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Cibersegurança entra no cálculo de margem das empresas

Furto de energia, perdas de água, roubo de carga e falsificação de produtos somaram bilhões de reais no Brasil em 2025, segundo dados oficiais e setoriais; especialistas apontam plataforma, credenciais e medidores conectados como portas de entrada dessas fugas de receita

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Entre 2025 e o início de 2026, levantamentos da ANEEL, do Ministério das Cidades, da NTC&Logística e da ABCF trouxeram de volta ao centro do debate corporativo as perdas operacionais e comerciais que passam por sistemas digitais. Os estudos mostram que fraudes em medição, desvios logísticos e o mercado ilegal drenam bilhões de reais por ano das cadeias de suprimentos. O problema é que esses prejuízos acabam endo registrados nos balanços sob rubricas como avaria, ruptura de estoque, sinistro ou inadimplência, sem que a origem digital seja identificada.

No setor elétrico, as chamadas perdas não técnicas, que incluem ligações clandestinas, adulteração de medidores e fraudes de faturamento, somaram 45 TWh em 2025, o equivalente a 7,1% de toda a energia injetada nas redes de distribuição, com custo estimado em R$ 11,5 bilhões, conforme dados da ANEEL divulgados em 2026 e acompanhados pela Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (ABRADEE). Parte desse valor não pôde ser repassada às tarifas e foi absorvida pelas próprias distribuidoras.

Já no setor de saneamento, o Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), divulgado pelo Ministério das Cidades em dezembro de 2025, aponta que 39,5% da água potável produzida no país é perdida antes de chegar ao consumidor. O índice reúne perdas físicas, como as causadas por vazamentos, e perdas aparentes, associadas a hidrômetros defeituosos, submedição, fraudes e ligações clandestinas. A Portaria 788/2024 estabelece teto de 30% de perdas entre 2026 e 2032 e de 25% a partir de 2033 para acesso a recursos federais.

Em logística, o Brasil registrou 8.570 casos de roubo de carga em 2025, queda de 16,7% em relação a 2024, segundo balanço da NTC&Logística. O prejuízo direto foi estimado em R$ 900 milhões e pode superar R$ 1 bilhão quando são considerados seguros, escoltas e interrupções operacionais. A entidade indica que as quadrilhas passaram a atuar de forma mais seletiva, com foco em carga fracionada impulsionada pelo comércio eletrônico, alimentos, medicamentos e cigarros.

E, por fim, as perdas relacionadas à falsificação, ao contrabando e ao mercado ilegal alcançaram R$ 514 bilhões em 2025, alta de cerca de 8% sobre o ano anterior, de acordo com a ABCF, considerando o faturamento não realizado pela indústria formal e a arrecadação tributária não recolhida. Vestuário, bebidas, combustíveis, cosméticos e cigarros estão entre os segmentos mais atingidos.

Para especialistas em segurança digital, o traço comum entre esses números é a fronteira entre tecnologia da informação (TI) e tecnologia operacional (OT), historicamente administrada em silos pelas empresas. Um roubo de carga pode começar com o comprometimento de uma credencial de roteirização; perdas de faturamento em energia e água podem envolver a manipulação de medidores conectados; fornecedores fictícios podem surgir de alterações cadastrais em sistemas de gestão; e produtos falsificados são frequentemente distribuídos por marketplaces e domínios falsos.

“Quando a segurança de TI olha apenas para alertas de rede e a segurança de OT se limita à disponibilidade da planta, ninguém observa o evento econômico que atravessa os dois ambientes”, afirma Afonso Coelho, Head da IndraMind Cybersecurity no Brasil. Segundo ele, as perdas prosperam exatamente nessa lacuna de visão e de responsabilidade, porque não há um único gestor com visibilidade sobre o fenômeno completo.

O executivo defende a evolução dos centros de operações de segurança (SOC) tradicionais em centros de fusão, capazes de correlacionar sinais de cibersegurança com dados de ERP, sistemas de gestão de armazém e transporte, comércio eletrônico, gestão de identidade, ambientes industriais e inteligência de ameaças externas. Esse cruzamento, de acordo com ele, permite identificar padrões que nenhum sistema isolado detecta, como pedidos fracionados suspeitos, contas de clientes comprometidas, desvios de rota atípicos, medidores adulterados ou sites que comercializam produtos falsificados.

Na avaliação do especialista, três fatores explicam por que esse valor ainda não é capturado pelas empresas. O primeiro é a fragmentação das perdas no organograma, com responsáveis distintos para cada tipo de desvio. O segundo é a linguagem excessivamente técnica adotada na área. “Enquanto a cibersegurança for apresentada em linguagem de vulnerabilidades, e não de reais perdidos, ela dificilmente disputará a atenção da diretoria executiva”, diz. O terceiro é a ausência de correlação: os dados existem, mas permanecem dispersos entre áreas.

A recomendação apresentada não envolve novas aquisições tecnológicas, mas a construção de casos de uso a partir das dores do negócio, integrando as operações, supply chain, finanças e prevenção de perdas junto à área de segurança da informação. O objetivo, segundo Coelho, é mapear qual parcela das perdas operacionais, logísticas, financeiras e comerciais tem origem digital e e identificar quais delas poderiam ser evitadas com tecnologias já disponíveis e maduras no mercado.

Website: http://www.indramind.com