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Provérbio árabe: “Quem quer fazer algo encontra um meio; quem não quer encontra uma desculpa.” Uma reflexão sobre as desculpas que contamos a nós mesmos
Pesquisas sobre procrastinação mostram que adiar tarefas alivia o mal-estar na hora e cobra a conta depois, um mecanismo que alimenta o autoengano
“Quem quer fazer algo encontra um meio; quem não quer encontra uma desculpa.” A frase circula no Brasil como provérbio árabe e cabe em qualquer conversa, seja na fila do ônibus, no vestiário ou no almoço de domingo. Ela trata de um hábito comum: a desculpa que a gente conta primeiro para si mesmo, antes de contar para o chefe, para o técnico do time de várzea ou para a família. E a psicologia tem bastante a dizer sobre isso.
O que o provérbio árabe diz sobre meios e desculpas?
O provérbio árabe diz que a vontade decide o caminho. Quando alguém quer de verdade, procura recursos; quando não quer, procura justificativas. A frase não nega que existam obstáculos reais. Ela aponta o momento em que a dificuldade deixa de ser um problema a resolver e passa a ser motivo para desistir.
Como todo ditado popular, o pensamento funciona pela imagem simples e fácil de lembrar. Quem trabalha no Centro, mora na Baixada e encara horas de trânsito sabe que o cansaço existe. A pergunta que o ditado propõe é outra: esse cansaço está sendo enfrentado ou está servindo de abrigo?
Por que a procrastinação vira desculpa para adiar tarefas?
A procrastinação vira desculpa porque adiar alivia, por alguns minutos, o mal-estar que a tarefa provoca. Os pesquisadores Fuschia Sirois e Timothy Pychyl descrevem o hábito como uma falha de autorregulação ligada à vontade de melhorar o humor no curto prazo. A análise saiu no periódico Social and Personality Psychology Compass, e a conta, segundo eles, fica para o “eu do futuro”.

Um estudo com 210 universitários do Irã, publicado no periódico Frontiers in Psychology, encontrou relação entre procrastinação acadêmica e dificuldade de lidar com as emoções. A associação se manteve mesmo quando os autores consideraram ansiedade e depressão. O estudo não prova causa, mas reforça a ideia de que adiar tem mais a ver com emoção do que com preguiça.
Outro ditado antigo também usa imagens do cotidiano para falar de escolhas e de felicidade. A leitura combina com quem gosta desse tipo de reflexão.
Provérbio chinês: “Se quiser ser feliz por uma semana, case-se; por um mês, mate um porco…➔
Como o autoengano transforma a desculpa em verdade pessoal?
O autoengano transforma a desculpa em verdade quando a pessoa passa a acreditar na própria justificativa. Em vez de “não quis”, a cabeça registra “não deu”. A troca parece pequena, mas protege a autoimagem e, com o tempo, apaga a chance de mudar de rota. É aí que o provérbio árabe acerta em cheio.

A falta de motivação costuma entrar nessa história como a grande culpada. Muita gente espera a motivação aparecer para começar, e ela nem sempre chega sozinha. Enquanto isso, a tarefa cresce na cabeça e o desconforto aumenta, o que torna o próximo adiamento ainda mais tentador.
O canal educativo TED-Ed publicou uma animação que explica por que adiamos tarefas mesmo sabendo que isso faz mal. O vídeo, em inglês, mostra como o corpo dispara a reação de adiar e como quebrar esse ciclo.
Como trocar a desculpa por um meio possível no dia a dia?
Trocar a desculpa por um meio começa com honestidade: separar o obstáculo real da justificativa confortável. Dividir a tarefa em partes menores e começar pelo trecho mais simples tira o peso da largada. A ideia, alinhada ao que Sirois e Pychyl descrevem, é lidar com o desconforto em vez de fugir dele, sem cair no autoengano de esperar o momento perfeito.
O provérbio árabe não promete milagre, e nem toda desistência é fraqueza: às vezes o “não” é a escolha certa. O que a frase pede é clareza sobre o motivo. Quando a procrastinação vira rotina e atrapalha a vida, conversar com um psicólogo pode ajudar. E aí, amigo ouvinte: qual desculpa você vai aposentar esta semana? Escolha uma só e comece hoje.
Se você gosta de reflexões que partem de frases famosas, outra leitura fala de amor e da diferença entre admirar e cuidar de alguém.