Mundo Corporativo
Animação goiana mira circulação em festivais
Longa infantil “Zé Pano e o Sopro da Vida” é finalizado e se prepara para apresentação à Secult Goiás e circulação em festivais nacionais e internacionais
Destinada ao público infantil e familiar, a animação “Zé Pano e o Sopro da Vida” aposta em uma narrativa sem diálogos para contar a história de Trapolândia, um mundo invisível aos humanos, localizado dentro da gaveta de uma costureira. Nesse universo, bonecos de pano, tecidos, botões, agulhas e carretéis ganham vida e reproduzem, em escala lúdica, conflitos ligados à convivência, à diferença, à solidariedade e à ambição. Finalizado neste primeiro semestre de 2026, a equipe do longa-metragem se prepara agora para cumprir as próximas etapas de circulação pública. Inicialmente, o resultado será apresentado à Secretaria de Estado da Cultura de Goiás, e a obra deverá seguir para exibição em festivais nacionais e internacionais.
O enredo acompanha Zé Pano, um boneco humilde que, após enfrentar a pobreza nas ruas e a perda da mãe, inicia uma jornada na grande fábrica de roupas de Trapolândia. O conflito se intensifica quando ele descobre que Ganâncio, o implacável magnata da moda, constrói seu império de luxo e glamour explorando secretamente o trabalho infantil de bonecos vulneráveis, incluindo seus amigos Goret e Palhoça. Essa dura realidade estrutura a discussão central da obra: a busca por justiça e a preservação dos vínculos humanos em oposição à lógica da ganância desenfreada e do materialismo.
Segundo Iuri Araújo, diretor de animação, a obra nasceu de um universo visual lúdico, mas carrega uma camada crítica sobre relações sociais contemporâneas. “A gente criou o universo dentro de uma gaveta, de uma costureira, então os bonecos são todos de retalhos; restos de tecido sem muita importância”, observou. Ele acrescentou que o longa também trata “do excesso de trabalho e de muita materialidade no mundo de hoje”, em uma abordagem voltada à reflexão sobre consumo, rotina e perda de sentido.
Guilherme Araújo, diretor de arte, afirma que a proposta busca dialogar com crianças e adultos em diferentes níveis de compreensão. “As crianças vão entender a parte lúdica, vão ter ensinamentos interessantes para elas, e os adultos também vão entender, mas com uma nova camada, com um novo olhar”, disse. O diretor reforça ainda que as referências estão ligadas ao cinema mudo e à animação poética, com destaque para narrativas que dispensam diálogos e privilegiam a leitura visual das emoções e dos conflitos.
Expressões e ritmo
A escolha por uma animação sem linguagem verbal é um dos elementos que diferenciam o projeto. A comunicação da história depende de expressões faciais, gestos, ritmo, trilha sonora, efeitos sonoros e composição visual. O desafio técnico dessa opção aparece no processo de animação. De acordo com Iuri Araújo, a ausência de falas exigiu atenção especial à movimentação dos personagens. “A gente tem que trabalhar muito expressão corporal e facial”, afirmou. Segundo ele, a equipe buscou transmitir ações, intenções e emoções de forma visual, com movimentos corporais capazes de indicar ao espectador o que cada personagem deseja comunicar.
Guilherme Araújo também destaca que a personalidade dos personagens orienta a construção gestual da obra. “Cada personagem tem uma personalidade diferente, única”, revelou. “Se é um personagem mais tímido, ele vai ter uma expressão, uma movimentação mais comedida, mais retraída. Enquanto o outro, que é mais expansivo, vai ter gestos mais rápidos, mais frequentes”.
A trilha sonora original também ocupa papel central na narrativa, já que o filme não utiliza diálogos. Segundo o compositor musical André Luiz Machado, que faz parte do time de produção da animação, a música ajuda a conduzir a compreensão dramática da obra. “Em uma animação sem diálogos, a música não acompanha apenas a imagem; ela ajuda a narrar. A trilha precisa traduzir intenção, emoção e movimento, funcionando como uma ponte entre o universo visual de Trapolândia e a percepção do público”, enfatizou.
Novo cenário em Goiás
O processo de produção é apontado pela equipe como um passo relevante para o cinema em Goiás, especialmente pela complexidade envolvida na realização de um longa-metragem. “A realização de um filme assim exige maior complexidade narrativa, planejamento técnico e articulação de etapas de finalização, som, imagem, distribuição e circulação”, ressaltou o diretor de animação.
Segundo Guilherme Araújo, o setor audiovisual goiano passa por um processo de amadurecimento. “A gente está percebendo que está começando a ter esses movimentos mais profissionais e consistentes em relação à questão de produção”, pontuou. O projeto foi realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, do Governo Federal, operacionalizada pelo Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Estado da Cultura.