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Montes de terra erguidos por indígenas há 600 anos resistem no meio de Lages e revelam a engenharia dos ancestrais Kaingang e Xokleng

Uma obra de engenharia indígena sobrevive há 600 anos em Lages.

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Montes de terra erguidos por indígenas há 600 anos resistem no meio de Lages e revelam a engenharia dos ancestrais Kaingang e Xokleng
São montes de terra construídos à mão pelos antigos povos do planalto. / Imagem ilustrativa

Monumentos antigos costumam ser imaginados em pedra, como pirâmides e templos. Em Lages, na Serra Catarinense, alguns dos mais antigos foram erguidos com terra: pequenas elevações construídas por povos indígenas há cerca de 600 anos e preservadas hoje dentro da área urbana. Elas fazem parte de uma tradição arquitetônica que transformou o planalto do Sul do Brasil em uma paisagem cerimonial.

O que são as estruturas monticulares de Lages?

São montes de terra construídos à mão pelos antigos povos do planalto, encontrados no bairro Passo Fundo, em plena área urbana. Análises laboratoriais do solo, citadas pela Prefeitura de Lages, indicam que as estruturas monticulares, como os arqueólogos chamam essas elevações, foram usadas como locais de sepultamento por populações do tronco linguístico Proto-Jê, ancestrais dos atuais Kaingang e Xokleng.

O valor dos sítios levou o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) a realizar uma vistoria técnica no local, acompanhada pela Fundação Cultural de Lages. Para a equipe municipal de patrimônio, preservar essas estruturas é uma forma de respeitar a memória dos povos originários que ocuparam a serra muito antes da chegada dos tropeiros.

Os povos Jê do Sul, também chamados de Jê Meridionais. / Créditos: Wikipédia

Quem construiu os montes de terra do planalto catarinense?

Os povos Jê do Sul, também chamados de Jê Meridionais. Segundo estudo do arqueólogo Pedro Ignácio Schmitz, publicado pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), grupos da família Jê se separaram de populações do Brasil Central e migraram para o Sul, onde deram origem aos Kaingang, a oeste, e aos Xokleng, a leste. No planalto, esses povos construíram casas subterrâneas, espaços de reunião e montículos funerários.

Os montes tinham um significado especial. Pesquisa publicada na Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP) reúne registros históricos segundo os quais os Kaingang do Rio Grande do Sul reservavam essas estruturas a seus principais caciques, e os Xokleng de Santa Catarina também destinavam montículos a suas lideranças. Erguer um monte de terra era, portanto, uma forma de honrar quem havia conduzido a comunidade.

Essa herança continua viva. Estudo publicado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) lembra que os Kaingang e os Xokleng são hoje os únicos representantes desse ramo Jê, e que arqueólogos comparam a cerâmica Kaingang recente com os fragmentos encontrados nos sítios antigos para reconstituir essa continuidade de séculos.

O que eram os danceiros do planalto?

Eram grandes círculos de terra que delimitavam espaços cerimoniais. A Revista Pesquisa FAPESP explica que esses sítios, conhecidos popularmente como danceiros, são formados por taipas circulares construídas em terra ao redor de montículos e podem ultrapassar 150 metros de diâmetro, uma área maior que a de um campo de futebol.

Esse tipo de construção se concentra justamente nas terras altas de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Estudo publicado pelo grupo de pesquisa da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) descreve os aterros anelares, também chamados de áreas entaipadas, como parte da arquitetura cerimonial Jê do Sul, com datações que recuam até o século IX em sítios da região.

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Como viviam os construtores dos montes?

Como agricultores fixos, e não como caçadores nômades, como se pensava. Pesquisas recentes destacadas pela Pesquisa FAPESP mostram que os ancestrais dos Jê cultivavam mandioca e feijão no planalto catarinense há cerca de mil anos e viviam em aldeias com casas parcialmente escavadas no solo, as chamadas casas subterrâneas.

Um dos sítios que reforçam essa visão fica em Urubici, perto de Lages. No sítio Bonin, ocupado entre 1300 e 1440 d.C., os pesquisadores encontraram resíduos de amido e partículas microscópicas de plantas em 14 fragmentos de cerâmica retirados de estruturas que parecem ter servido de cozinhas. As datas coincidem com a época dos montes de Lages e ajudam a imaginar comunidades organizadas, que plantavam, cozinhavam e honravam seus antepassados na mesma paisagem de campos e araucárias.

A escala dessa ocupação também surpreende. Um projeto internacional de pesquisa com participação brasileira e britânica, descrito na Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, aponta que os proto-Jê do Sul eram numerosos, organizados em escala regional e capazes de construir aldeias grandes e bem planejadas no planalto.

A serra que guarda uma história escrita na terra

Os montes de Lages mostram que a ocupação da Serra Catarinense começou muito antes dos tropeiros e das fazendas. Antes dos muros de pedra e das estradas, povos indígenas já moldavam o terreno com técnica, planejamento e significado.

Preservados em meio aos bairros da cidade, esses montes de terra lembram que cada paisagem carrega camadas de história, e que algumas das mais antigas continuam visíveis para quem sabe olhar para o chão.