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Parece filme, mas fica no Brasil: a cidade colonial cujas ruas de pedra foram pensadas para a maré alta entrar e lavar o calçamento, hoje Patrimônio Mundial
Nas marés de lua cheia e nova, a água da baía cobre o pé de moleque do centro tombado pelo Iphan, parte do primeiro sítio misto do Brasil na lista da UNESCO
Quem caminha pelo Centro Histórico de Paraty em dia de lua cheia ou nova pode dar de cara com uma cena de cinema. A água da baía sobe pelas ruas e cobre o calçamento de pedra diante do casario colonial. A cidade da Costa Verde, no sul fluminense, junta esse espetáculo a um título raro, o de Patrimônio Mundial da UNESCO, e fica a poucas horas de estrada da capital.
Por que o mar chega às ruas de pedra de Paraty?
O mar chega às ruas porque o centro antigo de Paraty fica numa área baixa, à beira da Baía da Ilha Grande. Nas marés de sizígia, que acontecem perto das luas cheia e nova, a maré alta passa do nível das vias mais próximas do cais e avança sobre o chão de pedra.
O calçamento é formado por pedras grandes e irregulares, conhecido como pé de moleque. A água se espalha pelas frestas, corre entre as fachadas e volta para o mar quando a maré baixa. Guias e moradores costumam contar que o traçado colonial foi pensado para essa lavagem natural, e a história virou parte do charme do passeio.
Esse vaivém da água ajudou a transformar Paraty num cenário procurado por turistas do mundo inteiro. A Super Rádio Tupi já mostrou outros detalhes da vida na cidade, inclusive quem escolheu o lugar para recomeçar.
Como o Centro Histórico de Paraty virou área protegida?
A proteção veio em etapas, ao longo de décadas. Segundo um artigo da revista Arquitextos sobre o bairro histórico de Paraty, a cidade foi elevada a Monumento do Estado do Rio em 1945. Em 1958, o Iphan tombou o conjunto arquitetônico e paisagístico da cidade.

Em 1974, um novo tombamento do Iphan estendeu a proteção ao conjunto do município. Na prática, mudanças em fachadas, telhados e espaços públicos do centro antigo dependem do aval do órgão federal, o que ajuda a explicar por que as ruas mantêm o aspecto de séculos atrás.
Uma dissertação do mestrado profissional do Iphan lembra que o turismo virou a principal atividade econômica da cidade. O estudo mostra o desafio de equilibrar preservação e rotina de quem mora no bairro histórico.
O que o título de Patrimônio Mundial reconhece em Paraty?
O título reconhece, ao mesmo tempo, a riqueza cultural e a natural da região. O conjunto Paraty e Ilha Grande: Cultura e Biodiversidade entrou na lista da UNESCO em 2019 como o primeiro sítio brasileiro na categoria mista, como registra o dossiê de candidatura publicado pelo Iphan.
O documento descreve um bem com cinco componentes, que ligam a Mata Atlântica, a planície costeira e o ambiente marinho ao modo de vida das comunidades tradicionais. A candidatura começou mais de dez anos antes, foi enviada em janeiro de 2018 e concluída em janeiro de 2019.

Para o visitante, o passeio vai muito além das ruas de pedra. O mesmo reconhecimento inclui a Ilha Grande, em Angra dos Reis, e trechos de floresta preservada, um roteiro que combina história, praia e trilha.
Como ver a maré alta no centro histórico com segurança?
O jeito mais seguro é se planejar pela tábua de marés e caminhar sem pressa. As previsões oficiais são publicadas pelo Centro de Hidrografia da Marinha, e os horários mudam todo dia, então confira antes de sair. Pedra molhada escorrega: calçado firme e atenção redobrada com crianças e idosos fazem toda a diferença.
A maré alta dura poucas horas, mas o Centro Histórico de Paraty fica ali o ano inteiro, com igrejas, casarões e ritmo de cidade pequena. Ver o calçamento de pedra coberto pela baía é uma lembrança que nenhum cartão-postal entrega. Se você ainda não conhece esse Patrimônio Mundial da UNESCO, escolha uma lua cheia, chame a família e vá conferir de perto.
Se a vontade de pegar a estrada bateu, Minas Gerais também guarda cidades coloniais cheias de história. A Super Rádio Tupi preparou um roteiro com algumas delas.