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Segundo a psicologia, quem sente vergonha alheia ao assistir a cenas constrangedoras na TV pode estar demonstrando uma forte capacidade de se colocar no lugar dos outros
A vergonha alheia que você sente vendo TV pode ter relação com a empatia
A vergonha alheia pode aparecer quando um personagem faz um discurso desastroso ou um participante de reality show insiste em uma apresentação constrangedora. Dá vontade de esconder o rosto, desviar os olhos ou interromper o vídeo. Pesquisas em psicologia relacionam essa reação à empatia e à maneira como imaginamos a exposição de outra pessoa diante do julgamento dos demais.
O que a psicologia encontrou sobre vergonha alheia e empatia?
Uma pesquisa publicada em 2011 por Sören Krach e colaboradores investigou essa relação. Na primeira etapa, com 619 participantes, os pesquisadores encontraram uma associação entre maiores pontuações em uma escala de empatia e relatos mais intensos de constrangimento pelo outro. As associações foram pequenas a moderadas, indicando que outros fatores também participam da experiência.
O trabalho mostrou ainda que o observador pode ficar constrangido mesmo quando a pessoa exposta não percebe a situação. Imagine um personagem falando com confiança, sem notar que os demais estão desconfortáveis. O espectador reconhece o desencontro e reage a ele. O incômodo pode surgir da avaliação de quem assiste, mesmo sem corresponder ao sentimento de quem aparece na tela.

Por que algumas cenas parecem tão difíceis de assistir?
Um estudo de 2015 sobre reality shows examinou 60 participantes com ressonância magnética funcional. Eles observaram imagens de vídeos vistos anteriormente. O conteúdo mais constrangedor esteve associado a maior atividade em regiões relacionadas à compreensão dos estados mentais alheios e à preocupação empática. Os resultados apoiam a participação da tomada de perspectiva nessa emoção. Pense em cenas como:
- Um participante que canta com confiança enquanto os jurados demonstram desconforto;
- Um personagem que faz uma declaração amorosa diante de alguém sem o mesmo interesse;
- Uma pessoa que conta uma piada e encontra silêncio na plateia;
- Um entrevistado que insiste em uma informação depois de perceber que se confundiu;
- Um convidado que revela, sem querer, um assunto particular durante uma transmissão.
Essa reação significa que alguém tem uma capacidade excepcional de compreender os outros?
A relação com a empatia existe, mas a intensidade do desconforto envolve outros aspectos. Uma pesquisa sobre a avaliação do constrangimento vicário encontrou associações também com a facilidade de sentir constrangimento pessoal e com o medo da avaliação negativa. Assim, duas pessoas podem reagir à mesma cena por motivos diferentes.
Uma pode imaginar o sofrimento do participante; outra pode pensar em como se sentiria sendo julgada naquela situação. Essas experiências também podem se misturar. Uma reação diante da televisão oferece apenas uma parte da história. Para compreender a sensibilidade de alguém, também importam suas atitudes em conversas, conflitos e situações nas quais outra pessoa precisa de apoio.

Como observar esse desconforto sem transformar a cena em um teste de personalidade?
Ao perceber vontade de pular um trecho, pode ser interessante identificar o que incomodou. Foi a exposição pública, a rejeição ou o fato de o personagem não perceber a reação dos demais? Essa observação permite descrever a experiência com mais precisão. Para explorar a própria resposta, vale considerar alguns pontos:
- Identificar o momento em que a cena começou a parecer constrangedora;
- Observar se o pensamento foi sobre o personagem ou sobre estar no lugar dele;
- Reconhecer que a pessoa retratada pode interpretar o episódio de outra maneira;
- Perceber se a reação muda conforme o tipo de programa ou de situação;
- Fazer uma pausa ou escolher outro conteúdo quando assistir deixar de ser agradável.
A sensibilidade à exposição do outro também aparece fora da tela
Sentir vergonha alheia pode revelar envolvimento com a situação observada e uma tentativa de imaginar suas consequências sociais. O alcance dessa reação, porém, se torna mais concreto no cotidiano. Diante de alguém que errou uma palavra durante uma apresentação, por exemplo, é possível oferecer tempo para a pessoa continuar e evitar ampliar sua exposição.
A reflexão ganha utilidade quando o incômodo diante da TV desperta atenção para esses encontros. Escutar uma explicação, corrigir com discrição ou evitar repetir uma história humilhante são formas de considerar a perspectiva alheia. A compreensão do outro também se expressa na resposta escolhida, inclusive quando não sentimos aquele aperto imediato provocado por uma cena constrangedora.