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No extremo norte do Brasil, uma montanha de topo plano com quase 2 bilhões de anos guarda um mundo isolado do resto do planeta

Quase 2 bilhões de anos transformaram esta montanha de topo plano.

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O Monte Roraima é o mais famoso dos tepuis, montanhas de topo plano e paredes abruptas típicas do norte da América do Sul. / Imagem ilustrativa

Algumas montanhas têm picos; outras parecem ter sido cortadas por uma faca. No extremo norte do país, o Monte Roraima ergue paredões verticais que sustentam um platô quase plano, flutuando acima das nuvens na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana. É uma montanha com as formações rochosas mais antigas da Terra, e seu topo abriga espécies que não existem em nenhum outro lugar.

O que é um tepui e por que o Monte Roraima é tão antigo?

O Monte Roraima é o mais famoso dos tepuis, montanhas de topo plano e paredes abruptas típicas do norte da América do Sul. A palavra vem da língua do povo indígena Pemon e costuma ser traduzida como “casa dos deuses”, uma referência ao isolamento do platô, quase sempre encoberto por névoa. A formação integra o Escudo das Guianas, uma das regiões geológicas mais estáveis e antigas do planeta.

Sua origem remonta ao período Pré-Cambriano, antes mesmo do surgimento da vida complexa na Terra, com rochas areníticas que se formaram há cerca de 1,8 bilhão de anos. Ao longo de eras, a erosão desgastou o terreno ao redor e deixou de pé apenas os blocos mais resistentes, criando as mesas de pedra que hoje despontam sobre a savana. O resultado é uma paisagem que parece pertencer a outro tempo geológico.

O Serviço Geológico do Brasil (SGB) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) adotam a altitude de 2.734 metros / Créditos: Wikipédia

Qual é a altitude do Monte Roraima?

O Serviço Geológico do Brasil (SGB) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) adotam a altitude de 2.734 metros como referência para o Monte Roraima. Fontes de montanhismo costumam citar até 2.810 metros no ponto mais alto do platô, conhecido como Maverick Stone, já em território venezuelano, o que explica as pequenas variações encontradas em diferentes mapas.

A subida é gradual e cruza faixas de altitude bem distintas. O trekking parte da savana, por volta de 1.400 metros, atravessa rios e sobe pela chamada Rampa, a única via natural que vence os paredões e dá acesso ao platô, acima dos 2.700 metros. Apesar da altitude considerável, a travessia não é classificada como alta montanha, já que não atinge as cotas em que o ar rarefeito se torna um risco sério.

Como o Parque Nacional protege o lado brasileiro da montanha?

O lado brasileiro do tepui é protegido pelo Parque Nacional do Monte Roraima, criado pelo Decreto nº 97.887, de 28 de junho de 1989, e administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A unidade abrange cerca de 116 mil hectares de floresta tropical e savana no extremo norte do estado de Roraima, numa região de relevo tabular raríssimo no Brasil.

A montanha, porém, é dividida entre três países, e a maior parte fica em território venezuelano. Do lado da Venezuela, o Roraima integra o Parque Nacional Canaima, uma área de cerca de 30 mil km² com mais de cem tepuis, reconhecida como Patrimônio Mundial. É por ali que passa o acesso turístico clássico ao topo, enquanto o parque brasileiro preserva a base e as encostas do lado leste.

Como é o trekking até o topo do Monte Roraima?

O acesso turístico ao platô é feito pelo lado venezuelano, com partida da vila de Paraitepui, na região da Gran Sabana, e não pelo território brasileiro. A travessia completa costuma durar de seis a sete dias, com guias credenciados obrigatórios, acampamentos ao longo do percurso e a subida pela Rampa como o trecho mais desafiador, muitas vezes escorregadio e cercado de névoa.

O esforço é recompensado por um cenário surreal. No topo, o visitante encontra piscinas naturais de água escura, formações de rocha esculpidas pelo vento e pela chuva, e plantas carnívoras e flores que evoluíram isoladas por milhões de anos, muitas delas endêmicas, ou seja, que só existem ali. Foi essa paisagem de mundo perdido que inspirou obras da literatura e do cinema de aventura.

Como é o clima na região do Monte Roraima?

O clima da região é tropical chuvoso, com uma estação seca definida que oferece as melhores condições para a travessia. No alto do platô, porém, o tempo é instável o ano todo, com névoa, vento e chuva que podem surgir a qualquer momento. A tabela abaixo usa como referência Pacaraima, a cidade brasileira mais próxima e porta de entrada por terra.

☀️ Verão Dez-Fev
Média: 20-32°C
Chuva: Baixa
Melhor janela para o trekking.
🍂 Outono Mar-Mai
Média: 20-31°C
Chuva: Média
Início do período chuvoso.
❄️ Inverno Jun-Ago
Média: 19-30°C
Chuva: Alta
Trilhas mais difíceis e úmidas.
🌸 Primavera Set-Nov
Média: 20-31°C
Chuva: Média
Transição para a estação seca.
💡 Dica do especialista: a estação seca, entre dezembro e março, é a melhor época para a travessia, com menos chuva e trilhas mais firmes. No topo, porém, leve roupa impermeável e agasalho em qualquer mês: a névoa e o frio aparecem o ano inteiro.

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo para Pacaraima. Condições no topo variam muito.

Como chegar ao Monte Roraima?

O ponto de partida brasileiro é Boa Vista, capital de Roraima, com aeroporto que recebe voos de várias cidades do país. De lá, são cerca de 215 km pela BR-174 até Pacaraima, na fronteira com a Venezuela. Como o trekking ao topo é feito pelo lado venezuelano, a maioria dos visitantes contrata expedições organizadas que cuidam da travessia da fronteira, dos guias credenciados e da logística de acampamento, exigência para encarar a subida com segurança.

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A montanha mais antiga que o próprio tempo geológico moderno

O Monte Roraima resume, num só bloco de pedra, a história profunda do planeta: rochas de quase 2 bilhões de anos, paredões que isolaram a vida por milênios e um topo onde crescem espécies que não existem em nenhum outro lugar. Entre a savana e as nuvens, o tepui segue guardando seus segredos no encontro de três países.

Você precisa olhar de baixo para os paredões do Monte Roraima, ao menos uma vez, para entender o que significa estar diante de algo tão mais velho que a própria humanidade.