Eleições
EUA usaram fundo para tentar influenciar eleição brasileira, diz The Guardian
Verba faz parte de pacote de US$ 176,9 milhões do fundo de direitos humanos dos EUA, segundo o jornal inglês
A eleição presidencial brasileira entrou no centro de uma disputa mais ampla sobre a atuação dos Estados Unidos na América Latina. Nas últimas semanas, o governo de Donald Trump foi acusado de tentar influenciar o cenário político brasileiro por meio de pressão econômica e diplomática, enquanto documentos citados pelo jornal britânico The Guardian mostram que recursos de um fundo americano destinado originalmente à promoção de direitos humanos foram direcionados a projetos alinhados a pautas conservadoras, incluindo uma iniciativa voltada contra decisões do Supremo Tribunal Federal (STF).
O Brasil não é o único país latino-americano citado nas discussões sobre a nova política de Washington. Em carta enviada ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, 31 parlamentares democratas afirmaram que as ações do governo Trump fazem parte de um padrão mais amplo de interferência em processos eleitorais da região. Eles mencionaram, além do Brasil, eleições na Argentina, em Honduras e na Colômbia.
No caso brasileiro, a pressão ganhou diferentes frentes. O governo Trump impôs tarifas de 25% sobre parte das importações brasileiras, medida que Washington relacionou também ao processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. O governo brasileiro, por sua vez, acusou os Estados Unidos de utilizar a política comercial para interferir na eleição. O Departamento de Estado nega que exista uma estratégia para interferir no pleito e classificou a acusação como infundada.
A pressão sobre o Brasil também aparece em documentos relacionados ao orçamento norte-americano. Segundo reportagem publicada pelo The Guardian na quarta-feira (30/9), o governo Trump redirecionou mais de US$ 175 milhões do Fundo de Direitos Humanos e Democracia do Departamento de Estado para projetos ligados a pautas conservadoras e de direita em diferentes países.
Entre as iniciativas está uma verba de US$ 1 milhão para o programa Countering Lawfare and Censorship in Brazil, que prevê financiamento a grupos da sociedade civil que contestam o que classificam como abuso do poder judicial e censura por parte do STF. O documento citado pelo jornal também registra outros projetos voltados a pautas como anticomunismo, oposição à imigração e críticas a políticas de diversidade.
O caso brasileiro aparece, assim, dentro de uma estratégia que ultrapassa a disputa comercial entre Brasília e Washington. O The Guardian comparou as acusações atuais com episódios da Guerra Fria. O jornal relembrou que, antes do golpe militar de 1964, o governo americano apoiou financeiramente grupos e candidatos de oposição ao então presidente João Goulart. Historiadores ouvidos pela publicação apontaram diferenças entre aquela operação, conduzida de maneira clandestina, e as ações atribuídas ao governo Trump, que seriam mais explícitas.
A reportagem também relacionou a atuação norte-americana no Brasil a uma mudança mais ampla na política dos Estados Unidos para o continente. O jornal britânico chamou de “onda laranja” a sequência de vitórias de políticos de direita alinhados a Trump em países latino-americanos e citou Argentina, Chile, Costa Rica e Colômbia. O jornal apresentou o Brasil como um dos principais cenários dessa disputa regional.
O que diz o editorial do Guardian
A discussão sobre a influência norte-americana ganhou outro capítulo na quarta-feira (30/9), quando o The Guardian publicou um editorial específico sobre a eleição brasileira. Diferentemente da reportagem sobre os recursos do Departamento de Estado, o texto representa a posição editorial do jornal e faz avaliações sobre os dois principais candidatos.
Com o título “The Guardian view on Lula v the Bolsonaros: the decision of Brazilian voters will affect us all” — em tradução livre, “A visão do Guardian sobre Lula contra os Bolsonaros: a decisão dos eleitores brasileiros afetará todos nós” —, o editorial apresenta a eleição como uma disputa simultaneamente apertada e marcada por diferenças políticas profundas. O texto descreve a relação entre Lula e Flávio Bolsonaro e também recupera o histórico político do pai do senador, Jair Bolsonaro.
O jornal afirma que Flávio Bolsonaro se apresenta como uma versão menos agressiva do pai, mas mantém a avaliação de que ele pertence à direita radical. Também diz que parte dos eleitores estaria votando mais contra o adversário do que em defesa do próprio candidato. Essas formulações são opiniões do editorial, e não dados de uma pesquisa eleitoral apresentada pelo jornal.
O texto também aborda o escândalo envolvendo o Banco Master e às acusações relacionadas ao empresário Daniel Vorcaro. O editorial menciona uma gravação em que Flávio Bolsonaro teria pedido quase US$ 27 milhões a Vorcaro para a produção de um filme sobre o pai. O senador nega irregularidades.
Outro ponto destacado pelo jornal é a relação entre a eleição e o sistema eleitoral brasileiro. O editorial afirma que a família Bolsonaro passaram anos questionando a confiabilidade das urnas eletrônicas e avalia que uma vitória apertada de Lula no primeiro turno poderia ser contestada. Também menciona propostas atribuídas a Flávio Bolsonaro, como privatizações, redução de gastos e impostos e a indicação de ministros conservadores para o STF.
É nesse ponto que o editorial conecta diretamente a eleição brasileira à política externa de Trump. O Guardian afirma que uma vitória de Flávio Bolsonaro poderia dar mais espaço ao presidente americano e a Marco Rubio para avançar com o que o jornal chama de “doutrina Donroe”, uma referência à Doutrina Monroe e à ideia de uma atuação mais agressiva dos Estados Unidos no hemisfério ocidental.
O jornal também reconhece, no próprio editorial, que a interferência americana pode produzir efeito contrário ao pretendido. Segundo o texto, as tarifas impostas ao Brasil permitiram que Lula se apresentasse como um presidente defendendo o país contra pressões estrangeiras. O Guardian, porém, sustenta que isso não elimina a preocupação com a atuação de Washington.
A última parte do editorial amplia a discussão para além da eleição. O jornal compara uma eventual nova Presidência Bolsonaro com o segundo mandato de Trump e relaciona os dois governos a questões ambientais e de direitos humanos. O texto relembra o aumento do desmatamento e da exploração ilegal de recursos durante o primeiro governo Bolsonaro e afirma que esses indicadores caíram após o retorno de Lula à Presidência. Essas comparações e previsões fazem parte da avaliação editorial do The Guardian.
A preocupação com a atuação americana, entretanto, não aparece apenas no Guardian. A Reuters informou que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) apresentou a representantes da França e da Alemanha informações sobre alegada interferência dos Estados Unidos e da Rússia no processo eleitoral brasileiro. Segundo a reportagem, as autoridades brasileiras descreveram ações americanas que iriam de iniciativas relacionadas a lawfare a medidas consideradas mais diretas. As acusações não foram confirmadas pelo governo americano, que já negou interferência eleitoral.
Em discurso na Assembleia-Geral da ONU, em setembro, Lula também fez referência à possibilidade de interferência estrangeira sem citar diretamente os Estados Unidos. Disse que o Brasil não permitiria que “inimigos da democracia, internos ou externos” atuassem contra a vontade dos eleitores.