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Estados Unidos podem aliviar sanções unilaterais impostas ao Irã

Com a disparada nas cotações internacionais do petróleo e do gás, Washington considera a opção de facilitar as exportações iranianas

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Donald Trump (Foto: Reprodução)

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, admitiu que avalia a opção de aliviar as restrições impostas unilateralmente às exportações de petróleo do Irã, adotadas originalmente, os últimos anos, como represália à alegada violação do regime islâmico de resoluções que limitam seu programa nuclear — em particular, o enriquecimento de urânio.

A medida foi mencionada em meio à disparada nas cotações do petróleo, do gás e de outros hidrocarbonetos desde o início da guerra no Oriente Médio, em 28 de fevereiro. A instabilidade nos mercados agravou-se com a sucessão de ataques a petroleiros no estratégico Estreito de Ormuz e, ainda mais, com os ataques a importantes campos de gás natural no Irã e no Catar.

Com os preços internacionais do barril de petróleo próximos do patamar de US$ 120, e o gás registrando alta na casa de 35%, Bessent acenou também com a possibilidade de os EUA liberar unilateralmente parte de suas reservas estratégicas, como recurso de alcance imediato para refrear as instabilidades no mercado. O secretário confirmou informações segundo as quais o dispositivo aeronaval norte-americano tem permitido a passagem de petroleiros iranianos que cruzam o estreito em direção ao Mar da Arábia.

Na frente mais diretamente política e militar, coube ao presidente Donald Trump anunciar que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, concordou em não mais atacar o setor energético iraniano, depois dos danos causados ao campo de gás de South Pars, o maior do mundo. A represália de Teerã causou danos de monta à principal instalação de gás natural liquefeito do mundo, localizada no Catar. Trump ressalvou, porém, que caso o Irã volte a bombardear a infraestrutura petrolífera dos vizinhos árabes do Golfo Pérsico — aliados de Washington — as forças dos EUA “vão explodir na totalidade as jazidas de gás de South Pars, com ou sem Israel”.

Além do Catar, Kuwait, Emirados Árabes e Arábia Saudita relataram, nesta quinta-feira (19/3), o lançamento de mísseis iranianos contra alvos em seu território. Reunidos com um grupo de países de maioria islâmica, entre eles, Paquistão e Turquia, eles condenaram os ataques a instalações civis. Pelo lado do Irã, porém, o chanceler Abbas Araghchi ressaltou que “apenas uma fração” do poderio bélico do país foi usado contra o campo de gás catariano. “Se voltarmos a ser atacados, não teremos nenhuma moderação”, ameaçou.

Aliados

O aceno a um alívios nas sanções impostas ao petróleo iraniano, aparentemente contraditória nas condições do conflito, ilustra a preocupação de Washington com o impacto econômico do choque nos mercados de petróleo e derivados, avalia o professor de relações internacionais Gunther Rudzit, da ESPM. Em entrevista ao Correio, o estudioso ressaltou o desconforto imediato causado a importantes aliados dos EUA. “Isso afeta as economias diretamente, os europeus pelo preço do gás e pelo fornecimento do Catar, que agora ficou limitado, e o Japão por importar praticamente todo o petróleo consumido”, analisa.

Mesmo nos EUA, que não dependem diretamente de importações, a economia interna sofre os solavancos dos mercados internacionais. “Portanto, nos três casos, as economias já estão sofrendo rápida e fortemente.” Sintomaticamente, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Holanda e Japão sinalizaram ontem com a disposição de participar de alguma operação destinada a garantir a navegação pelo Estreito de Ormuz, desde que “de modo apropriado”. Nos últimos dias, diante da relutância dos aliados em somar-se ao esforço militar no Golfo, Trump e seu secretário de Defesa, Pete Hegseth, criticaram duramente a “falta de disposição” e a “ingratidão”, em particular dos países que integram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan, aliança liderada pelos EUA). 

Planejamento

Falando à imprensa, o titular da Defesa comentou um relatório segundo o qual o Pentágono teria pedido ao Congresso mais de US$ 200 bilhões em recursos adicionais para custear o conflito. “Esse número pode mudar. Obviamente, precisamos de dinheiro para matar os bandidos”, afirmou. “Temos de garantir o financiamento adequado para o que já foi feito e para o que possamos precisar fazer no futuro.” Hegseth relutou em mencionar um prazo para a conclusão das operações militares, nem quis esclarecer quais seriam os objetivos determinados para declarar vitória e encerrar a guerra. “Não gostaríamos de estabelecer um prazo definitivo. Estamos no caminho certo, e será o presidente quem decidirá quando interromper a operação.”

