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O material feito de planta que desafia o concreto e enfrenta barreiras nas obras

Mesmo com desempenho histórico e testes modernos, esse material ficou fora de muitos padrões construtivos

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O material feito de planta que desafia o concreto e enfrenta barreiras nas obras
Esse material é conhecido por oferecer bom isolamento térmico e controle de umidade

Entre os materiais de construção que começam a ganhar espaço em debates técnicos, o hempcrete aparece como um dos mais curiosos. Feito a partir do cânhamo industrial, misturado com cal e água, esse “concreto vegetal” chama atenção por unir durabilidade, conforto térmico e baixo impacto ambiental, embora ainda esteja ausente de muitos projetos padrão e códigos de obras.

O que é hempcrete e como esse “concreto de planta” funciona?

O hempcrete é um material leve, utilizado principalmente em paredes de enchimento e isolamento, que combina a parte lenhosa do caule do cânhamo industrial (hurd ou “miolo”) com um ligante à base de cal e água. Diferente do concreto convencional, ele não utiliza cimento Portland como componente principal, nem tem função estrutural de suportar grandes cargas, sendo empregado em conjunto com estruturas de madeira, aço ou concreto armado.

O funcionamento desse compósito está ligado à interação entre fibras vegetais e matriz mineral, criando uma rede porosa capaz de absorver e liberar vapor d’água, atuando como um “pulmão” de umidade nas paredes. A cal passa por um processo de carbonatação, reagindo com dióxido de carbono do ar e formando carbonato de cálcio, o que mineraliza o conjunto ao longo do tempo, aumentando sua estabilidade sem perder a capacidade de “respirar”.

O material feito de planta que desafia o concreto e enfrenta barreiras nas obras
Um material antigo e resistente começa a desafiar velhos padrões da construção

Como o hempcrete contribui para a construção sustentável?

Em debates sobre construção sustentável, o hempcrete surge como alternativa relevante por atuar simultaneamente na redução de emissões e na melhoria do desempenho das edificações. O cânhamo é uma cultura de ciclo relativamente curto, com boa capacidade de capturar CO₂ durante o crescimento, enquanto a cal do ligante reabsorve parte do dióxido de carbono emitido na sua produção, aproximando o balanço de carbono de neutro ou até negativo.

Na prática de obra, esse compósito tende a oferecer benefícios de conforto e desempenho que interessam a projetos residenciais e habitações populares. Ambientes construídos com hempcrete apresentam menos oscilações bruscas de temperatura, o que pode reduzir o uso de ar-condicionado ou aquecedores, e relatos de campo associam seu uso à diminuição de infiltrações internas e formação de bolor em climas úmidos.

Quais são as principais vantagens de desempenho do hempcrete?

No desempenho cotidiano das edificações, o hempcrete se destaca por combinar isolamento térmico, regulação de umidade e baixa densidade, favorecendo tanto o conforto quanto a logística de construção. Além disso, sua origem renovável e a possibilidade de cultivo local do cânhamo reforçam seu apelo em estratégias de descarbonização e desenvolvimento regional.

Entre as vantagens mais citadas em pesquisas acadêmicas, testes laboratoriais e obras-piloto, destacam-se:

  • Regulação de umidade: paredes que ajudam a reduzir mofo e condensação, especialmente em climas úmidos;
  • Desempenho térmico: conforto mais estável, com menor variação de temperatura interna ao longo do dia;
  • Baixa densidade: elementos leves, que facilitam transporte e reduzem carga em fundações;
  • Origem renovável: grande parte da massa proveniente de matéria-prima vegetal, com potencial de cultivo local.

Como o hempcrete se comporta em relação à resistência ao fogo?

Um dos pontos que mais chama atenção na resistência ao fogo do hempcrete é o comportamento quase “mineral” observado em ensaios de laboratório. Quando devidamente formulado e curado, o compósito não se comporta como um painel de madeira maciça ou isolante sintético comum, pois a matriz de cal envolve e mineraliza o cânhamo, formando uma barreira que carboniza superficialmente a parte vegetal e dificulta a propagação de chamas.

Em testes padronizados, paredes de hempcrete já foram submetidas a temperaturas próximas às de incêndios estruturais severos por longos períodos, mantendo integridade suficiente para evitar colapso imediato e limitando a transferência de calor para o lado interno. Em avaliações de propagação de chama e geração de fumaça, estudos registram valores muito baixos, contrastando com certos painéis leves de espuma plástica, frequentemente associados à liberação de gases tóxicos e chamas rápidas.

Ao longo da história, diferentes materiais naturais foram usados na construção por sua resistência, durabilidade e adaptação ao ambiente. Alguns desses recursos acabaram ficando fora dos sistemas modernos de construção, mesmo continuando a despertar interesse em projetos sustentáveis.

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Por que os códigos de obras ainda tratam o hempcrete como exceção?

Apesar das características favoráveis, o hempcrete continua fora da rotina de grande parte do mercado da construção, sobretudo pela forma como é tratado em códigos de obras e normas técnicas. Muitos regulamentos descrevem apenas sistemas considerados “normais”, com espessuras, métodos de cálculo e tabelas de desempenho bem consolidados, o que torna mais lenta e incerta a aprovação de materiais que ainda não aparecem explicitamente nesses documentos.

No caso do cânhamo industrial, o histórico de restrições legais ligadas à planta Cannabis sativa também atrasou o desenvolvimento de uma cadeia produtiva estável. Com pouco plantio, faltam padronização, certificações e ensaios em série, o que reforça a hesitação de órgãos reguladores em equiparar o hempcrete a sistemas tradicionais, mesmo sem haver proibição explícita ao seu uso em muitos contextos.

Quais desafios precisam ser superados para o hempcrete ganhar escala?

Com a flexibilização recente do cultivo de cânhamo em diversos países, o cenário começa a mudar, porém de forma gradual e desigual entre regiões. A expansão do hempcrete depende da superação de barreiras regulatórias, técnicas e econômicas, bem como da integração do material em políticas de habitação, eficiência energética e redução de emissões no setor da construção.

Entre os obstáculos mais recorrentes, destacam-se a regulação fragmentada, a falta de normas consolidadas, as dificuldades de seguro e financiamento, a capacitação da mão de obra e a limitação da cadeia de suprimentos. Ainda assim, iniciativas residenciais, conjuntos habitacionais e edifícios experimentais mostram que, quando combinado a estruturas de madeira ou aço já consolidadas nos códigos, o hempcrete pode ser integrado com resultados consistentes e monitoráveis ao longo do tempo.