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O lago que já foi 4º maior do mundo secou e virou um deserto de navios fantasmas enferrujados na Ásia Central

O impressionante desaparecimento do quarto maior lago do mundo.

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O lago que já foi 4º maior do mundo secou e virou um deserto de navios fantasmas enferrujados na Ásia Central
Entre 1960 e o começo dos anos 1980 o volume de água doce que chegava ao lago caiu de 50 quilômetros cúbicos por ano para praticamente zero. / Imagem ilustrativa

Existe um pedaço da Ásia Central onde barcos de pesca enferrujados estão parados em cima de areia até onde a vista alcança. Não é cenário de filme. É o que sobrou do Mar de Aral, que já foi o quarto maior lago do planeta e hoje quase não existe mais no mapa.

Como um mar inteiro pode simplesmente sumir?

A pergunta parece coisa de criança, mas cabe. Um corpo de água do tamanho da Bélgica não evapora sozinho. Ele foi drenado, aos poucos, por uma decisão humana tomada a milhares de quilômetros de distância, num escritório de Moscou, na década de 1960. O plano parecia genial no papel: irrigar o deserto para plantar algodão e alimentar a economia soviética.

Deu certo no algodão, no curto prazo. Deu errado em tudo o mais. A conta chegou décadas depois, na pele de milhões de pessoas que viviam da pesca, do ar limpo e do próprio mar que sumiu na frente delas.

O Mar de Aral ficava na fronteira entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, na Ásia Central. / Créditos: Wikipédia

Onde ficava esse mar que sumiu?

O Mar de Aral ficava na fronteira entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, na Ásia Central. Apesar do nome, tecnicamente sempre foi um lago, não um mar. Em 1960, ele cobria cerca de 68 mil quilômetros quadrados, o que fazia dele o quarto maior corpo de água doce do mundo, atrás apenas do Cáspio, do Superior e do Vitória.

Dois grandes rios alimentavam o lago: o Amu Daria, vindo das montanhas Pamir, e o Sir Daria, mais ao norte. Enquanto essas duas correntes chegavam ao Aral, tudo funcionava. Peixes em abundância, portos ativos, cidades vivas nas margens. Muynak, no Uzbequistão, era um dos maiores centros pesqueiros da União Soviética.

Que decisão foi essa que arruinou o lago?

Na década de 1960, engenheiros soviéticos desviaram grande parte da água dos dois rios para irrigar plantações de algodão e arroz nos desertos vizinhos. O Uzbequistão virou, por algum tempo, o maior exportador mundial de algodão. E o Aral começou a encolher.

Segundo dados do Earth Observatory da NASA, entre 1960 e o começo dos anos 1980 o volume de água doce que chegava ao lago caiu de 50 quilômetros cúbicos por ano para praticamente zero. Sem entrada, só saída por evaporação, o resultado veio rápido. Nas primeiras décadas, o lago perdeu 60% da área. Nos anos 2000, já tinha perdido mais de 90%.

O que sobrou disso hoje no meio do deserto?

A paisagem atual do antigo leito é uma das cenas mais impressionantes já registradas de destruição ambiental. Os principais elementos que ficaram:

1
Navios enferrujados na areia Barcos de pesca da era soviética ficaram encalhados quando a água recuou e nunca foram removidos. Viraram cartão-postal macabro de Muynak.
2
O deserto de Aralkum O antigo leito do lago virou o mais novo deserto do planeta, com solo salgado, tóxico e coberto de resíduos químicos do algodão.
3
Tempestades de sal e pesticida O vento levanta pó carregado de sal, resíduos de fertilizante e pesticida, que atinge cidades a centenas de quilômetros.
4
Cidades pesqueiras esvaziadas Muynak e Aralsk perderam a razão de existir. Milhares de famílias que viviam da pesca migraram ou empobreceram.
5
Clima da região alterado Sem o efeito regulador do lago, os invernos ficaram mais frios e os verões mais quentes num raio de centenas de quilômetros.

Que tamanho tem o impacto na saúde de quem mora perto?

O National Geographic, que documentou o desastre ainda em 1990, descreveu o processo como uma química maligna: as águas secando, virando sal, subindo como poeira nociva e atingindo a população com doença e morte. Passadas mais de três décadas, a descrição continua exata para quem vive na região do Karakalpakstão, no norte do Uzbequistão.

Os índices de câncer de esôfago, tuberculose e mortalidade infantil na área são muito acima da média nacional. A comunidade dos caracalpaques, povo indígena da região, foi das mais afetadas. Beber água virou apuro, respirar virou risco. E a fonte do problema é uma bacia que já não existe mais como existia.

Como o mundo reagiu a esse desastre?

O ex-secretário-geral da ONU Ban Ki-moon classificou o desaparecimento do Mar de Aral como um dos piores desastres ambientais do planeta em uma visita à região em 2010. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, cerca de 60 milhões de pessoas vivem na bacia do Aral e sofrem consequências diretas ou indiretas da secagem.

Vale comparar como o lago era e como está hoje, para entender a dimensão do estrago:

Indicador Nos anos 1960 Situação atual
Área do lago Superfície de água Cerca de 68 mil km² Menos de 10% do original
Posição no ranking Entre lagos do mundo 4º maior lago do planeta Fora da lista dos maiores
Pesca comercial Empregos diretos Dezenas de milhares de pescadores Praticamente extinta no sul
Cidade portuária de Muynak Uzbequistão Porto ativo com estaleiro A 150 km da água mais próxima
Clima local Amplitude térmica Regulado pela massa de água Extremos de calor e frio

Existe alguma chance de o Aral voltar?

A parte norte do lago, no Cazaquistão, recebeu uma ajuda concreta. Uma barragem chamada Kok-Aral foi concluída em 2005, com apoio do Banco Mundial, e reteve a água que ainda chegava pelo rio Sir Daria. O nível subiu, o sal caiu, e a pesca voltou em pequena escala. Não é o antigo Aral, mas é vida onde havia deserto.

No sul, no Uzbequistão, o cenário é bem mais difícil. O rio Amu Daria continua sendo drenado para o algodão, e o leito do lago no sul virou o deserto de Aralkum, o mais novo do planeta. Recuperar aquilo exigiria uma revolução na maneira como a região usa água, algo que ainda não aconteceu.

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O que essa história antiga tem a dizer para hoje?

O Mar de Aral é o exemplo mais visível do que acontece quando uma decisão econômica ignora o limite físico do lugar. Um governo escolheu um produto para exportar, desviou o que era necessário para produzi-lo, e apostou que a natureza aguentaria. Não aguentou. E quem paga a conta há décadas são as pessoas comuns que moravam por ali muito antes de qualquer plano quinquenal aparecer no mapa.

Voltando aos navios enferrujados que abrem essa história: eles não são só relíquias enferrujadas de uma outra época. São aviso. A cada rio desviado, a cada aquífero drenado além da conta, a cada bacia esgotada em nome da próxima safra, o mundo cria pequenas versões locais do que aconteceu naquele canto da Ásia Central. A diferença é que agora ninguém pode dizer que não sabia como termina.