Celebridades

Os 90 anos do mestre do humor

9 anos após sua morte, Chico Anysio permanece vivo na memória afetiva dos brasileiros

Por Talita Giudice

FRANCISCO

Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho. Curioso pensar que um homem de nome tão sério se tornaria a maior referência do humor brasileiro. Se vivo fosse, Chico Anysio completaria nesta segunda-feira (12), 90 anos. Marcado pela irreverência e a criatividade, o homem de mais de 200 personagens revolucionou a forma de fazer humor no Brasil.

A história desse personagem tão singular começou em Maranguape, município brasileiro localizado no Ceará, onde Francisco viveu até os 7 anos com os pais e irmãos. Após um incêndio na frota de ônibus do patriarca, que ficou na cidade para refazer a vida como construtor de estradas, a mãe, Haydée Viana, veio para o Rio de Janeiro com os filhos, para morar numa pensão no Catete, zona Sul da cidade. Apaixonado por livros, Chico sonhava em ser o ‘’Sherlock Holmes’’ da ficção e se tornar um advogado criminalista, mas a vida traçou outro caminho para o cearense.

Foi nas ondas do rádio que o talento de Francisco Filho começou a despontar e tudo começou graças a irmã Lupe Gigliotti, que tinha um teste marcado para Rádio Guanabara. Aos 17 anos, ele passou por uma avaliação para locutor e foi aprovado em segundo lugar, perdendo apenas para um tal de Silvio Santos. Passou a ser premiado em diversos programas de calouro no Rio de Janeiro e São Paulo, como “Papel Carbono”, de Renato Murce e “Os Calouros do Ary Barroso”, na Rádio Tupi. Foi ao lado de Haroldo Costa, ator e diretor, que criou o emblemático personagem ”Professor Raimundo”, na Rádio Mayrink Veiga. No início com apenas três papéis: Afrânio Rodrigues (o que sabia tudo), João Fernandes (o que não sabia nada) e Zé Trindade (o que enrolava). Em entrevista ao Memória Globo Chico Anysio falou sobre o sucesso de Raimundo no rádio. ”A Escolinha foi de fato minha revelação. Graças à ela, comecei a ter visibilidade. Foi a primeira vez que minha foto saiu numa revista”, declarou Chico Anysio.

Em pouco tempo Chico Anysio passou a ser amado por todos. (Foto: Reprodução)

A humildade foi uma marca do artista. A comunicadora Cidinha Campos relembrou a importância de Chico na sua carreira e o quanto o amigo a ajudou. ”O Chico Anysio é uma pessoa única. Tem pessoas que passam pela vida e deixam uma marca que ninguém supera. Chico Anysio era inteligente, vivia antenado com as coisas que aconteciam na cidade, no país e no mundo. Como pessoa era doce, afável, também exigente. Eu fui amiga do Chico. Ele foi uma pessoa muito generosa comigo. Quando eu fui fazer teatro, ”O Homem Não Entra”, eu estava desempregada, dura, como às vezes acontece na minha vida. E ele me emprestou o equipamento dele pra eu fazer o meu espetáculo e cedeu por toda temporada o equipamento. Então o Chico era muito legal. A última vez que eu encontrei com ele, ele estava muito caidinho. Numa cadeira de rodas, fumou demais a vida inteira, estava com um botijão de oxigênio, mas mesmo assim estava rindo, brincando e mesmo assim me provocava. Não sei se falei demais, mas pro Chico nunca é muito”.

 

Da esq para a direita: Chico Anysio, Milton Moraes, Jorge Doria, Paulo Pontes, Plínio Marcos e Juca de Oliveira. Embaixo Tetê Nahaz, Fernanda Montenegro, Terezinha Sodré, Léa Penteado, Cidinha Campos e Eva Wilma.

ANYSIO

A diversidade de personagens foi a marca da carreira de Chico Anysio. Do pobre ao rico, do branco ao preto, da mulher ao homem, ele criava personalidades únicas e trejeitos que carimbavam a identidade de cada personagem. Mesmo sendo um só, Anysio foi capaz de se multiplicar e individualizar cada criação. A genialidade do mestre ganhou as proporções necessárias em 1959, quando chegou ao Brasil o videoteipe. A tecnologia proporcionou a multiplicação e a inserção de vários “Chicos” numa única cena. Nasceu assim o programa Chico Anysio Show, responsável por reunir e personificar a imaginação de Anysio.

O humorista e radialista Maurício Menezes, do Plantão de Notícias, falou sobre a relevância de Chico Anysio para o cenário humorístico nacional e a originalidade de seus papéis. ‘’O Chico Anysio era o maior gênio do humor do Brasil. Uma das felicidades que eu tive na vida foi quando o filho do Chico falou pra mim ‘meu pai adorava seu humor!’. Pô! E tu só me fala isso depois que ele morreu? Eu participei algumas das vezes como convidado do programa dele e ele tinha uma capacidade inacreditável de criar personagens e viver eles. Eu nunca fiz personagem, porque eu nunca fiz imitação. Então os textos que eu fazia para outros imitarem, eu via as pessoas confundirem os personagens. O Chico conseguia dividir os personagens todos. Era incrível a capacidade dele pra fazer isso! Ele foi o grande mentor dessa revolução que o humor passou no rádio e na televisão. O humor dele tá vivo até hoje. Todo mundo vive a fase Chico Anysio, é uma fase eterna. Os próprios filhos dele vivem aqueles personagens que o Chico sabia valorizar como ninguém’’, afirma Maurício Menezes.

