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Em 1931, fazendeiros abandonaram 4 mil ovelhas em uma ilha da Nova Zelândia e, décadas depois, a evolução do rebanho surpreendeu cientistas
As ovelhas deixadas na Ilha Campbell em 1931 passaram décadas sobrevivendo sem tosquia, alimentação suplementar ou manejo humano
Quando a criação de ovelhas deixou de ser economicamente viável na remota Ilha Campbell, ao sul da Nova Zelândia, os últimos trabalhadores foram embora em 1931 e deixaram para trás aproximadamente 4 mil animais. Sem tosquia, alimentação suplementar ou manejo humano, o rebanho passou a enfrentar sozinho frio, vento, doenças e escassez de alimento. Décadas depois, os sobreviventes apresentavam características que chamaram a atenção dos cientistas, incluindo capacidade de perder parte da lã naturalmente e reprodução em idade mais jovem.
Por que 4 mil ovelhas foram abandonadas na Ilha Campbell?
A criação comercial havia começado na ilha em 1895. Ao longo das décadas seguintes, milhares de ovelhas foram mantidas para produção de lã, apesar das condições difíceis de um território subantártico localizado a cerca de 600 quilômetros ao sul da Nova Zelândia. Em determinados períodos, o rebanho ultrapassou 8 mil animais.
A combinação entre problemas de transporte, queda da rentabilidade e os efeitos econômicos da Grande Depressão tornou a atividade inviável. Em 1931, a fazenda foi definitivamente abandonada. Cerca de 4 mil ovelhas e algumas dezenas de bovinos permaneceram na ilha sem os cuidados que haviam recebido anteriormente.
O que aconteceu quando os animais ficaram completamente sozinhos?
O número de ovelhas inicialmente caiu de maneira acentuada. Além do clima frio, úmido e extremamente ventoso, a vegetação já havia sofrido décadas de queima e pastoreio intenso. Em 1961, a população havia diminuído para aproximadamente mil indivíduos.
Sobreviver naquele ambiente passou a favorecer animais capazes de lidar melhor com as novas condições. Entre as mudanças observadas posteriormente estavam:
- Maior capacidade de perder parte da lã sem depender da tosquia;
- Reprodução das fêmeas já a partir de aproximadamente um ano de idade;
- Menor quantidade de lã em comparação com algumas raças domésticas;
- Características associadas a maior resistência em condições adversas;
- Aumento da quantidade de cordeiros em relação ao período da criação comercial.

Por que perder a própria lã se tornou uma vantagem?
Uma ovelha criada para produção comercial de lã normalmente depende do manejo humano para a tosquia. Em Campbell Island, porém, ninguém voltou todos os anos para retirar o velo dos animais. Carregar sucessivas camadas de lã podia representar uma desvantagem em um ambiente úmido e difícil.
Pesquisadores observaram que muitos animais passaram a perder partes do pelo naturalmente. Estudos posteriores indicam que a lã podia enfraquecer em determinados pontos e se desprender quando as ovelhas atravessavam a vegetação. Com o passar das gerações, características úteis para uma vida independente do manejo humano tornaram-se particularmente interessantes para os cientistas.
Foi apenas a evolução que permitiu a recuperação do rebanho?
Não. A história é mais complexa. Depois de chegar a aproximadamente mil animais em 1961, a população voltou a crescer e alcançou cerca de 3 mil no final daquela década. A seleção natural contribuiu para mudanças no rebanho, mas pesquisadores também relacionaram a recuperação a transformações no próprio ambiente.
Com o fim da fazenda, deixaram de ocorrer queimadas frequentes e a pressão do pastoreio caiu quando o número de ovelhas diminuiu. A vegetação começou a se recuperar. Um período de temperaturas mais favoráveis também ampliou alimento e abrigo disponíveis. Portanto, diferentes fatores atuaram em conjunto:
- Recuperação de parte da vegetação após o abandono da fazenda;
- Redução da competição por alimento quando o rebanho diminuiu;
- Condições climáticas mais favoráveis em determinados períodos;
- Maturidade reprodutiva mais precoce em parte das fêmeas;
- Seleção de características adequadas à sobrevivência sem manejo.

Por que cientistas salvaram algumas ovelhas se elas prejudicavam a ilha?
Enquanto os animais despertavam interesse por suas adaptações, sua presença representava um problema para o ecossistema. O pastoreio prejudicava plantas nativas e alterava habitats de uma ilha reconhecida por sua flora e fauna subantárticas. Em 1970, uma cerca dividiu Campbell Island e as ovelhas de uma das áreas foram removidas. A vegetação começou a se regenerar rapidamente onde o pastoreio havia terminado.
Ao mesmo tempo, pesquisadores não queriam perder completamente as características desenvolvidas pelo rebanho isolado. No verão de 1975 para 1976, foram selecionadas dez ovelhas, sete fêmeas e três machos, que foram levadas para a Nova Zelândia e mantidas para reprodução. Entre as características de interesse estavam a perda natural da lã, maturidade precoce e possível resistência a algumas doenças.
Como terminou uma experiência natural que começou por acidente?
A prioridade em Campbell Island acabou sendo a restauração do ecossistema. A retirada das ovelhas ocorreu em etapas a partir de 1970, avançou novamente em 1984 e foi concluída no início da década de 1990. Sem a pressão constante do rebanho, diferentes espécies vegetais conseguiram ocupar novamente áreas antes intensamente pastadas.
O episódio deixou um exemplo incomum de como animais domésticos podem mudar quando deixam de depender completamente das pessoas. As 4 mil ovelhas abandonadas em 1931 não simplesmente continuaram vivendo como um rebanho de fazenda. Durante décadas, mortalidade, clima, disponibilidade de alimento e reprodução selecionaram indivíduos mais adequados àquele ambiente. Ao mesmo tempo, sua própria sobrevivência alterava a ilha, criando um paradoxo: os animais haviam se tornado cientificamente interessantes justamente quando sua retirada era necessária para permitir que o ecossistema nativo também se recuperasse.