Mundo
O tanque 100% brasileiro dos anos 80 que quase ninguém sabe que existiu
Protótipo da Bernardini criado nos anos 1980 tinha canhão de 105 mm, perdeu espaço para o Osório da Engesa e hoje está com um colecionador
Pouca gente lembra, mas o Brasil chegou a projetar e montar o próprio tanque de guerra nos anos 1980. O Tamoyo 3, criado pela empresa Bernardini para atender ao Exército Brasileiro, foi a versão mais avançada de uma família de protótipos que nunca entrou em produção em série. A história desse carro de combate mostra como o país, que já exportava blindados, acabou sem um tanque nacional nos quartéis.
Como nasceu o Tamoyo 3 dentro da Bernardini e do Exército?
O Tamoyo nasceu da experiência da Bernardini com o M41, tanque leve de origem americana que o Exército usava desde os anos 1960. Na década de 1980, esses veículos foram repotencializados pela empresa, como registra a página de viaturas blindadas do 6º Regimento de Cavalaria Blindado. A versão modernizada ganhou o nome de M41C Caxias.
O passo seguinte foi um projeto próprio, chamado no início de X-30. O X indicava protótipo, e o número, as cerca de 30 toneladas previstas. O nome definitivo homenageia a Confederação dos Tamoios, aliança de povos indígenas do período colonial que teve o litoral fluminense como palco.
O primeiro protótipo ficou pronto em 1984 e recebeu o nome de Tamoyo I. Depois vieram o Tamoyo II e o Tamoyo III, as três versões que aparecem no histórico de blindados do Centro de Instrução de Blindados do Exército. O desenvolvimento teve apoio do Centro Tecnológico do Exército, o CTEx.

O que o Tamoyo 3 trazia de novo para um blindado nacional?
A grande novidade do Tamoyo 3 era o canhão de 105 milímetros L7, padrão adotado por exércitos da Otan, no lugar da peça de 90 milímetros das primeiras versões. Com essa arma, o projeto deixava de ser um M41 melhorado e passava a disputar espaço com os tanques principais de batalha.
O blindado levava quatro tripulantes, pesava por volta de 31 toneladas e usava um motor a diesel de 736 cavalos. A proposta era manter peças e manutenção próximas das do M41, o que facilitaria a vida das oficinas militares e cabia no orçamento apertado da época.
Por esse perfil, o Tamoyo era classificado como carro de combate médio. Era uma diferença importante em relação ao rival nacional, um tanque bem mais pesado e cheio de sistemas importados.
A memória militar do país também aparece em lugares inesperados, como no nome de cidades. Uma delas, em Santa Catarina, lembra a participação brasileira na Segunda Guerra.
Homenagem: Cidade catarinense leva nome de batalha histórica!➔
Por que o Exército Brasileiro desistiu de produzir o Tamoyo?
O Tamoyo perdeu espaço para um concorrente mais ambicioso: o EE-T1 Osório, da Engesa. Segundo o Centro de Instrução de Blindados, a Engesa foi, nas décadas de 1970, 1980 e 1990, a empresa brasileira de defesa que mais exportou meios blindados. O Osório foi desenvolvido e testado entre 1983 e 1984, de olho num possível contrato com a Arábia Saudita.

Com as atenções voltadas para o Osório, o projeto da Bernardini ficou em segundo plano. A crise econômica, os cortes no orçamento militar e a oferta de blindados usados vindos do exterior completaram o quadro. Nenhum dos dois tanques nacionais chegou a ser fabricado em série para as tropas brasileiras.
O protótipo do Tamoyo 3 sobreviveu e hoje pertence a um colecionador particular. O tema segue vivo nos estudos militares, inclusive em trabalhos da Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, no Sul Fluminense, que analisam a evolução dos carros de combate no Exército.
O que o Tamoyo 3 ensina sobre a defesa nacional?
A principal lição é que um bom projeto não se sustenta sem encomenda firme. Fábricas de tanques precisam de pedidos contínuos para bancar pesquisa, manter engenheiros e baixar o custo de cada unidade. Sem isso, até uma ideia pensada sob medida para o país fica pelo caminho.
O Tamoyo 3 virou relíquia, mas a trajetória dele ajuda a entender os altos e baixos da indústria de defesa brasileira, que viveu o auge com a Engesa e depois encolheu. Se você também curte essas histórias esquecidas do Brasil, chega mais e conta pra gente qual outro projeto nacional merecia sair do esquecimento.
Nem toda história de quartel é sobre guerra e tecnologia. Teve recruta que virou assunto nas redes por um talento bem diferente.
Vídeo: recruta do Exército surpreende com talento inusitado➔