Os desencontros com os aliados europeus e asiáticos, e mesmo com Israel, somada às indefinições do secretário de Defesa levam o professor Gunther Rudzit a considerar que, “em parte”, Trump parece ter dado início ao conflito sem estratégia e planejamento consolidados. “Fica claro que esperavam que houvesse uma abertura para negociação com o Irã depois da decapitação da liderança iraniana”, analisa. “O método de eliminação das capacidades iranianas em termos de mísseis foi planejado, mas a dimensão dessas capacidades talvez não tenha sido levada em consideração.”

Não perde a piada

Antes de se reunir na Casa Branca com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, o presidente Donald Trump desfilou uma vez mais, em público, sua disposição inesgotável para causar desconforto aos visitantes com observações que os cânones tradicionais da diplomacia não recomendariam. Respondendo à imprensa em uma breve entrevista coletiva conjunta, no Salão Oval, Trump não resistiu a fazer piada com a pergunta de um repórter japonês que questionou por que os Estados Unidos não avisaram os aliados, previamente, sobre o início da guerra com o Irã, em 28 de fevereiro.

O anfitrião mencionou o “fator surpresa”, e não resistiu a invocar o precedente do ataque aéreo japonês à base naval norte-americana de Pearl Harbor, em 7 de dezembro de de 1941, um dos pontos de virada nos rumos da 2ª Guerra Mundial. Foi em resposta a ele que o presidente Franklin Roosevelt declarou guerra ao império japonês e ao eixo formado por Tóquio com a Alemanha nazista e a Itália fascista. “Quem conhece melhor as surpresas que o Japão”, rebateu Trump, diante do desconforto evidente da convidada. “Por que vocês não avisaram sobre Pearl Harbor?”

Trump lidera a guerra, diz Netayahu

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu desmentiu, categoricamente, que Israel tenha “arrastado” os Estados Unidos para a guerra contra o Irã. A alegação consta da carta na qual Joe Kent, diretor Nacional de Contraterrorismo, apresentou ao presidente Donald Trump sua demissão — aceita prontamente, com a referência ao ex-auxiliar como “um bom sujeito, mas frouxo em matéria de segurança”. Kent deixou o governo por discordar do ataque ao regime islâmico, apontado “por altos funcionários israelenses e por jornalistas influentes” como ameaça iminente aos EUA — “uma mentira”, segundo Kent.

“De verdade: alguém acredita que se possa dizer ao presidente Trump o que ele deve fazer?”, perguntou Netanyahu durante entrevista coletiva transmitida pela TV de Israel. “Ele toma suas decisões com base no que julga melhor para os EUA e para as futuras gerações”, reforçou. O premiê elogiou a condução da Casa Branca no conflito e reafirmou a sintonia fina entre os dois governos no conflito. “Não acho que já tenha havido dois líderes tão coordenados quanto o presidente Trump e eu”, afirmou. “Ele é o líder, eu sou seu aliado. Estamos vencendo, e o Irã está sendo dizimado”, sentenciou.

O governante israelense citou como exemplo da “coordenação” com Washington a aceitação do pedido, feito por Trump, para refrear ataques ao setor energético iraniano, como o de quarta-feira ao campo de gás natural de South Pars, o maior do mundo. Reafirmou, porém, que a operação foi conduzida por “só por Israel”, corroborando as declarações iniciais de Trump, que alegou não ter tido conhecimento prévio. Fontes israelenses, citadas pela imprensa norte-americana, contradisseram o presidente e afirmaram que o bombardeio teria sido uma ação conjunta, sem especificar o papel desempenhado por cada um dos países. 

Em um balanço dos resultados ao fim de 20 dias de guerra, Netanyahu resdsaltou que a base industrial militar do Irã estaria sendo “arrasada de uma maneira como nunca tinha sido feito antes”, com repercussões de longo alcance sobre a capacidade bélica do regime islâmico. “O arsenal de mísseis e drones do Irã está sofrendo degradação em massa e será destruído. Centenas de lançadores foram destruídos. Seus estoques de mísseis foram duramente atingidos, e o mesmo acontece com as indústrias que os produzem”, garantiu.

Oportunidade

O premiê listou os objetivos perseguidos por seu governo na ofensiva contra a República Islâmica. “Eliminar sua capacidade de enriquecer urânio e buscar armas nucleares, assim como destruir seus programas de mísseis”, enumerou, referindo-se às duas primeiras metas. A terceira, destacou, seria “dar aos iranianos a oportunidade de tomar o destino do país em suas mãos” — em outras palavras, promover a mudança de regime. “Agora, cabe a eles aproveitar a chance”, concluiu.