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Uso de substâncias para emagrecimento exige cautela

Medicamentos para obesidade avançaram nos últimos anos, mas venda irregular de canetas emagrecedoras, peptídeos e substâncias sem registro sanitário acende alerta sobre segurança e procedência.

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Caneta injetável e seringa em imagem ilustrativa sobre medicamentos

A busca pelo emagrecimento vai além da estética. Para muitas pessoas, a perda de peso está relacionada à melhora da autoestima, da disposição e da qualidade de vida após anos convivendo com a obesidade e suas complicações. Nos últimos anos, medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1 e GIP passaram a ocupar papel importante no tratamento da obesidade e de alterações metabólicas. Estudos apontam redução significativa do peso corporal, melhora do controle glicêmico e impacto positivo em marcadores cardiometabólicos.

Ao mesmo tempo em que a medicina metabólica avança, cresce também a divulgação de produtos vendidos de forma irregular, especialmente pela internet e pelas redes sociais. O Programa de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon) já alertou consumidores sobre anúncios de “canetas emagrecedoras” com promessas de emagrecimento rápido, fácil e sem riscos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também informou que os medicamentos agonistas de GLP-1 aprovados no Brasil dependem de prescrição médica com retenção de receita e que produtos sem registro sanitário não tiveram qualidade, eficácia e segurança avaliadas pela agência.

Entre os produtos divulgados de forma irregular estão as chamadas “canetas paraguaias”, peptídeos sem registro sanitário e apresentações comercializadas como retatrutida. A retatrutida é uma molécula ainda investigacional, que atua em receptores de GIP, GLP-1 e glucagon. Em estudo de fase 2 publicado no New England Journal of Medicine, a substância apresentou redução média de peso de até 17,5% em 24 semanas e até 24,2% em 48 semanas. Em comunicado oficial, a farmacêutica Lilly informou que a molécula seguirá para estudos de fase 3, etapa necessária antes de uma eventual aprovação regulatória em larga escala.

Segundo o médico nutrólogo Darwin Ribeiro, uma das principais preocupações atuais é a associação automática entre perda de peso e melhora global da saúde. “A redução ponderal pode contribuir para melhora da glicemia, da pressão arterial, da resistência insulínica e de outros marcadores clínicos. Mas esses benefícios não eliminam a necessidade de avaliação de segurança”, afirma.

O especialista destaca que, em tratamentos farmacológicos, também precisam ser considerados fatores como origem do produto, dose real administrada, esterilidade, rastreabilidade, eventos adversos e possíveis efeitos ainda desconhecidos em longo prazo.

A história da medicina reúne exemplos de medicamentos inicialmente considerados promissores que posteriormente passaram por revisões de segurança. Uma revisão sistemática publicada na revista BMC Medicine identificou 462 produtos medicinais retirados do mercado entre 1953 e 2013 devido a reações adversas, sendo a hepatotoxicidade o motivo mais frequente. Para Darwin Ribeiro, os dados reforçam que a avaliação de segurança não termina no momento da aprovação regulatória e que o acompanhamento pós-comercialização é parte essencial da farmacovigilância.

“Mesmo medicamentos aprovados podem ter efeitos identificados apenas após uso em larga escala. Quando falamos de substâncias sem registro sanitário, falsificadas ou ainda em investigação clínica, as incertezas aumentam ainda mais”, explica o nutrólogo.

Segundo o especialista, medicamentos regularizados passam por controle sanitário, rastreabilidade e monitoramento contínuo de eventos adversos. Já produtos sem avaliação formal ampliam dúvidas sobre composição, dose real, esterilidade e possíveis efeitos tardios.

Entre os exemplos conhecidos está a lorcaserina, medicamento indicado para controle crônico do peso e retirado do mercado norte-americano após solicitação do FDA, em 2020. Um estudo de segurança identificou maior ocorrência de câncer entre pacientes que utilizaram a substância em comparação ao grupo placebo. Outro precedente citado na literatura médica envolve a fenfluramina, utilizada no tratamento da obesidade e posteriormente associada a preocupações relacionadas à doença valvar cardíaca.

Além das dúvidas sobre as moléculas, autoridades sanitárias também têm demonstrado preocupação com produtos falsificados ou sem controle adequado. Em 2026, a Anvisa determinou a apreensão de lotes falsificados de Mounjaro e Mounjaro KwikPen após identificar unidades com características diferentes das originais, incluindo divergências em número de série, embalagem e leitura do código 2D.

Para Darwin Ribeiro, em medicamentos injetáveis, a procedência pode ser tão importante quanto o próprio efeito farmacológico esperado. “O problema não está no avanço da medicina metabólica, mas na banalização de tratamentos complexos em um mercado irregular”, avalia.

O especialista ressalta que medicamentos para obesidade podem ter papel relevante quando indicados de forma adequada, acompanhados por avaliação médica e adquiridos por vias regularizadas. “O risco aumenta quando a promessa de emagrecimento rápido substitui a análise individual, a prescrição formal, o controle sanitário e o acompanhamento dos possíveis efeitos adversos”, conclui.

Website: https://www.darwinribeiro.com.br/