 

 

Chico Anysio Show virou Chico City e foi nesse mundo subtraído que nasceram e foram popularizados personagens emblemáticos como o ator metido Alberto Roberto, o extremo pão-duro Gastão Franco e o locutor Roberval Taylor. E Chico não marcou a arte cênica apenas com os personagens, como também foi criador de inúmeros bordões antológicos na cultura nacional. “Não garavo’’, de Alberto Roberto; ‘’minha vingança será maligna’’, do vampiro caipira Bento Carneiro; ‘’quero que pobre se exploda!’’, do político corrupto Justo Veríssimo e ‘’o salário, ó…’’, do inesquecível Professor Raimundo Nonato.

Este último, foi o papel de maior magnitude na carreira do artista. O programa que saiu da latinha e foi para telinha, reuniu, valorizou e apresentou para o Brasil grandes nomes do humor como Grande Otelo, Berta Loran, Rogério Cardoso, Lúcio Mauro, Orlando Drummond entre outros. A grande sacada da Escolinha era o improviso. Os atores sabiam apenas o próprio texto e todo o resto era uma surpresa, o que tornava o elenco também plateia, e dava ares de um show ao vivo.  O programa que estreou na Rede Globo na década de 90 mostrou ao país a força da cultura. Em entrevista ao Memória Globo, o humorista revelou que Carlos Chiarelli, ministro da Educação entre 1990 e 1991, agradeceu a existência da Escolinha, pois meses depois do programa entrar no ar, aumentou em 70% a inscrição de adultos em escolas de alfabetização. ‘’Vamos à escola, lá se aprende a viver’’.

Os produtores Fred Abrunhosa e Jorge Pereira, relembram personagens marcantes de Chico em sua vida. ‘’Pra mim o personagem mais engraçado, mais marcante, era o Beto Carneiro, o vampiro brasileiro. Eu achava maravilhoso, ria horrores com ele’’, fala Fred, produtor do programa Cidinha Livre.

 

 

Já Jorge Pereira, produtor da Patrulha da Cidade, relembra histórias que mostram o quanto Chico Anysio permeava a vida do brasileiro. ‘’O personagem que mais me marcou foi o Coalhada. Porque foi o personagem que eu me fantasiei no desfile da Caprichosos de Pilares, nos anos 80. Era uma homenagem ao Chico Anysio, feita pelo carnavalesco Luis Fernando, e coube a mim ser o Coalhada naquele desfile da Caprichosos de Pilares. Por isso, é o personagem mais marcante do Chico Anysio, embora tenham muitos outros’’, relembra Jorge Pereira.

 

 

CHICO ANYSIO

Humorista, escritor, ator, diretor, locutor, pai, herói. A principal característica de Chico Anysio sempre foi ser multi. O artista que nasceu em Maranguape, no Ceará, mostrou ao Brasil e ao mundo que com humor se fala muito sério. Todos os personagens de Chico Anysio tinham uma crítica social forte e necessária. Do Azambuja, ex-jogador malandro que sempre queria ser dar bem em cima de todo mundo, ao Professor Raimundo Nonato, profissional sério e preocupado com seus alunos mesmo sem ser valorizado, Anysio respirou a realidade do povo brasileiro. Não à toa, foi intitulado como mestre do humor brasileiro e causou uma comoção nacional com sua partida aos 80 anos. Em entrevista ao programa De Frente Com Elas, o narrador esportivo José Carlos Araújo relembrou, com emoção, a amizade com Chico Anysio e os últimos momentos ao lado do humorista. ‘’Eu era fã do Chico Anysio e de repente ele chega e diz que é meu fã. Ficou meu amigo, meu irmão. Até o último momento da morte dele ali no Hospital Samaritano, em Botafogo, eu estava do lado dele. Ele mandava me chamar”, declara Garotinho.

 

os personagens feitos por Chico foram imortalizados. (Foto: Reprodução)

O comunicador da Super Rádio Tupi, Francisco Barbosa fala sobre a importância social de Chico Anysio. “Eu tive o prazer de conhecer Chico Anysio e vi no homem Chico Anysio o porquê das personagens. Era um cara absolutamente ligado ao ser humano, na sociedade brasileira, nos nossos caminhos, naquilo que era feito conosco a cada dia. Cada personagem tecia uma crítica ácida e bem-humorada a respeito do Brasil e seus políticos. Era o Chico falando. Desde os mais absurdos personagens até os mais parecidos com o que há de normal. Chico sempre deixou sua crítica social, marca dele de um homem preocupado com seu país e seu povo’’, afirma Barbosa.

 

 

Apesar da ausência em corpo físico, Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho está vivo. A destreza do cearense da famosa Maranguape fincou raízes fortes na cultura nacional. Qualquer aspirante à humorista ou o mais consagrado dos nomes, se inspirou e se inspira em Chico Anysio. Ele deixa o legado de quem sempre soube ser um, e ao mesmo tempo muitos, e eterniza na memória de milhares de pessoas o valor de um riso e a importância da brasilidade.

 

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