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Os tubarões sabem contar e preferem jazz: as descobertas que estão mudando a imagem desses animais

Esses predadores contam, reconhecem padrões e mantêm vínculos duradouros

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Os tubarões sabem contar e preferem jazz: as descobertas que estão mudando a imagem desses animais
A ciência revela habilidades dos tubarões que vão muito além do instinto

Durante décadas, a imagem do tubarão foi construída sobre dois pilares: dentes afiados e instinto puro. A ciência, porém, vem desmontando essa caricatura com resultados que surpreenderam até os próprios pesquisadores. Esses animais conseguem fazer cálculos básicos, reconhecem padrões visuais complexos, formam laços sociais duradouros e, no caso de algumas espécies, demonstram uma preferência clara por jazz. A BBC reuniu algumas das descobertas mais surpreendentes sobre esses predadores, e o retrato que emerge não tem nada de simples.

Os tubarões realmente conseguem contar?

Sim, dentro de certos limites. Experimentos com filhotes de tubarão de bambu cinza mostraram que esses animais conseguem distinguir entre quantidades diferentes, como três e cinco ou quatro e sete. A memória também impressionou os pesquisadores: os filhotes se lembravam de informações sobre formas e ilusões de óptica por quase um ano após o treinamento inicial.

O limite aparece quando as quantidades ficam muito próximas. Diferenciar quatro de cinco, por exemplo, está além da capacidade demonstrada até agora. Mas a habilidade de operar com conceitos numéricos abstratos, mesmo que básicos, contradiz diretamente a ideia de que tubarões são animais guiados exclusivamente pelo olfato e pelo instinto de caça.

Por que o tubarão de Port Jackson prefere jazz à música clássica?

Pesquisadores da Universidade Macquarie, em Sydney, treinaram exemplares do tubarão de Port Jackson para nadar até um ponto específico do tanque quando ouviam música, recebendo alimento como recompensa. O resultado foi revelador: os animais aprenderam a associar o jazz ao local de alimentação com consistência, mas não conseguiram fazer a mesma associação com música clássica.

O pesquisador Culum Brown descreveu o comportamento de forma direta: os tubarões claramente percebiam que deveriam fazer algo quando a música clássica tocava, mas não conseguiam identificar qual ação tomar. A diferença não está necessariamente no gosto estético, mas na forma como os dois estilos musicais organizam som e ritmo, o que afeta a capacidade dos animais de criar associações de aprendizado.

Os tubarões sabem contar e preferem jazz: as descobertas que estão mudando a imagem desses animais
A ciência revela habilidades dos tubarões que vão muito além do instinto

Tubarões têm umbigo e vivem em sociedade?

Algumas espécies, como o tubarão-touro e o tubarão-martelo, carregam os filhotes no útero e os nutrem por cordão umbilical, exatamente como os mamíferos. Esses filhotes nascem com umbigo e a cicatriz persiste por semanas até se fechar completamente. Outros tubarões se reproduzem de formas intermediárias: os ovos eclodem dentro da mãe e os filhotes nascem vivos, mas sem nutrição placentária.

Quanto ao comportamento social, a imagem do predador solitário também não se sustenta. Tubarões de recife cinza foram observados passando até quatro anos com o mesmo grupo de companheiros, se separando e se reagrupando sazonalmente. Dois tubarões-brancos chamados Simon e Jekyll chegaram a percorrer juntos mais de 6.000 km sem nunca se separar, segundo registros de monitoramento.

O que há de mais surpreendente na biologia dos tubarões?

A pele é um dos aspectos mais impressionantes. Em vez de escamas convencionais, ela é coberta por estruturas chamadas dentículos, minúsculos dentes que reduzem a resistência hidrodinâmica e tornam a superfície extremamente abrasiva quando tocada no sentido contrário ao nado. Artesãos italianos do século XVIII usavam essa pele para polir o acabamento de violinos Stradivarius.

Os tubarões também possuem oito sentidos. Além dos cinco básicos, detectam variações de pressão na água, o campo magnético da Terra e, por meio de poros sensoriais chamados linhas laterais, captam vibrações sutis ao redor do corpo. Essa rede sensorial permite que localizem presas pelas batidas do coração e pelo calor corporal, não apenas pelo olfato como se acreditava.

Quão antigos são os tubarões em relação à vida na Terra?

Os ancestrais dos tubarões modernos deixaram registros fósseis datados de 450 milhões de anos atrás. Isso os coloca no planeta cerca de 60 milhões de anos antes do surgimento das primeiras árvores, 220 milhões de anos antes dos dinossauros e 350 milhões de anos antes dos anéis de Saturno. Sobreviveram às cinco grandes extinções em massa da história terrestre, incluindo a extinção Permo-Triássica, que eliminou cerca de 90% da vida marinha.

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A ciência revela habilidades dos tubarões que vão muito além do instinto

O que essa ciência muda na forma de enxergar esses predadores?

A pesquisa acumulada sobre tubarões nos últimos anos não transforma esses animais em criaturas inofensivas, mas desloca completamente o enquadramento pelo qual são percebidos. Inteligência adaptativa, capacidade de aprendizado, vínculos sociais e memória de longo prazo são características que até pouco tempo atrás não entravam na equação quando se falava nesses predadores.

Hoje existem cerca de 500 espécies descritas, número bem abaixo do pico registrado 50 milhões de anos atrás. Novas espécies continuam sendo identificadas, e cada descoberta acrescenta camadas a um grupo de animais que passou centenas de milhões de anos se refinando antes que os seres humanos dessem os primeiros passos na Terra.