O ano de 1984 explica como a cidade do café vira Capital Nacional da Tecnologia no interior paulista - Super Rádio Tupi
Conecte-se conosco
x

Entretenimento

O ano de 1984 explica como a cidade do café vira Capital Nacional da Tecnologia no interior paulista

O café colocou esta cidade paulista no mapa.

Publicado

em

Compartilhe
google-news-logo
A Capital Nacional da Tecnologia com mais doutores por habitante da América Latina e uma catedral inspirada na Basílica de São Pedro
A resposta está na ambição arquitetônica da igreja católica local no meio do século XX. / Imagem ilustrativa

Toda cidade tem um ano que muda seu destino, e quase sempre ele passa despercebido. Em São Carlos, no interior de São Paulo, 1984 trouxe ao mesmo tempo uma incubadora de empresas pioneira no país e um centro de pesquisa da Embrapa, peças que ajudaram a transformar uma terra de fazendas de café na Capital Nacional da Tecnologia.

Como uma cidade do café chegou à engenharia em 1953?

A cidade nasceu ligada às lavouras de café, e uma fazenda está na origem do núcleo urbano. Segundo estudo publicado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a Fazenda do Pinhal, comandada por Antônio Carlos de Arruda Botelho, o futuro Conde do Pinhal, teve participação ativa na fundação de São Carlos durante a expansão cafeeira do século XIX.

A virada para a ciência começou quase cem anos depois. A primeira unidade da Universidade de São Paulo (USP) a funcionar na cidade foi a Escola de Engenharia de São Carlos (EESC), e os dois cursos mais antigos do campus abriram vagas em 1953, conforme os Números do Campus USP São Carlos. Das pesquisas iniciadas na escola de engenharia nasceriam, décadas depois, o Instituto de Física e o Instituto de Química de São Carlos.

São Carlos e entender por que tantas famílias estão escolhendo trocar o ritmo da cidade. / Créditos: Wikipédia

Por que a UFSCar começou ao som de um sino de fazenda?

O campus foi erguido sobre uma antiga propriedade rural, e o velho sino da casa continuou ali. A Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) foi criada em 1968 e se tornou a primeira instituição federal de ensino superior instalada no interior paulista, a 228 km da capital. As aulas começaram em 1970, com apenas 96 estudantes.

A área de 645 hectares pertencia à Fazenda Trancham, segundo documento da Pró-Reitoria de Graduação da UFSCar. Um relatório da Agência de Inovação da UFSCar lembra que o sino da antiga fazenda soou para receber os primeiros jovens em 1970. O instrumento que antes marcava o ritmo do trabalho no campo passou a anunciar a chegada de uma universidade.

O que aconteceu em São Carlos em 1984?

Em 1984, a cidade ganhou a primeira incubadora de empresas de base tecnológica do Brasil, ligada à Fundação Parque de Alta Tecnologia (ParqTec). Segundo a Revista Pesquisa FAPESP, as empresas incubadas usam infraestrutura muitas vezes gratuita, como telefone, internet, água, energia e laboratórios, e têm de dois a seis anos para se graduar, termo usado quando deixam a incubadora prontas para o mercado.

No mesmo ano, em novembro, nasceu a Embrapa Instrumentação, centro de pesquisa dedicado a desenvolver instrumentos para o agronegócio. Documento da própria Embrapa registra que a unidade orienta teses e dissertações em parceria com os programas de pós-graduação da USP e da UFSCar. A vizinhança entre laboratório, empresa e universidade deixou de ser acaso e virou método.

Quantos doutores vivem na Capital Nacional da Tecnologia?

São mais de 2.530 doutores em uma cidade de cerca de 250 mil habitantes, proporção de um para cada 100 moradores. Segundo a Agência FAPESP, a média brasileira é de um doutor para cada 950 residentes, quase dez vezes menor.

O levantamento foi conduzido pelo professor Hamilton Varela, do Instituto de Química de São Carlos (IQSC), com dados da USP, da UFSCar, do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), das duas unidades da Embrapa, do Centro Universitário Central Paulista (Unicep) e do ParqTec. Em 2012, a proporção era de um doutor para cada 135 moradores. Em apenas sete anos, a cidade ficou ainda mais densa em pesquisadores.

Qual o tamanho da USP em São Carlos hoje?

O campus que começou com dois cursos de engenharia funciona hoje como uma pequena cidade dentro da cidade. Os números de 2023 mostram a escala dessa estrutura.

1
10.287 alunos Soma de graduação, pós-graduação, alunos especiais, pós-doutorandos e pesquisadores colaboradores no campus.
2
23 cursos de graduação Reúnem 4.822 estudantes e ofereceram 1.010 vagas no vestibular de 2023, de engenharia aeronáutica a ciência de dados.
3
4.507 alunos de pós-graduação Distribuídos entre mestrado, doutorado, especializações e cursos de MBA, quase o mesmo número da graduação.
4
523 docentes Corpo de professores distribuído entre cinco unidades: EESC, IAU, ICMC, IFSC e IQSC.
5
12.063 pessoas População total do campus, somando alunos, professores, servidores técnicos e trabalhadores terceirizados.

Quando o apelido de capital da tecnologia virou lei?

O título ganhou força de lei em 11 de outubro de 2011. A Lei nº 12.504, sancionada pela presidente Dilma Rousseff, confere ao município o título de Capital Nacional da Tecnologia e foi publicada no Diário Oficial da União dois dias depois.

O texto é curto como poucos: tem apenas dois artigos. O primeiro concede o título, e o segundo determina que a lei entra em vigor na data da publicação. A brevidade contrasta com o caminho que levou até ela, construído ao longo de quase seis décadas de salas de aula, laboratórios e empresas nascidas dentro dos campi.

Leia também: A praia brasileira eleita a mais bonita do mundo só é alcançada por uma escada encravada numa fenda na rocha.

A cidade que trocou cafezais por laboratórios

São Carlos mostra que uma vocação pode ser plantada como uma lavoura. A cidade que nasceu em torno das fazendas de café transformou terras rurais em campi e reuniu universidades e centros de pesquisa até fazer do conhecimento sua principal colheita.

Você precisa caminhar pelos campi de São Carlos para entender como um antigo sino de fazenda passou a anunciar o começo de outra história.