Entretenimento
Stephen Hawking, cientista: “Não é necessário invocar Deus para acender o pavio e dar início ao Universo.”
Física e filosofia se encontram na frase mais debatida de Stephen Hawking
Stephen Hawking passou décadas construindo uma das carreiras científicas mais influentes do século XX. Mas foi uma frase publicada em 2010, no livro O Grande Projeto, que atravessou as fronteiras da física e entrou no debate público de forma definitiva: “Não é necessário invocar Deus para acender o pavio e dar início ao universo.” Simples na forma, radical no conteúdo, a declaração resume uma posição que Hawking desenvolveu ao longo de toda a sua trajetória intelectual.
O que levou Hawking a fazer essa afirmação?
A frase não surgiu do nada. Ela é parte de um argumento que Hawking e o físico Leonard Mlodinow desenvolveram em O Grande Projeto, obra em que os dois propõem que o universo pode ter surgido espontaneamente a partir das leis da física, sem que nenhuma força externa fosse necessária. O ponto central é a gravidade: segundo Hawking, a existência de uma lei como essa já é suficiente para que o cosmos se crie do nada.
Para chegar a essa conclusão, Hawking partiu de décadas de pesquisa sobre cosmologia, buracos negros e gravitação quântica. O livro Uma Breve História do Tempo, publicado em 1988, já sinalizava esse caminho ao tratar das origens do universo sem recorrer a causas sobrenaturais, mas ainda de forma mais cautelosa. Em 2010, a posição estava consolidada.
O que Hawking entendia por “invocar Deus”?
A palavra “invocar” não é casual. Hawking não estava dizendo que Deus não existe como questão filosófica ou teológica: ele estava dizendo que a física não precisa dessa hipótese para funcionar. A distinção é importante. Para o cientista britânico, Deus, quando mencionado em contextos científicos, funciona como um termo que preenche lacunas no conhecimento, um recurso utilizado quando as explicações naturais parecem insuficientes.

Como essa declaração foi recebida pelo mundo científico e religioso?
A repercussão foi imediata e dividida. No meio científico, a maioria dos físicos reconheceu a consistência do argumento com o que já se sabia sobre cosmologia quântica, mesmo que alguns discordassem de detalhes da formulação. Entre líderes religiosos, a reação foi de contestação. O rabino Lord Sacks chamou o livro de falacioso, e outros representantes de diferentes tradições argumentaram que Hawking estava respondendo a uma pergunta que a ciência, por definição, não tem ferramentas para responder.
Algumas das reações mais comuns ao argumento de Hawking vinham de perspectivas distintas:
- Físicos e cosmólogos, em sua maioria, validaram a base científica do raciocínio sobre criação espontânea.
- Filósofos questionaram se a física pode responder à pergunta “por que existe algo em vez de nada?”
- Teólogos argumentaram que Hawking estava descrevendo um Deus literalista que a maioria das tradições religiosas também não sustenta.
- O público em geral polarizou entre quem via na frase uma libertação intelectual e quem a entendia como uma provocação desnecessária.
Hawking sempre pensou assim sobre a origem do universo?
Não exatamente. Em Uma Breve História do Tempo, há uma passagem famosa em que Hawking escreve que compreender as leis que governam o cosmos seria “conhecer a mente de Deus”. A frase foi amplamente citada por pessoas religiosas como evidência de que o cientista compartilhava uma visão teísta do universo. Décadas depois, o próprio Hawking esclareceu que usava “Deus” ali como metáfora para as leis físicas, não como referência a uma entidade pessoal ou criadora.
Por que essa citação ainda circula e provoca debate?
A persistência da frase no debate público diz algo sobre o que ela toca. A questão da origem do universo é uma das mais antigas da humanidade, e qualquer resposta que venha de uma autoridade reconhecida pelo pensamento científico inevitavelmente gera atrito com tradições que também reivindicam esse território. Hawking era, nesse sentido, um interlocutor impossível de ignorar: físico teórico de reputação global, autor de um dos livros de ciência mais vendidos da história e figura pública de presença singular.
- A frase é curta o suficiente para circular sem contexto, o que amplifica tanto sua força quanto os mal-entendidos sobre ela.
- Ela toca em uma tensão real entre explicação científica e explicação religiosa que não foi resolvida e provavelmente não será.
- A trajetória pessoal de Hawking, marcada pela esclerose lateral amiotrófica desde os 21 anos, confere peso adicional a qualquer declaração sua sobre sentido e existência.

Um legado que vai além da polêmica
Stephen Hawking morreu em 14 de março de 2018, aos 76 anos. O que ficou não foi apenas a polêmica sobre Deus e o universo, mas uma obra que mudou a forma como físicos e leigos pensam sobre o cosmos, o tempo e os limites do conhecimento humano. A frase sobre o pavio aceso é, nesse contexto, um fragmento de um argumento muito maior.
O debate que ela provocou continua ativo porque as perguntas que ela toca não têm resposta fácil. A física pode descrever como o universo evoluiu desde o Big Bang com uma precisão extraordinária. Se ela pode ou não responder por que há um universo para descrever em primeiro lugar é uma questão que permanece aberta, e é exatamente essa abertura que mantém a citação de Hawking relevante mais de uma década depois de publicada.