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Onde chove menos no Brasil, a cidade mais seca tem pedras esculpidas pela natureza e virou cenário de um dos filmes mais famosos do país

Quase sem chuva durante boa parte do ano!

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Ao contrário do que se imagina, a seca ali não é só ausência. / Imagem ilustrativa

Para quem vive no litoral nordestino, a chuva farta faz parte da rotina de boa parte do ano. A cerca de 200 km dali, no Cariri da Paraíba, Cabaceiras recebe em média pouco mais de 300 mm por ano, volume que os estudos tratam como o menor do país. Essa secura explica desde as pedras esculpidas do Lajedo de Pai Mateus até o apelido que a cidade ganhou no cinema.

Quanto chove, de fato, em Cabaceiras?

Pouco mais de 300 mm por ano, em média. Cabaceiras carrega o título de município onde menos chove no Brasil, segundo estudo publicado na Revista Brasileira de Geografia Física, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que analisou 90 anos de dados diários de chuva. Para comparar, uma cidade como São Paulo costuma receber bem mais de 1.000 mm por ano.

A média esconde variações enormes. Com base nos registros da Agência Executiva de Gestão das Águas da Paraíba (AESA), o município soma 333,6 mm por ano, mas já viveu anos muito diferentes entre si, de acordo com artigo apresentado em congresso do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea).

Conhecida como a “Roliúde Nordestina”, Cabaceiras ganhou fama por servir de cenário a clássicos do cinema brasileiro, / Créditos: Túllio F wikimedia commons
1
Média anual: 333,6 mm Volume típico de Cabaceiras, calculado com base nos registros da AESA.
2
2004: 755,8 mm O ano mais chuvoso da série analisada, com mais do que o dobro da média.
3
2017: 104,7 mm O ano mais seco do período, com cerca de um sétimo do que caiu em 2004.
4
Litoral paraibano: mais de 1.500 mm A cerca de 200 km de Cabaceiras, a faixa litorânea recebe mais de quatro vezes esse volume.

Por que chove tão pouco no Cariri paraibano?

Por causa da posição da cidade no relevo. O litoral, a cerca de 200 km, recebe mais de 1.500 mm por ano, segundo pesquisa publicada na Revista do Regne, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Cabaceiras, por outro lado, é descrita como uma área a sotavento, o lado protegido do vento, onde o ar chega depois de deixar boa parte da umidade pelo caminho, em outro estudo da mesma revista. O município fica na região do Planalto da Borborema, cujo relevo ajuda a separar a costa úmida do interior seco.

A pouca chuva que cai também é concentrada no tempo. Entre fevereiro e julho caem 82,5% do total anual, conforme estudo publicado no Journal of Hyperspectral Remote Sensing, da UFPE. No resto do ano, a regra é o céu aberto e o sol forte sobre a caatinga.

A chuva está mudando em Cabaceiras?

Os sinais apontam para um regime mais irregular. O estudo da Revista Brasileira de Geografia Física aplicou 11 índices internacionais de eventos extremos à série histórica e encontrou uma combinação curiosa: os dias de chuva muito forte ganharam peso, enquanto o total anual diminuiu. Em outras palavras, a água tende a chegar de uma vez, em poucos episódios intensos, em vez de se distribuir ao longo da estação.

Esse comportamento preocupa porque a chuva concentrada escorre rápido e se infiltra pouco no solo. Pesquisadores também investigam a relação entre as variações do clima e a desertificação no município, processo em que a terra perde a capacidade de sustentar vegetação, tema de artigo publicado na revista Estudos Universitários, da UFPE.

Como o clima seco esculpiu o Lajedo de Pai Mateus?

Desgastando o granito camada por camada. O Lajedo de Pai Mateus é uma grande exposição de granitos e granodioritos coberta por matacões, blocos arredondados que se soltam da rocha por esfoliação, um descascamento lento provocado pela variação de temperatura e pela umidade, segundo resumo publicado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB). Perto dali, a formação conhecida como Saca de Lã mostra blocos empilhados pelo fraturamento natural do granito.

A superfície das pedras guarda marcas ainda mais curiosas. O Lajedo aparece na Revista Brasileira de Geomorfologia como exemplo de relevo granítico com tafoni, cavidades escavadas na rocha, e caneluras, sulcos abertos pela água. A famosa Pedra do Capacete, com seu formato que lembra um elmo, é apontada como um exemplo dessas cavidades.

Quem deixou marcas nas pedras antes dos turistas?

Povos pré-históricos que usaram os lajedos como abrigo e tela. Nas rochas da região há pinturas em ocre que representam animais, mãos carimbadas e formas geométricas, e no vizinho Lajedo do Bravo aparecem gravuras em baixo-relevo, urnas de sepultamento e lascas de sílex, de acordo com o SGB. O sílex local pode ter servido de matéria-prima para pontas de flechas e lanças, enquanto os matacões ofereciam proteção contra o sol.

A importância do conjunto motivou, em 2024, um projeto de lei na Assembleia Legislativa da Paraíba para proteger o Lajedo de Pai Mateus. O texto descreve cerca de cem grandes pedras arredondadas, algumas com até 45 toneladas.

Leia também: Ela vive sozinha numa aldeia cujos últimos vizinhos foram embora em 1991: “Tenho loja, mas é só para mim”.

A secura que virou paisagem

Em Cabaceiras, quase tudo o que encanta o visitante nasce da falta de chuva. O céu limpo na maior parte do ano levou a cidade a receber gravações de filmes como O Auto da Compadecida e a ganhar o apelido de Roliúde Nordestina, enquanto o mesmo clima de sol forte e chuva rara ajuda a transformar o granito em esculturas naturais.

Ao contrário do que se imagina, a seca ali não é só ausência. É uma força que molda pedras, guarda vestígios de povos antigos e desafia a ciência a entender como a chuva, cada vez mais concentrada, vai desenhar o futuro do semiárido.