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Virgínia é insuportável — e esse é o grande triunfo de Theresa Fonseca em A Nobreza do Amor
Em sua primeira grande vilã, atriz acerta no tom entre arrogância, humor e crueldade e consegue fazer de Virgínia uma personagem desagradável, mas difícil de ignorar
A reta final de A Nobreza do Amor permite uma avaliação mais completa do trabalho de Theresa Fonseca como Virgínia. Escalada para viver sua primeira antagonista, a atriz recebeu uma personagem que poderia facilmente cair na caricatura da jovem rica, mimada e ciumenta. O resultado, porém, é mais interessante. Theresa encontrou um tom próprio para a vilã e fez de Virgínia uma das figuras mais reconhecíveis da novela das seis.
Desde a apresentação da personagem, a Globo definiu Virgínia pela vaidade, pelo ciúme e pela incapacidade de aceitar ser contrariada. Filha de uma família poderosa de Barro Preto, ela cresceu acreditando que se casaria com Mirinho (Nicolas Prattes), até a chegada de Alika (Duda Santos) destruir essa certeza. Antes da estreia, a própria Theresa já definia a personagem como alguém “capaz de tudo” e dizia estar explorando um território diferente em sua carreira.
O grande mérito da atriz está justamente em compreender que Virgínia funciona melhor quando não é interpretada apenas como uma vilã ameaçadora. Há arrogância, inveja, preconceito e crueldade, mas existe também uma espécie de falta de noção que frequentemente leva a personagem ao ridículo. Theresa explora essa contradição com expressões, postura corporal e uma segurança que ajudam a transformar os fracassos de Virgínia em parte da diversão.
Essa característica está alinhada à própria construção dramatúrgica de A Nobreza do Amor. Diferentemente de antagonistas que acumulam vitórias durante meses, Virgínia arma, ataca e humilha, mas frequentemente termina frustrada. A crítica especializada já observou que esse mecanismo transforma os tombos dos vilões em uma espécie de recompensa para o telespectador.
É nesse terreno que Theresa Fonseca cresce.
A atriz não tenta tornar Virgínia simpática. Pelo contrário: assume o narcisismo e a arrogância da personagem, mas encontra humor justamente na absoluta convicção que ela demonstra mesmo quando está passando vergonha. A própria Theresa explicou que percebeu durante o trabalho que esse humor deveria surgir naturalmente das situações, e não da tentativa deliberada de transformar Virgínia em uma personagem cômica.
A escolha é acertada. Se Theresa carregasse demais nas expressões ou buscasse a comicidade o tempo inteiro, Virgínia poderia virar uma caricatura. Se adotasse apenas um registro dramático, provavelmente perderia parte do charme novelesco da personagem. O equilíbrio entre os dois extremos é o que torna sua atuação interessante.
Os embates com Alika também ajudam a revelar essa evolução. Em uma análise publicada durante a novela, o crítico Sérgio Santos destacou Theresa Fonseca e Duda Santos como uma das duplas fortes do elenco, avaliando que Theresa consegue tornar Virgínia detestável sem transformá-la em caricatura. É justamente quando as duas personagens são colocadas frente a frente que a atriz encontra alguns de seus melhores momentos.
Isso não significa que Virgínia seja uma personagem sem problemas. Parte de sua trajetória sofreu com a repetição. Durante muitos capítulos, a vilã ficou presa ao mesmo mecanismo: sentir ciúmes de Alika, preparar uma armação, fracassar e partir para outra tentativa. A própria novela passou a receber críticas pelo ritmo arrastado e pela demora no desenvolvimento de conflitos importantes. Na reta final, análises continuaram apontando essa lentidão como um dos problemas da produção.
Esse desgaste pertence mais ao roteiro do que à interpretação. Theresa recebeu inúmeras variações de um conflito semelhante e precisou encontrar maneiras de impedir que Virgínia parecesse exatamente a mesma em todas as cenas. Nem sempre o texto ajudou, mas a atriz conseguiu manter energia na personagem.
A repercussão também mostra uma característica importante: Virgínia provoca o público. Há satisfação quando seus planos fracassam e quando ela começa a enfrentar as consequências de suas escolhas, algo apontado pela cobertura da reta final da novela. Ao mesmo tempo, discussões entre telespectadores também criticaram a repetição de suas armações e compararam sua vilania, considerada mais limitada, à dimensão política e violenta de Jendal (Lázaro Ramos). Ou seja, parte das restrições está na função que o roteiro atribuiu à personagem, e não necessariamente no desempenho de Theresa.
Há ainda um aspecto importante na composição: Theresa não procura justificar moralmente Virgínia. A atriz busca entender de onde surgem suas atitudes, mas permite que a personagem seja desagradável. Para uma intérprete jovem em sua primeira experiência como antagonista, essa disposição é relevante. Em vez de tentar proteger a própria imagem, ela abraça o ridículo, a futilidade, o ciúme e a crueldade da personagem.
O saldo, portanto, é positivo.
A Nobreza do Amor pode ter desperdiçado parte do potencial de Virgínia ao submetê-la durante muito tempo a ciclos semelhantes de vingança contra Alika. Ainda assim, Theresa Fonseca conseguiu fazer mais com o material que recebeu. Sua interpretação ganhou força justamente porque percebeu que a personagem não precisava ser a vilã mais perigosa da história — Jendal ocupa esse espaço —, mas poderia ser uma das mais incômodas, imprevisíveis e divertidas.
Virgínia desperta raiva, provoca risadas, passa vergonha e volta a atacar como se nada tivesse acontecido. É uma personagem que se leva extremamente a sério em situações nas quais o público muitas vezes consegue enxergar o absurdo.
Esse é o maior acerto de Theresa Fonseca: ela não ri de Virgínia. Deixa que Virgínia seja absolutamente séria para que o público decida se sente raiva, indignação ou vontade de rir.
Ao final de A Nobreza do Amor, a vilã pode não entrar para a galeria das antagonistas mais perversas da teledramaturgia, mas representa um passo importante na trajetória de Theresa Fonseca. A atriz mostra versatilidade, presença e, sobretudo, disposição para assumir personagens menos confortáveis. Se Virgínia tinha a missão de ser odiada, Theresa conseguiu algo ainda mais valioso para uma novela: fazer com que fosse difícil ignorá-la.
O texto Virgínia é insuportável — e esse é o grande triunfo de Theresa Fonseca em A Nobreza do Amor foi publicado primeiro no Observatório da TV.