural e cria efeitos visuais únicos quando a luz atravessa o vidro.

Ao longo do processo, Edna e Gabrielly enfrentaram resistência no setor da construção. “Queríamos contratar mão de obra apenas para tarefas específicas, mas eles sempre queriam dar suas opiniões, nos corrigir e nos dizer como fazer as coisas”, relatou Gabrielly. O machismo e o racismo que descrevem como presença constante no canteiro de obras se tornaram parte da narrativa da casa, que hoje é apresentada também como um manifesto sobre quem tem direito a construir e a ser ouvida.

Quais materiais foram usados além das garrafas?

A bioconstrução da Casa de Sal combinou diferentes materiais reaproveitados para além das garrafas de vidro. A estrutura foi complementada com:

  • Madeira reaproveitada: usada em vigas, esquadrias e elementos estruturais, retirada de descartes que seriam descartados em aterros ou simplesmente queimados.
  • Móveis descartados: peças encontradas e recuperadas que ganharam segunda função dentro da casa, integrando o conceito de ecodesign à arquitetura da moradia.
  • Argamassa como ligante: as garrafas foram assentadas com argamassa convencional, garantindo estabilidade sem abrir mão da leveza visual que o vidro proporciona.
  • Garrafas posicionadas na vertical: técnica que distingue a Casa de Sal de outras construções com vidro e que, segundo Maria Gabrielly, foi inédita no mundo nessa escala, além de contribuir para a luminosidade natural dos ambientes internos.
Mãe e filha coletam 8 mil garrafas de vidro e constroem uma casa de sete cômodos em dois anos
Mulheres constroem moradia sustentável com lixo da própria ilha

Por que o nome Casa de Sal?

O nome é uma homenagem à composição do próprio vidro. Areia, barrilha e sal são os elementos básicos que formam o material. Ao chamar a construção de Casa de Sal, Edna e Gabrielly trouxeram para o nome da moradia a mesma lógica que guiou a obra: reconhecer o valor do que está presente e que normalmente é ignorado. A casa fica a 100 metros da praia, dentro de uma Área de Proteção Ambiental, e um dos cômodos está disponível para locação na plataforma Airbnb, onde as anfitriãs descrevem o espaço como “hospedagem afetiva em uma casa construída por mulheres”.

O que a Casa de Sal representa para além da moradia?

Edna e Gabrielly são explícitas sobre o alcance do que construíram. “Transformamos lixo em dignidade. A casa traz beleza, mas também carrega denúncia”, afirma Gabrielly. Uma das denúncias que fazem publicamente: mulheres negras no Brasil podem levar até sete gerações, cerca de 184 anos, para comprar uma casa própria. A Casa de Sal existe no contexto de um país com déficit habitacional de 5,8 milhões de moradias, segundo o IBGE, e com uma taxa de reciclagem de vidro que, mesmo depois de avanços recentes, ainda fica muito abaixo do volume produzido. Em 2024, a indústria de vidro registrou 25% de reciclagem das embalagens. O Brasil produz mais de 8,6 bilhões de unidades de vidro por ano.

Mais do que uma moradia sustentável, a casa recebe visitantes interessados em vivências de ecoturismo, promove debates sobre racismo ambiental e descarte de lixo e serve como modelo prático para comunidades que convivem com grande volume de resíduos e poucos recursos para construção convencional. O desejo de Edna e Gabrielly é levar esse modelo adiante, para além de Itamaracá.

Uma casa que prova que resíduo tem valor quando alguém decide olhar para ele

A Casa de Sal não é apenas uma construção incomum numa ilha de Pernambuco. É a demonstração concreta de que os materiais que o sistema descarta têm potencial real quando encontram pessoas dispostas a enxergar além do destino convencional do lixo. Oito mil garrafas que iriam para o solo ou para o mar se tornaram paredes que filtram a luz do sol e guardam uma família.

O que Edna e Maria Gabrielly construíram em dois anos não tem só a assinatura delas. Tem a assinatura de cada garrafa coletada, de cada vizinho que contribuiu com o material, de cada escolha feita ao longo de uma obra que não tinha manual. E tem, sobretudo, a clareza de que construção sustentável não é um conceito reservado a grandes projetos ou a quem tem recursos para escolher materiais nobres. Às vezes, ela começa com o que está jogado no chão.