Søren Kierkegaard, o primeiro filósofo existencialista: “Há duas maneiras de ser enganado: uma é acreditar no que não é verdade, a outra é se recusar a acreditar no que é verdade.” Uma reflexão sobre como nossas próprias certezas podem distorcer a realidade - Super Rádio Tupi
Conecte-se conosco
x

Entretenimento

Søren Kierkegaard, o primeiro filósofo existencialista: “Há duas maneiras de ser enganado: uma é acreditar no que não é verdade, a outra é se recusar a acreditar no que é verdade.” Uma reflexão sobre como nossas próprias certezas podem distorcer a realidade

A frase de Kierkegaard sobre verdade mostra como convicções fortes podem dificultar a revisão de escolhas, opiniões e julgamentos

Publicado

em

Compartilhe
google-news-logo
Søren Kierkegaard, o primeiro filósofo existencialista: “Há duas maneiras de ser enganado: uma é acreditar no que não é verdade, a outra é se recusar a acreditar no que é verdade.” Uma reflexão sobre como nossas próprias certezas podem distorcer a realidade
Kierkegaard refletiu sobre as formas de se afastar da verdade (Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial)

Søren Kierkegaard, filósofo dinamarquês considerado precursor do existencialismo, deixou uma reflexão que incomoda justamente quem acredita estar sempre certo. O autoengano não começa apenas quando aceitamos uma mentira. Também pode surgir quando rejeitamos uma evidência porque ela ameaça nossas convicções, exige uma mudança de atitude ou desmonta a imagem que construímos de alguém.

Quais são as duas maneiras de se afastar da verdade?

Uma informação falsa pode parecer convincente quando confirma aquilo que desejamos ouvir. Já uma informação verdadeira pode despertar resistência quando revela um erro nosso. Kierkegaard aproxima essas duas situações para mostrar que o engano também depende da disposição de quem recebe a informação, e não somente de quem a apresenta.

“Há duas maneiras de ser enganado: uma é acreditar no que não é verdade, a outra é se recusar a acreditar no que é verdade.”

A primeira possibilidade costuma ser mais fácil de reconhecer: alguém acredita em uma promessa impossível ou compartilha um boato. A segunda exige examinar a própria postura. Nesse caso, os fatos estão disponíveis, mas a pessoa encontra justificativas sucessivas para preservar uma conclusão anterior. Ter certeza não é o mesmo que ter razão.

✦
Curiosidade sobre Kierkegaard

Kierkegaard publicou várias obras usando pseudônimos, cada um associado a uma perspectiva diferente. Esse recurso permitia apresentar conflitos de ideias e convidar o leitor a examiná-los antes de chegar à própria conclusão.

Por que uma convicção pode parecer mais segura do que uma evidência?

Rever uma opinião pode ter um custo pessoal. Admitir que uma compra foi ruim, por exemplo, significa reconhecer dinheiro perdido e uma decisão equivocada. Às vezes, defender a escolha parece menos desconfortável do que reconsiderá-la. Algumas situações ajudam a perceber essa resistência no cotidiano:

  • Ignorar defeitos repetidos de um produto porque sua compra foi muito defendida;
  • Descartar toda crítica a uma pessoa admirada antes de verificar o ocorrido;
  • Aceitar um boato favorável à própria opinião sem conferir sua origem;
  • Tratar uma correção como ofensa, mesmo quando ela apresenta dados verificáveis.
Søren Kierkegaard, o primeiro filósofo existencialista: “Há duas maneiras de ser enganado: uma é acreditar no que não é verdade, a outra é se recusar a acreditar no que é verdade.” Uma reflexão sobre como nossas próprias certezas podem distorcer a realidade
Kierkegaard refletiu sobre as formas de se afastar da verdade (Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial)

O pensamento de Kierkegaard pede que acreditemos em tudo?

Questionar as próprias certezas não significa aceitar qualquer afirmação. A reflexão de Kierkegaard aponta para uma abertura acompanhada de discernimento. Uma história pode ser emocionante e continuar falsa. Uma explicação pode ser desagradável e estar bem fundamentada. O sentimento provocado por uma mensagem não resolve, sozinho, a questão de sua veracidade.

Uma diferença importante está entre suspender o julgamento e negar antecipadamente. Dizer “ainda preciso verificar” mantém a investigação aberta. Dizer “isso não pode ser verdade” apenas porque a informação contraria uma preferência encerra a conversa antes da análise. Mudar de opinião diante de evidências pode mostrar cuidado com a verdade, mesmo quando exige reconhecer um erro em público.

Como examinar uma informação sem defender automaticamente sua opinião?

Antes de compartilhar uma mensagem ou discutir uma conclusão, convém separar três elementos: o que aconteceu, o que alguém interpretou e o que você gostaria que fosse verdade. Essa distinção evita transformar uma expectativa em prova. Algumas perguntas podem orientar a avaliação sem exigir uma resposta imediata:

  • Qual é a origem da informação e o que pode ser confirmado?
  • Eu aceitaria esse argumento se ele contrariasse minha opinião?
  • Estou respondendo aos fatos ou à irritação que eles provocaram?
  • Que evidência me faria reconsiderar minha conclusão?
Søren Kierkegaard, o primeiro filósofo existencialista: “Há duas maneiras de ser enganado: uma é acreditar no que não é verdade, a outra é se recusar a acreditar no que é verdade.” Uma reflexão sobre como nossas próprias certezas podem distorcer a realidade
Kierkegaard refletiu sobre as formas de se afastar da verdade (Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial)

O que acontece quando precisamos vencer toda conversa?

Uma discussão perde sua capacidade de esclarecer quando cada participante procura apenas defender a própria posição. A pessoa passa a ouvir para encontrar uma brecha, não para compreender o argumento. Pode mudar de assunto, exagerar uma falha pequena ou repetir a mesma afirmação. Nesse ambiente, reconhecer um ponto válido do outro parece derrota, embora seja justamente o que permite corrigir uma interpretação e tornar a conversa mais precisa.

Leia também: Oscar Wilde sobre dinheiro e imaginação: “Quem vive dentro de seus meios sofre de falta de imaginação.” Uma reflexão sobre por que grandes planos costumam exigir mais do que cautela e conforto

A verdade também exige disposição para rever escolhas

O ensinamento de Søren Kierkegaard alcança decisões comuns: avaliar uma relação, reconhecer uma falha no trabalho ou abandonar uma promessa sem fundamento. Em cada situação, vale perguntar se estamos examinando o que aconteceu ou tentando proteger a versão que preferimos. Reconhecer o próprio engano permite corrigir a decisão antes de repetir suas consequências.

Convicções ajudam a orientar escolhas, mas precisam continuar abertas ao confronto com os fatos. Uma opinião revista pode levar a uma compra mais cuidadosa, a um pedido de desculpas ou a uma conversa antes adiada. Pensar por conta própria inclui essa responsabilidade: não aceitar uma mentira por conveniência e não rejeitar uma verdade apenas porque ela exige mudar de direção.