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Os abacates têm uma habilidade bastante surpreendente, que ninguém até agora conseguiu explicar. Agora, os pesquisadores acreditam que resolveram o mistério de 100 anos

Um mistério de 100 anos do abacateiro ganha resposta com a identificação de um gene

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Os abacates têm uma habilidade bastante surpreendente, que ninguém até agora conseguiu explicar. Agora, os pesquisadores acreditam que resolveram o mistério de 100 anos
Pesquisadores identificam o gene por trás de um mistério centenário do abacateiro

O abacateiro esconde um comportamento que intrigou botânicos por quase um século: suas flores alternam entre funções feminina e masculina duas vezes ao dia, em um ritmo tão preciso que parece programado. Agora, uma equipe liderada por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Davis identificou o gene responsável por esse mecanismo, publicando os resultados no periódico científico Proceedings of the National Academy of Sciences. A descoberta resolve um enigma com mais de cem anos e abre caminho para acelerar significativamente o melhoramento genético da fruta mais consumida no mundo como gordura saudável.

Gene antigo explica como o abacateiro alterna o sexo das flores
A identificação do SDMYB resolve um mistério botânico centenário e mostra como a floração alternada do abacateiro favorece a polinização cruzada e pode acelerar novas variedades.
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Flor alternada
A flor abre em fase feminina e masculina em horários diferentes para evitar autofecundação.
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Gene SDMYB
O gene regula abertura floral, liberação de pólen e receptividade ao longo do dia.
Equilíbrio antigo
Duas variantes genéticas se mantiveram por milhões de anos por favorecerem a reprodução.
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Cultivo mais rápido
A análise genética pode indicar o tipo floral da muda antes da primeira floração.
Resumo útil: a descoberta conecta evolução e agricultura: entender o gene da floração ajuda a planejar pomares mais eficientes e acelerar o melhoramento do abacateiro.

O que exatamente o abacateiro faz com suas flores todos os dias?

As flores do abacateiro são hermafroditas, mas nunca exercem as duas funções ao mesmo tempo. Pela manhã, a flor abre em fase feminina, pronta para receber pólen. À tarde, fecha e reabre em fase masculina, liberando seu próprio pólen. No dia seguinte, o ciclo recomeça. Esse comportamento se chama dichogamia sincronizada e existe para evitar que a planta fecunde a si mesma, favorecendo a polinização cruzada entre árvores diferentes.

O que torna o sistema ainda mais sofisticado é que os abacateiros se dividem em dois grupos, o tipo A e o tipo B, com horários opostos. Quando a árvore do tipo A está em fase feminina pela manhã, a do tipo B está em fase masculina, e vice-versa. Essa complementaridade foi descrita pela primeira vez no início do século XX, mas o mecanismo genético por trás dela permaneceu desconhecido até agora.

Qual foi a descoberta que resolveu o mistério?

A equipe de pesquisadores analisou o genoma de 374 mudas de abacateiro, descendentes de um cruzamento entre a variedade tipo A chamada Gem e a variedade tipo B chamada Luna UCR, ambas cultivadas na Universidade da Califórnia em Riverside. Ao comparar o material genético com o comportamento de floração de cada planta, um único ponto do cromossomo 10 se destacou com clareza acima de todos os outros. Dentro dessa região, apenas um gene fazia sentido biológico como responsável pelo fenômeno: o gene SDMYB.

O SDMYB pertence a uma família de proteínas que atuam como reguladores mestres nas flores, controlando quando as pétalas abrem, quando o pólen é liberado e quando a flor está pronta para receber pólen externo. Sua expressão oscila ao longo do dia, o que explica diretamente o ritmo de alternância entre as fases feminina e masculina das flores do abacateiro.

Por que esse gene existe em duas versões tão antigas?

O gene SDMYB apresenta duas variantes, chamadas alelos, que se comportam de forma análoga aos cromossomos sexuais de outros organismos. As árvores do tipo A carregam uma cópia de cada variante. As do tipo B carregam duas cópias da variante recessiva. O que surpreendeu os pesquisadores foi a antiguidade desse arranjo: ao comparar o genoma do abacateiro com o de espécies parentes, a equipe mostrou que as duas versões do SDMYB estão presentes em pelo menos 26 espécies selvagens relacionadas, e que essa variação genética se mantém estável há cerca de 42 milhões de anos, o que a torna um dos equilíbrios genéticos mais antigos já documentados em plantas com flor.

Como esse gene se manteve estável por tanto tempo?

A persistência das duas variantes ao longo de dezenas de milhões de anos não é coincidência. Trata-se de um fenômeno chamado polimorfismo balanceado, em que a seleção natural favorece a manutenção de múltiplas variantes de um gene porque cada uma oferece vantagem em determinado contexto. No caso do abacateiro, nenhuma das duas variantes do SDMYB sobrepõe a outra porque o sistema de polinização cruzada entre tipo A e tipo B depende justamente da coexistência das duas. Uma floresta com apenas árvores do tipo A teria baixíssima taxa de polinização. A natureza manteve o equilíbrio porque ele é funcionalmente necessário.

Os abacates têm uma habilidade bastante surpreendente, que ninguém até agora conseguiu explicar. Agora, os pesquisadores acreditam que resolveram o mistério de 100 anos
Pesquisadores identificam o gene por trás de um mistério centenário do abacateiro

O que essa descoberta muda para o cultivo do abacate?

O impacto prático é considerável. Até agora, os programas de melhoramento genético do abacateiro precisavam esperar anos até que as mudas florescissem para saber se eram do tipo A ou tipo B, informação essencial para montar pomares produtivos com a proporção correta de polinizadores. Com a identificação do gene SDMYB, é possível fazer essa classificação por análise genética simples em mudas jovens, antes mesmo da primeira floração.

Os pesquisadores estimam que esse avanço pode reduzir em anos o tempo necessário para desenvolver novas variedades e selecionar cruzamentos mais produtivos, especialmente para a cultivar Hass, a mais plantada e consumida no mundo.

Uma descoberta que conecta evolução antiga e agricultura moderna

O estudo liderado por Jeffrey Groh e Graham Coop, da UC Davis, com colaboração das universidades da Califórnia em Riverside e Irvine, fecha um ciclo iniciado por botânicos que descreveram o comportamento incomum do abacateiro no início do século XX sem conseguir explicá-lo. A frase de um pesquisador da época, citada no próprio artigo publicado na PNAS, já descrevia a dichogamia sincronizada do abacateiro como uma perfeição de regulação fisiológica sem paralelo no reino vegetal.

A identificação do SDMYB mostra que essa perfeição tem uma base molecular elegante e muitíssimo antiga. Um único gene com duas variantes, mantidas em equilíbrio por dezenas de milhões de anos de seleção natural, coordena o comportamento reprodutivo de uma das frutas mais cultivadas e consumidas do planeta. A biologia raramente oferece respostas tão limpas para mistérios tão duradouros.