Mundo
Em 1971, águas residuais agrícolas começaram a ser despejadas em um refúgio de aves na Califórnia e, anos depois, 64% dos filhotes e embriões apresentaram deformações graves
Água de áreas agrícolas chegou a refúgio de aves e estudo registrou 64% de deformações e mortes entre embriões e filhotes
O refúgio de aves de Kesterson, na Califórnia, tornou-se cenário de um desastre ambiental associado à água que saía de áreas agrícolas irrigadas. O selênio transportado até os lagos entrou na cadeia alimentar e comprometeu a reprodução das aves aquáticas. Em 1983, pesquisadores registraram um índice de 64% de deformações e mortes entre embriões e filhotes avaliados.
Como a drenagem agrícola chegou ao refúgio de aves?
O reservatório de Kesterson foi concluído em 1971 como parte de um sistema de drenagem no vale de San Joaquin. Seus lagos também ofereciam habitat para aves. Com a interrupção da construção do canal San Luis Drain, o local passou a funcionar como destino das águas transportadas pelo trecho existente.
A cronologia exige cuidado: 1971 marca a conclusão do reservatório, não o início comprovado do despejo de água altamente contaminada. A entrada de drenagem agrícola subterrânea começou em 1978. Em 1981, a água que chegava ao reservatório já era composta inteiramente por drenagem salina, alterando as condições daquele ambiente.
Por que o selênio presente no solo contaminou os lagos?
O contaminante tinha origem geológica. A irrigação mobilizou compostos presentes nos solos e os levou pelo sistema de drenagem. Nos lagos, a evaporação e os processos biológicos favoreceram sua concentração e incorporação pelos organismos. O percurso pode ser entendido em quatro etapas:
- A água de irrigação atravessava solos com compostos de selênio;
- A drenagem transportava parte desses compostos para o reservatório;
- Organismos aquáticos incorporavam o elemento, que entrava na cadeia alimentar;
- As aves consumiam alimentos contaminados e acumulavam selênio nos tecidos.

O que o índice de 64% realmente representa?
O estudo “The Kesterson effect”, registrado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos, descreve uma taxa de 64% de deformações e mortes em embriões e filhotes de aves aquáticas em 1983. Portanto, o percentual reúne dois desfechos. Não significa que 64% de todas as aves do refúgio nasceram com deformações graves.
A distinção ajuda a compreender o desastre. A contaminação prejudicava tanto o desenvolvimento quanto a sobrevivência nas fases iniciais da vida. A presença de aves adultas nos lagos, por si só, não demonstrava que o habitat permitia uma reprodução saudável. Era necessário examinar ovos, filhotes e a exposição ao contaminante.
Como os pesquisadores investigaram a exposição das aves?
Uma pesquisa realizada nas temporadas reprodutivas de 1983 a 1985 comparou aves de Kesterson com animais de áreas de referência na Califórnia. As análises relacionaram a contaminação dos tecidos à alimentação e ao tempo de permanência no local. Entre os resultados e critérios de investigação estavam:
- A medição de selênio em órgãos e tecidos, incluindo fígado, rins e músculos;
- A comparação com aves de locais onde os níveis na cadeia alimentar eram considerados normais;
- A identificação de diferenças maiores em espécies residentes ou que se alimentavam mais frequentemente no reservatório;
- A avaliação de filhotes criados no local como indicadores da exposição naquele ambiente.

O que foi feito para reduzir os danos ambientais?
Uma ordem de 1985 determinou medidas de limpeza e controle. Em 1988, partes do reservatório foram preenchidas com aproximadamente 764,5 mil metros cúbicos de solo, transformando ambientes aquáticos em terrestres. O monitoramento intensivo começou em 1989 e continuou, com ajustes, até 2014. Segundo uma revisão científica, o enfrentamento da contaminação exigiu mais de 20 anos.
A recuperação dependeu de acompanhar o contaminante no ambiente
Os resultados de 2013 e 2014 indicaram concentrações relativamente estáveis e baixo risco para a fauna, conforme o estudo publicado em 2020. Esse acompanhamento permitiu avaliar as intervenções e ajustar o manejo. A redução do risco foi verificada por monitoramento, com análises que iam além da aparência dos antigos lagos.
A história do refúgio de aves de Kesterson mostra por que a destinação da drenagem precisa considerar solo, água, sedimentos e alimentação dos animais. Um composto mobilizado nas lavouras alcançou organismos aquáticos e afetou a reprodução das aves. Proteger esse habitat exigiu acompanhar todo o percurso da contaminação, desde sua entrada até seus efeitos na fauna.