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Segundo Machado de Assis, escritor brasileiro: “Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito”, sobre desapego e recomeços
A reflexão de Machado de Assis sobre desapego e novos começos.
A frase de Machado de Assis sobre esquecer e recomeçar não é consolo fácil. É uma observação precisa sobre como o tempo opera: apagando, reescrevendo e seguindo em frente com ou sem a permissão de quem foi apagado. E ela vem de um lugar específico na obra do escritor, não de um aforismo solto, mas de um conto que fala exatamente sobre a efemeridade da memória humana.
Onde Machado de Assis escreveu essa frase e em que contexto?
Joaquim Maria Machado de Assis, nascido em 21 de junho de 1839 no Rio de Janeiro, é considerado o maior escritor da literatura brasileira. A frase está no conto “Verba Testamentária”, publicado na coletânea Papéis Avulsos em 1882, durante a fase realista do autor. O trecho exato na obra é: “Não venho restaurá-la. Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito.”
O contexto é revelador: o narrador relata como um ato de generosidade de um homem chamado Nicolau, que chegou a ganhar manchetes em todo o país, foi gradualmente esquecido pela opinião pública. Em vez de lamentar esse esquecimento, o narrador o aceita como lei universal. A frase não condena o esquecimento: o declara necessário. É a postura típica do realismo machadiano, fria, irônica e lúcida, sem ilusões sobre a natureza humana.

O que a metáfora da lousa revela sobre a filosofia de Machado de Assis?
A escolha da lousa não é casual. Em 1882, a lousa era o suporte de escrita mais cotidiano nas escolas brasileiras: apagável, reutilizável, temporário por natureza. Ao compará-la à vida, Machado de Assis está dizendo que nenhum capítulo, por mais intenso que tenha sido, é permanente. O destino não pede licença para apagar. Ele simplesmente escreve o próximo caso quando chega a hora.
Os elementos que tornam essa metáfora tão precisa são:
O que a psicologia existencial diz sobre o esquecimento como necessidade?
A psicologia existencial, especialmente na tradição de Viktor Frankl e Irvin Yalom, aborda o esquecimento não como falha cognitiva, mas como parte essencial do processo de renovação de sentido. Para Yalom, um dos desafios centrais da existência humana é aceitar que os capítulos encerram, que vínculos se transformam e que a identidade não é uma estrutura fixa, mas um processo contínuo de reescrita.
A psicologia existencial e a frase de Machado de Assis convergem em pelo menos três pontos fundamentais:
- Resistir ao esquecimento é resistir ao tempo, o que consome energia que poderia ser usada no presente
- A identidade saudável não é aquela que preserva tudo, mas a que consegue integrar o passado sem ser governada por ele
- O desapego não significa indiferença: significa que a pessoa consegue sentir a perda sem ser paralisada por ela
- A capacidade de recomeçar depende diretamente da disposição para encerrar, o que exige uma forma ativa de esquecimento afetivo
- Guardar ressentimentos e mágoas sem prazo de validade é uma forma de impedir que a lousa seja apagada, com custo real para quem carrega o peso
Como o realismo psicológico de Machado de Assis antecipou o que a psicologia moderna descobriu?
O realismo machadiano se concentrava nos processos internos da mente humana com uma precisão que surpreende qualquer leitor contemporâneo. Em obras como Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, Machado explorou a memória como construção subjetiva, os mecanismos de autoengano e a forma como as pessoas revisam o passado para proteger a própria narrativa. Décadas antes de Sigmund Freud publicar seus trabalhos sobre recalque e defesa psíquica, Machado já descrevia esses mecanismos em prosa literária.
Como a ideia da lousa se aplica a situações concretas da vida contemporânea?
A metáfora de Machado de Assis encontra eco em qualquer situação em que alguém precise encerrar um capítulo para que o próximo seja possível. O mecanismo é o mesmo em contextos completamente diferentes: a lousa precisa ter espaço para que algo novo seja escrito.
A comparação entre a lousa cheia e a lousa com espaço em situações reais fica assim:
| Situação | Lousa cheia: resistência ao apagamento | Lousa com espaço: aceitação do novo caso |
|---|---|---|
| Fim de um relacionamento Ruptura afetiva | Revisitar constantemente o que foi dito, o que poderia ter sido diferente | Integrar a experiência e abrir-se para novos vínculos |
| Perda de emprego ou carreira Ruptura profissional | Agarrar-se à identidade do cargo anterior como definição de valor pessoal | Usar a experiência como base para novo capítulo profissional |
| Luto por pessoa querida Perda irreversível | Recusar qualquer alegria posterior como traição à memória de quem partiu | Honrar quem foi sem impedir que a vida continue sendo vivida |
| Mágoa ou traição Ferida relacional | Guardar o ressentimento como proteção contra nova dor | Processar a dor sem deixá-la ocupar o espaço de novas conexões |
| Erro ou fracasso pessoal Culpa persistente | Revisitar o erro em loop como forma de autopunição sem prazo | Reconhecer o erro, aprender e permitir que o destino escreva o próximo caso |
O que Machado de Assis ainda tem a dizer para quem não consegue apagar a lousa?
A dificuldade de esquecer não é fraqueza. É humana. Machado de Assis sabia disso: toda a sua obra é construída sobre personagens que não conseguem soltar o passado, como Bentinho em Dom Casmurro, que passa a vida reescrevendo memórias para confirmar uma suspeita. A tragédia machadiana nasce exatamente aí: na incapacidade de deixar o destino apagar a lousa e confiar no que virá a ser escrito.
A frase do conto Papéis Avulsos não promete que o que vem depois será melhor. Promete que o que vem depois só pode existir se houver espaço para isso. O destino não espera. Ele apaga quando precisa apagar e começa a escrever enquanto a pessoa ainda está de luto pelo capítulo anterior. A sabedoria que Machado oferece não é conforto: é clareza. E talvez seja exatamente essa clareza fria e honesta que faz essa frase atravessar mais de cento e quarenta anos e continuar descrevendo, com precisão de cirurgião, algo que qualquer pessoa que já perdeu algo reconhece de imediato.