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Rapper Grazi lança EP ‘Pretos no Topo’

Trabalho 100% autoral que marca a estreia da artista carioca no cenário musical chega às plataformas digitais nesta sexta-feira (20)

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Rapper Grazi lança EP 'Pretos no Topo' (Foto: Divulgação)

“Onde estiver, seja lá como for, tenha fé porque até no lixão nasce flor”. Um dos versos mais marcantes do rap, de autoria dos Racionais MC’s, traduz bem a jornada de quem vive uma realidade difícil, mas que persiste, sonha e trabalha por uma vida melhor.

Filha de mãe empregada doméstica e pai pedreiro, Graziele Oliveira Ferreira Mendes, mais conhecida como Grazi é nascida e criada no Canal, comunidade carente localizada em Vargem Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro. A jovem de 21 anos sabe bem o que é viver a angústia de querer um futuro mais leve, enquanto trabalha pesado desde os 12 anos de idade. Mas a moça acaba de ver a sua vida dar uma guinada completa e lança seu primeiro EP “Pretos no Topo” com quatro faixas autorais nesta sexta-feira (20).

Grazi trabalhava há pouco mais de um ano numa creche da Recreio dos Bandeirantes como auxiliar de serviços gerais. Entre uma faxina e outra, a moça compartilhava com os colegas os seus versos e embalava o turno com sua voz suave e marcante, cantando os mais diversos gêneros musicais, mas principalmente o rap – que é a sua paixão. Num destes momentos de descontração no meio do expediente, a diretora da creche passa perto de Grazi e se surpreende: “Não sabia que você cantava tão bem!”. Acontece que Grazi nunca tinha tido a oportunidade de mostrar o seu talento para a chefe.

Como uma verdadeira fada madrinha, a diretora da creche entrou em contato com o pai de uma das crianças que, não por acaso, já havia trabalhado com grandes nomes da música. A partir daí um contato levou a outro e Grazi finalmente teria a chance de mostrar o seu talento para o mundo inteiro ouvir.

A relação de Grazi com a música nasceu muito antes do seu trabalho na creche. Ela já buscava o seu lugar ao sol desde os 16 anos de idade, quando começou a frequentar a Roda Cultural de Vargem Grande, um evento independente realizado por alguns moradores do bairro. Nas rodas, ela inicialmente apresentava as suas poesias realistas – que abordavam temas como racismo, feminismo e a dura realidade da periferia. De tanto frequentar o evento, e prestigiar os amigos nas batalhas de rimas ela um dia resolveu se arriscar e encarar o microfone, que se tornou um companheiro tão especial quanto a caneta. Não demorou muito para Grazi musicar algumas de suas letras e começar a se apresentar nas Rodas Culturais também como cantora.

Mas a vida não era só lazer. Nunca foi. Grazi começou a ganhar seu próprio dinheiro aos 12 anos de idade, trabalhando como babá para as vizinhas. A função se dividia com o auxílio à mãe nas tarefas de casa e com a frequência na escola, da qual ela nunca abriu mão. Aos 16 anos, começou a trabalhar como auxiliar de cozinha. O trabalho era pesado e pagava muito pouco, mas era com ele que Grazi contribuía com as despesas da casa. Em 2020, veio a pandemia e o restaurante em que trabalhava fechou, levando a sua renda ao zero completo. Neste momento de tantas incertezas, foi na arte e na família que Grazi encontrou forças para não desistir. “Tinha dias em que eu olhava ao redor e não entendia como a situação poderia melhorar, parecia que nada tinha mais jeito. As pessoas morrendo, a violência aumentando, na comunidade muita gente ficou desempregada, entregue ao vício. Eu só não perdia as esperanças pois lembrava sempre dos ensinamentos da minha mãe e da minha avó, que me fizeram uma pessoa de muita fé. Nos momentos de mais tristeza eu colocava mesmo o joelho no chão e orava. Em seguida eu ‘canetava’ o que tava sentindo… Era a minha válvula de escape.”, relembra Grazi.

Quando os estabelecimentos voltaram a abrir, Grazi conseguiu um novo emprego, ainda como auxiliar de cozinha, num asilo. Algum tempo depois, por indicação da irmã, ela conseguiu o trabalho de auxiliar de serviços gerais na creche da Recreio dos Bandeirantes.

Após a intervenção de sua fada madrinha, Grazi foi apresentada a um empresário do ramo interessado em agenciar a sua carreira. O primeiro passo foi criar um planejamento para o lançamento das suas canções de estreia e mandar a moça direto para o estúdio. E a partir daí a vida de Grazi nunca mais seria a mesma! Em menos de uma semana, a jovem passou pela consultoria de um stylist e personal shopper para renovar o guarda-roupa. Já com os looks novos, partiu para o seu primeiro ensaio fotográfico. Além da imagem, Grazi tratou de cuidar da voz passando pela avaliação de uma fonoaudióloga e também pelo crivo de outros profissionais da música, que apostam no sucesso da cantora.

Para produzir seu primeiro trabalho, a rapper entrou em contato com o produtor musical Vinícius Rotatori, que já era seu conhecido por conta de amigos em comum. Na primeira vez em que eles se encontraram, há cerca de três anos, ao ouvir a voz de Grazi, Vinícius Rotatori profetizou: “um dia eu ainda vou produzir um trabalho seu!”. O que era uma promessa de bar, se concretizou! O resultado é o EP “Pretos no Topo”, trabalho de estreia da Grazi com quatro faixas inéditas e autorais.

O projeto contempla temas como a vida na periferia, racismo e vivências pessoais. Sobre a seleção das canções, dentre tantas já escritas, Grazi revela: “Tudo aconteceu muito rápido. Quando falaram que eu iria para o estúdio gravar as minhas músicas, eu quase não acreditei! Ao mesmo tempo, mesmo surpresa e até meio aérea, eu estava completamente preparada. Era o sonho da minha vida se tornando realidade! Então eu foquei naquilo que melhor iria me apresentar para as pessoas, as letras que estavam mais estruturadas. Junto com o Vini, trabalhamos um verso ou outro para deixar mais ajustado e gravamos tudo numa noite, praticamente!”.

O EP leva como título o mesmo nome do single de estreia: “Pretos no Topo”, faixa em que a cantora reflete sobre como o sucesso das pessoas pretas incomoda, ao mesmo tempo em que sonha com o próprio sucesso. Em seguida temos “Não faço isso de hoje”, que fala sobre a trajetória de Grazi na música e sobre como ela foi desacreditada por algumas pessoas. Já a faixa “Lutas e glórias”, revela como a pandemia afetou a cantora, que passou por um episódio de depressão. E “Discriminoria” é a faixa que encerra o EP e que trata da relação conflituosa entre a polícia e as pessoas pretas.

O EP “Pretos no Topo” chega a todas as plataformas digitais nesta sexta-feira (20). Junto com o EP, Grazi lança ainda um curta biográfico em seu canal no Youtube revelando detalhes sobre sua vida pessoal e os bastidores dessa nova vida completamente dedicada à música.

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