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Na década de 1960, arqueólogos encontraram sementes de tamareira com cerca de 2 mil anos numa fortaleza em Israel e, em 2005, uma delas germinou e virou uma palmeira que ainda dá frutos
Semente antiga de Massada germina e ajuda a trazer de volta a tamareira da Judeia
Nos anos 1960, arqueólogos recolheram sementes de tâmara nas ruínas de Massada, fortaleza no deserto da Judeia, em Israel. Quatro décadas depois, uma delas germinou. A palmeira Matusalém virou uma das plantas mais antigas já cultivadas a partir de uma semente e abriu caminho para que tâmaras de uma variedade extinta voltassem a ser colhidas.
Como as sementes foram parar em Massada?
Massada é um platô no alto de um rochedo à beira do Mar Morto, fortificado pelo rei Herodes no século 1 antes de Cristo. Ali, rebeldes judeus resistiram ao cerco romano até 73 ou 74 depois de Cristo, num dos episódios mais conhecidos da história da região.
Entre 1963 e 1965, as escavações lideradas pelo arqueólogo Yigael Yadin encontraram nas ruínas um depósito de sementes de tâmara. O clima extremamente seco ajudou a preservá-las, e o material ficou guardado por cerca de 40 anos na Universidade Bar-Ilan, sem que ninguém tentasse fazê-lo brotar.
O experimento que fez a semente germinar em 2005
Em 2005, a pesquisadora Sarah Sallon, do Hospital Hadassah, em Jerusalém, conseguiu três sementes e as entregou à agrônoma Elaine Solowey, do Instituto Arava, no kibutz Ketura. Ela as deixou de molho em água morna, aplicou um fertilizante rico em hormônios vegetais e fez o plantio. Semanas depois, uma delas brotou. A datação por radiocarbono confirmou idade de cerca de 2 mil anos, e a planta recebeu o nome do personagem bíblico mais longevo.
Por que a tamareira da Judeia era tão valorizada
As tâmaras da antiga Judeia tinham fama em todo o mundo romano. Autores como Plínio, o Velho, e o historiador Flávio Josefo elogiaram seu tamanho e sua doçura, e a planta tinha peso econômico, alimentar e simbólico:
- era uma das principais fontes de riqueza da região, com plantações perto de Jericó e do Mar Morto;
- aparece em moedas antigas, incluindo as cunhadas por Roma após a conquista da Judeia;
- era usada na alimentação, na produção de mel de tâmara e em preparos medicinais;
- figura na tradição judaica entre os sete frutos associados à terra de Israel.
Com guerras, mudanças no clima e o abandono das plantações ao longo dos séculos, a variedade desapareceu. As tamareiras cultivadas hoje em Israel vêm de linhagens trazidas de outros países no século 20.
A palmeira Matusalém dá frutos?
Não diretamente, e esse é um detalhe que muita gente erra. As tamareiras têm sexos separados, e Matusalém é uma planta macho, que produz pólen, mas não tâmaras. Sua contribuição veio de outra forma: o pólen foi usado para polinizar uma palmeira fêmea germinada anos depois a partir de outra semente antiga, permitindo que a tâmara da Judeia voltasse a ser colhida.

Hannah e as novas palmeiras ressuscitadas
Depois do sucesso com Matusalém, a mesma equipe repetiu o processo com sementes de outros sítios arqueológicos. Os resultados saíram em 2020, na revista Science Advances:
- seis novas sementes germinaram, vindas de Massada, Qumran e Wadi Makukh;
- as plantas receberam nomes bíblicos: Adão, Jonas, Uriel, Boaz, Judite e Hannah;
- a datação indicou idades entre cerca de 2.400 e 1.800 anos;
- Hannah, uma fêmea, foi polinizada com o pólen de Matusalém e produziu, em 2021, as primeiras tâmaras da Judeia em séculos.
Uma janela para o passado e para o futuro da agricultura
A história da palmeira mostra que sementes guardadas em ambiente seco podem permanecer viáveis por muito mais tempo do que se imaginava. Para a botânica, isso reforça o valor dos bancos de sementes e das coleções arqueológicas, que podem guardar material genético perdido nas plantações atuais.
Os pesquisadores também estudam se essas palmeiras antigas carregam características úteis, como tolerância à seca e ao calor, que poderiam ajudar a agricultura em regiões áridas. Plantada no kibutz Ketura, Matusalém segue crescendo como uma ponte viva entre a época de Herodes e os laboratórios de hoje.