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Segundo a psicologia, quem não consegue jogar comida fora e guarda até o último resto pode não estar apenas sendo econômico, mas repetindo hábitos de uma infância em que nada podia sobrar
Pesquisa britânica com adultos que passaram necessidade quando crianças indica que a escassez vivida cedo pode mudar a forma de lidar com a comida
Raspar a panela, guardar duas colheres de arroz num pote e sentir culpa só de pensar no lixo. Para muita gente, fugir do desperdício de alimentos parece apenas economia doméstica. A psicologia comportamental, porém, olha para esse hábito com outra lente. Em muitos casos, ele carrega lembranças de uma infância em que a mesa era curta e nada podia sobrar.
Por que guardar todo resto de comida pode ter raiz na infância?
Porque os hábitos alimentares são aprendidos cedo e costumam acompanhar a pessoa por décadas. Na visão da psicologia comportamental, um comportamento repetido muitas vezes e reforçado pela família vira regra automática. Quem cresceu ouvindo que não se deixa nada no prato aprendeu que sobra é perda.
Em casas onde a comida faltava, essa regra tinha uma função real: fazer o pouco render até o fim do mês. O problema aparece quando a vida muda e a geladeira enche, mas o cérebro segue agindo como se a escassez ainda estivesse ali. Assim, o medo do desperdício de alimentos vira um jeito de se sentir seguro.
No Rio e na Baixada, não é difícil encontrar avós e mães que viveram tempos de aperto e passaram esse cuidado adiante. Para essa geração, o prato limpo também é uma forma de respeitar o trabalho e o dinheiro suado de cada compra.
Como a fome na infância pode mudar a relação com a comida?
Pesquisas indicam que passar necessidade quando criança pode alterar o modo como o adulto reage à comida. Um estudo publicado no periódico Appetite avaliou 126 adultos num teste de degustação de lanches calóricos. Os pesquisadores britânicos mediram a insegurança alimentar atual e também a vivida na infância.

A fome nos primeiros anos mudou a força das ligações entre a insegurança alimentar adulta e três pontos: o peso corporal, as calorias consumidas e o gosto por chocolate. Os próprios autores classificam os achados como exploratórios. São pistas de que a experiência da infância molda o valor que a pessoa dá à comida, e não conclusões fechadas.
Isso não quer dizer que todo mundo que guarda resto tenha passado por um trauma de infância. Orçamento apertado, consciência ambiental e simples bom senso também explicam o hábito, e cada história precisa ser olhada com calma.
As emoções aparecem em vários outros hábitos à mesa, inclusive na ordem em que comemos. Na matéria abaixo, a psicologia também tem explicação para quem deixa o alimento de que menos gosta para comer primeiro.
Quando o medo de desperdiçar comida vira sinal de alerta?
O cuidado com a comida vira alerta quando deixa de ser escolha e passa a causar sofrimento. Guardar sobras bem armazenadas é uma prática útil. O problema começa quando a pessoa sente angústia intensa ao descartar algo estragado ou junta potes que nunca vai usar.

Em alguns casos, esse comportamento se liga a um trauma de infância, como períodos de fome, perda de renda da família ou instabilidade em casa. Se a lembrança da escassez dispara ansiedade toda vez que algo vai para o lixo, procure um psicólogo ou a unidade de saúde mais próxima.
Outro risco é comer o que já passou do ponto só para não jogar fora. Alimento com cheiro, cor ou textura alterados pode fazer mal, e nenhuma economia compensa uma ida à emergência.
Como aproveitar as sobras sem viver preso à memória da escassez?
Dá para respeitar a comida sem carregar o peso do passado. O país vive esse dilema em escala maior. Um capítulo do pesquisador Gustavo Porpino, da Embrapa, lembra que o Brasil exporta alimentos para o mundo, mas ainda convive com insegurança alimentar. O texto aponta o comportamento do consumidor como peça central do desperdício de alimentos dentro de casa.
Planejar as compras, cozinhar porções do tamanho da família e transformar sobras em novas receitas ajuda o bolso e o planeta. E se o aperto de antigamente ainda aperta o peito na hora de limpar a geladeira, que tal contar essa história para alguém de confiança hoje mesmo?
Cuidar da cabeça também passa por boas leituras e novas histórias. A Super Rádio Tupi separou obras de autores brasileiros que estão chegando agora às prateleiras.
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