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China sobe o tom e adverte os EUA sobre bloqueio naval contra o Irã

Porta-voz do governo de Xi Jinping classifica bloqueio do Estreito de Ormuz como "irresponsável e perigoso" e defende cessar-fogo abrangente na guerra contra o Irã. Especialistas avaliam postura de Pequim em relação ao conflito

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Ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi. Foto: Reprodução/ NHK World-Japan

Dois dias depois de os Estados Unidos anunciarem o bloqueio a todos os portos iranianos e ao Estreito de Ormuz — canal marítimo por onde passam 20% do petróleo produzido no mundo —, a China elevou o tom contra a medida. O ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, advertiu que a interrupção da navegação no estreito não é do interesse comum da comunidade internacional. O chefe da diplomacia de Pequim também cobrou de Estados Unidos, Israel e Irã um “cessar-fogo abrangente e duradouro.

Por sua vez, o porta-voz da chancelaria de Pequim, Guo Jiakun, classificou o bloqueio americano de “irresponsável e perigoso” e alertou que a manobra “minaria o frágil acordo de cessar-fogo”, além de expor ao perigo a segurança das embarcações. “A China acredita que somente alcançando um cessar-fogo abrangente e pondo fim à guerra poderemos criar, fundamentalmente, as condições para aliviar a situação no estreito”, reforçou Guo. O jornal The New York Post divulgou que o presidente americano, Donald Trump, não descarta abrir nova rodada de negociações com Teerã em Islamabad. 

O titular da Casa Branca sinalizou que as próximas conversas devem começar ainda esta semana. “Eles deveriam ficar lá, realmente, porque algo pode acontecer nos próximos dois dias e estamos mais inclinados a ir para lá”, revelou Trump em entrevista telefônica a um jornalista de Islamabad, capital do Paquistão. Nesta terça-feira (14/4), três embarcações que partiram de portos no Irã atravessaram o Estreito de Ormuz sem serem ameaçadas. 

O graneleiro com bandeira liberiana Christianna cruzou o estreito após descarregar milho no porto iraniano de Bandar Imam Khomeini, na segunda-feira (13/4), por volta das 13h (horário de Brasília). Um segundo navio, o petroleiro Elpis, com bandeira de Comores, faz a travessia no mesmo horário. O Comando Central dos EUA (Centcom) relatou ter proibido que seis barcos deixassem os portos iranianos nas primeiras 24 horas de bloqueio.

Aviso

Especialista do Stimson Center (em Washington) e uma das mais renomadas estudiosas sobre a política da China para o Oriente Médio, Yun Sun disse ao Correio que este não é o primeiro aviso claro de Xi Jinping contra a guerra. “Pequim critica o conflito desde o início e condenou o assassinato do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo iraniano. A comunicação diplomática ainda está longe de provocar ações concretas para contrariar o bloqueio naval imposto pelos EUA ao Estreito de Ormuz”, avaliou a chinesa. 

Yun não vê a possibilidade de um envolvimento direto da China na guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. Segundo ela, a China se mantém em uma posição relativamente confortável em termos de segurança energética, graças à sua elevada autossuficiência. “Ela desempenhou um papel indireto e invisível nas negociações diplomáticas. Por isso, acho que seu envolvimento no conflito será, provavelmente, indireto. Uma intervenção militar é quase, senão totalmente, impossível”, concluiu. 

Para John Calabrese, analista do Middle East Institute (MEI) e professor da American University (em Washington), a declaração de Guo Jiakun deve ser vista como significativa, porém, calibrada. “Ela é mais forte do que as mensagens chinesas anteriores, mas ainda representa apenas uma escalada modesta no tom”, admitiu ao Correio. “O que se destaca não é apenas a formulação, mas o alvo: Pequim agora está caracterizando explicitamente uma ação militar central dos EUA (ou seja, um bloqueio naval) como ilegítima e desestabilizadora. Isso marca uma mudança em relação à sua tendência anterior de usar apelos mais genéricos por ‘contenção’ ou ‘desescalada’ assim que os combates começavam.”

Calabrese acredita que o envolvimento da China no conflito permanece limitado e indireto. “Embora tenha incentivos para se manter engajada — protegendo os fluxos de energia, mantendo o acesso ao petróleo iraniano com desconto (inclusive por meio de canais de frotas paralelas) e respondendo à pressão discreta de parceiros do Golfo, como os Emirados Árabes Unidos —, ela segue firmemente limitada por sua doutrina de não intervenção de longa data e por seu desejo de evitar se tornar um ator de segurança no Oriente Médio”, analisou. 

Diretora do Programa Indo-Pacífico do German Marshall Fund (GMF) dos EUA, Bonnie Glaser disse ao Correio que a China demonstra preocupação com a guerra. “Pequim tem defendido, de forma reiterada, que o Estreito de Ormuz permaneça aberto à navegação. Xi Jinping (presidente) provavelmente não quer receber Trump enquanto os EUA bloquearem a passagem de navios, incluindo os petroleiros chineses.”

Racha entre aliados

A guerra de Israel e EUA contra o Irã provocou um racha entre aliados da extrema-direita. Trump acusou a premiê da Itália de falta de coragem para ajudar Washington no conflito. “Fiquei surpreso. Achei que ela tinha coragem, mas me enganei”, disse Trump ao jornal Corriere della Sera. Na segunda-feira, Meloni — que era considerada peça-chave no diálogo da Casa Branca com a Europa — classificou como “inaceitáveis” as críticas do republicano ao papa Leão XIV. Meloni considerou que “é justo e normal que (Leão) peça a paz”. 

O presidente americano declarou ao Corriere que Meloni quem é “inaceitável”, alegando que não se importa que o Irã tenha uma arma nuclear. “O Irã explodiria a Itália em dois minutos se tivesse chance”, disse Trump. A chefe de governo da Itália também demonstrou distanciamento em relação a Benjamin Netanyahu, premiê de Israel. Roma anunciou  a suspensão do acordo de defesa entre seu país e o Estado judeu. O pacto prevê o intercâmbio de equipamentos militares e pesquisa tecnológica. “Diante da situação atual, o governo decidiu suspender a renovação automática do acordo de defesa com Israel”, afirmou Meloni.