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Mesmo malvisto por muita gente, o urubu faz um trabalho que quase ninguém quer: consome carcaças de animais mortos e ajuda a evitar a propagação de doenças
Estudo sobre a Índia liga o sumiço dos abutres a mais mortes humanas, e pesquisa revela como o intestino do urubu lida com as bactérias da carniça
Ele tem fama de ave agourenta, de bicho sujo e de mau presságio. Mas o urubu passa o dia fazendo um serviço que ninguém disputa: localizar animais mortos e comer a carne antes que ela vire foco de bactérias e moscas. Essa dieta, chamada de necrofagia, transforma a ave numa equipe de limpeza da natureza. Aqui no Rio, quem faz esse trabalho é o urubu-de-cabeça-preta, figura comum no céu da cidade e da Baixada.
Como a necrofagia do urubu ajuda a frear doenças?
A necrofagia ajuda porque tira do ambiente a carcaça que ficaria apodrecendo ao ar livre. Um animal morto à beira de uma estrada ou num terreno baldio atrai insetos e cães. A carne em decomposição também acumula microrganismos que podem causar doenças.
A explicação para a ave não adoecer com esse cardápio está na digestão. Um estudo publicado no periódico Nature Communications, disponível no repositório da Universidade Técnica da Dinamarca, analisou amostras de 50 urubus americanos de duas espécies. Na pele da cabeça, os cientistas acharam em média 528 grupos de bactérias por amostra. No intestino, só 76.
Os pesquisadores viram ainda que o DNA das presas, presente no rosto das aves, chegava quase todo destruído ao intestino. Para os autores, isso indica um sistema digestivo muito seletivo. Bactérias como Clostridia e Fusobacteria, que costumam causar doenças em outros vertebrados, predominam no intestino desses urubus.

O que aconteceu na Índia quando os abutres sumiram?
Quando os abutres quase desapareceram da Índia, a mortalidade humana subiu. A conclusão é de uma pesquisa dos economistas Eyal Frank e Anant Sudarshan, publicada na American Economic Review, uma das principais revistas de economia do mundo.
Os abutres asiáticos são parentes distantes do nosso urubu e cumprem a mesma função na cadeia alimentar. A população dessas aves despencou depois que um analgésico usado no gado ficou mais barato com o fim da patente. Os animais tratados morriam, e os abutres se intoxicavam ao comer a carne.
Segundo o estudo, a extinção funcional das aves elevou a mortalidade humana em mais de 4%. O principal motivo foi um choque sanitário: as carcaças deixaram de ser removidas do ambiente. Os autores calculam um prejuízo de 69,4 bilhões de dólares por ano.
A história mostra que cada animal morto deixado para trás tem um custo para todo mundo. Para entender melhor por que a fama de sujo é injusta, vale seguir nesta outra reportagem.
Por que o urubu-de-cabeça-preta aparece tanto na cidade?
O urubu-de-cabeça-preta vai aonde há comida fácil, e na cidade isso costuma significar lixo exposto e restos de animais. Lixões, áreas de descarte irregular e terrenos abandonados acabam virando pontos de encontro dos bandos.

Por isso, a saída para quem se incomoda com os urubus no bairro é cuidar do lixo, e não da ave. Matar, perseguir, caçar ou capturar animais da fauna silvestre é crime previsto no artigo 29 da Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/1998). A pena é de detenção de seis meses a um ano, mais multa.
Encontrou uma ave ferida ou presa em casa? Não tente pegar o animal com as mãos. Acione o órgão ambiental da sua cidade ou do estado e espere a equipe preparada para o resgate.
Qual o lugar do urubu na cadeia alimentar e no nosso dia a dia?
Na cadeia alimentar, o urubu fecha o ciclo: aproveita o que sobrou de outros bichos e deixa a área mais limpa. Sem ele, a carcaça demora mais a sumir e fica disponível para cães e insetos, que levam micróbios para perto das pessoas.
Da próxima vez que você vir um bando planando sobre a Avenida Brasil ou sobre a Baixada, lembre que ali tem trabalhador em pleno expediente. E conta pra gente: você já tinha parado para pensar no serviço que os urubus do seu bairro fazem?
Se a curiosidade sobre as aves ainda não passou, tem outra pergunta que muita gente faz ao olhar para os fios da rua.
Por que os pássaros não levam choque ao pousar em fios de alta tensão?➔