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Sentir saudade de uma época que você nunca viveu tem nome: a ‘anemoia’ explica por que tanta gente se encanta com fotos, músicas e roupas dos anos 70 e 80
Termo criado pelo escritor John Koenig chegou à psicologia, e um estudo da Universidade Cornell mostra como a música dos pais marca os gostos dos filhos
Folhear o álbum de fotos dos pais, ouvir um vinil dos anos 1980 ou achar uma jaqueta jeans num brechó pode dar um aperto curioso no peito. É saudade de uma época que a pessoa nunca viveu. Esse sentimento tem nome, anemoia, e ajuda a entender por que a estética dos anos 1970 e 80 segue viva nas redes, nas festas e no guarda-roupa de quem nasceu bem depois.
O que significa anemoia e de onde veio essa palavra?
Anemoia é a saudade de um tempo que você nunca conheceu. A palavra foi criada pelo escritor americano John Koenig no projeto The Dictionary of Obscure Sorrows, que inventa nomes para emoções sem tradução nos dicionários comuns.
No verbete original, Koenig convida o leitor a imaginar que atravessa a moldura de uma foto antiga e entra numa névoa cor de sépia. O termo nasceu na literatura, não num laboratório. Pegou na internet justamente por dar nome a algo que muita gente sente diante de imagens de outras décadas.
Dá para sentir nostalgia sem ter uma lembrança própria?
Para parte dos estudiosos, dá. A nostalgia clássica sempre foi descrita como a recordação afetiva de algo vivido. O filósofo Felipe De Brigard, da Universidade Duke, nos Estados Unidos, propõe outra leitura na palestra Nostalgia Reimagined: para ele, a nostalgia está ligada à imaginação, e não à memória.

A ideia combina bem com a anemoia. A pessoa monta a cena a partir de fotos de família, filmes, novelas reprisadas e histórias contadas em casa. A imaginação preenche as lacunas e transforma esse material num passado que parece familiar.
Na psicologia experimental, o tema ainda engatinha. Um trabalho de conclusão de curso da Universidade de Groningen, na Holanda, testou nostalgia e anemoia em 85 voluntários online. A autora, Alina Gullatz, observa que a anemoia ainda não tinha sido estudada cientificamente.
Quem viveu de verdade aquela década guarda lembranças bem concretas do dia a dia. Algumas delas estão reunidas nesta lista do site.
Coisas que todo jovem dos anos 80 fez e que hoje dão uma saudade enorme➔
Por que os anos 80 e 70 encantam até quem nasceu depois?
Uma das explicações passa pela família. A psicóloga Carol Lynne Krumhansl, da Universidade Cornell, publicou em 2013 no periódico Psychological Science um estudo com 62 universitários. Eles ouviram dois sucessos da parada Billboard de cada ano entre 1955 e 2009.
O resultado surpreendeu os pesquisadores. Os jovens mostraram mais lembranças, reconhecimento e ligação emocional com as músicas do começo dos anos 1980, quando os pais deles tinham entre 20 e 25 anos. Krumhansl batizou o efeito de picos de reminiscência em cascata, transmitidos de uma geração para outra.

Apareceu ainda um pico menor para os anos 1960, que os autores ligam à possível influência dos avós. Faz sentido pensar no mesmo caminho para os anos 1970: trilhas, roupas e fotos chegam aos mais novos pelos discos e álbuns guardados em casa, carregados de afeto.
A saudade dos anos 70 e 80 faz bem ou atrapalha o presente?
A resposta da ciência ainda está em construção. Nos testes de Groningen, nostalgia e anemoia tiveram efeitos positivos sobre o humor, mas pequenos demais para serem considerados conclusivos. Outro trabalho da mesma universidade, de Mira Holzmann, indicou melhora de humor só entre os voluntários mais otimistas.
No dia a dia, essa saudade emprestada aparece em coisas simples: a playlist de flashback no rádio, a novela antiga reprisada, a festa temática no fim de semana. Que tal transformar a curiosidade em conversa? Puxe o assunto com seus pais ou avós, peça para ver as fotos da época e ouça as histórias por trás delas.
Se você gosta de entender o que a mente revela nos hábitos do cotidiano, tem mais leitura boa no site. Esta matéria trata de um costume bem comum dentro de casa.