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Uma cidade que guarda palácios em ruínas há quase 200 anos lança foguetes que gastam 30% menos combustível por estar quase sobre o Equador
O destino onde construções históricas abandonadas contrastam com foguetes que partem rumo ao espaço.
Cidades costumam escolher um tempo para habitar: o passado dos museus ou o futuro da tecnologia. Uma delas, no entanto, vive os dois ao mesmo tempo. Em Alcântara, no Maranhão, as ruínas de uma cidade imperial que parou no século XIX dividem o território com a base de onde o Brasil lança seus foguetes. O contraste não é cenário de filme: é geografia e história no mesmo endereço.
Como uma cidade tão rica virou um campo de ruínas?
A resposta está num ciclo econômico que subiu e desabou. Fundada no período colonial, Alcântara prosperou nos séculos XVIII e XIX com a exportação de açúcar e, depois, de algodão, produzidos com mão de obra escravizada. A cidade chegou a rivalizar com a capital São Luís e abrigou barões, comendadores e um dos pelourinhos mais imponentes da região, talhado em pedra de lioz trazida de Portugal.
O apogeu durou enquanto durou o algodão. Quando o mercado entrou em crise e a abolição da escravidão desmontou a base econômica da elite local, as famílias ricas abandonaram a cidade. Sem recursos para reformar ou reconstruir, Alcântara simplesmente estagnou, e seus palácios foram cedendo à vegetação. Dois deles ficaram inacabados, erguidos às pressas na expectativa de uma visita de Dom Pedro II que nunca se concretizou, e hoje estão entre as ruínas mais fotografadas da cidade.

Por que o abandono preservou a cidade em vez de destruí-la?
Porque sem crescimento não houve demolição nem reconstrução. Enquanto outras cidades históricas tiveram seus casarões coloniais derrubados para dar lugar a prédios modernos, Alcântara ficou tão pobre e isolada que nada foi alterado. O resultado é um conjunto arquitetônico do século XVII e XVIII raríssimo, com fachadas, ruas de pedra e igrejas preservadas justamente pela ausência de dinheiro.
Esse valor foi reconhecido oficialmente. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 1948 o conjunto arquitetônico e urbanístico de Alcântara, com cerca de 400 edificações, foi tombado como patrimônio nacional, e a cidade recebeu o título de Cidade Monumento Nacional, a primeira do Maranhão a ter essa proteção federal. O isolamento, que quase matou a cidade economicamente, salvou sua memória.
O que a posição de Alcântara no globo tem de especial?
Ela está quase sobre a linha mais importante do planeta para quem quer alcançar o espaço. O Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) fica a cerca de 2°18′ de latitude sul, uma das posições mais próximas da Linha do Equador entre todas as bases de lançamento do mundo. E essa proximidade não é um detalhe: é a razão de a base existir ali.
A física explica a vantagem. A Terra gira mais rápido no Equador do que nos polos, e um foguete lançado nessa faixa recebe parte dessa velocidade de rotação como um impulso natural na direção da órbita. Segundo a Agência Espacial Brasileira (AEB), esse empurrão permite economizar até 30% de combustível em comparação com bases situadas em latitudes mais altas, o que significa levar mais carga ao espaço ou usar foguetes menores. É o mesmo princípio que faz de Alcântara um dos pontos geograficamente mais privilegiados do planeta para missões espaciais.

Como foi que o passado e o futuro passaram a conversar?
Durante décadas, os dois lados de Alcântara viveram de costas um para o outro. O Centro de Lançamento de Alcântara foi inaugurado em 1983 e entrou em operação em 1989, administrado pela Força Aérea Brasileira (FAB), enquanto o centro histórico seguia parado no tempo, a poucos quilômetros de distância. De um lado, as paredes sem telhado de uma cidade do século XIX; do outro, torres de lançamento apontadas para o céu.
Recentemente, porém, essa convivência começou a ser tratada como um valor. O IPHAN e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação criaram um projeto para unir a preservação do patrimônio histórico às atividades do setor espacial, reconhecendo que o contraste entre as ruínas e os foguetes é, em si, uma riqueza única no Brasil. O município ainda abriga mais de uma centena de comunidades quilombolas, somando uma terceira camada de história a esse território improvável.
Uma cidade que habita dois séculos ao mesmo tempo
Alcântara desafia a ideia de que um lugar pertence a uma única época. Nas mesmas poucas dezenas de quilômetros quadrados convivem o Brasil colonial preservado pela decadência, a memória da escravidão gravada no pelourinho de pedra e a tecnologia que lança foguetes aproveitando a rotação do planeta. O passado que ruiu e o futuro que decola compartilham o mesmo chão, separados por alguns minutos de estrada.
Talvez seja essa a lição mais curiosa de Alcântara: que o tempo, numa cidade, nem sempre caminha em linha reta, e que o esquecimento de uma era pode ser exatamente o que permite a chegada de outra.