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Argentina: pobreza sobe para 32,3% enquanto trabalhadores protestam contra compra de terras por estrangeiros

Paralisação nacional ocorre após decisão da Suprema Corte que abriu caminho para a aplicação da revogação de limites à compra de terras por estrangeiros

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Javier Milei em terno discursa, bandeira da Argentina e parede vermelha ao fundo
Javier Milei, presidente da Argentina, enfrenta queda na aprovação enquanto pobreza e inflação aumentam no país. Créditos: depositphotos.com / [email protected]

A Argentina enfrenta uma alta da pobreza e uma onda de protestos nesta terça-feira (6). Enquanto dados oficiais mostram que 32,3% da população vive em situação de pobreza no primeiro semestre de 2026, trabalhadores públicos iniciaram uma paralisação nacional contra uma decisão da Suprema Corte que abriu caminho para a aplicação da revogação da Lei de Terras Rurais, que estabelecia limites para a compra de propriedades por estrangeiros.

A pesquisa, que abrange 31 aglomerados urbanos da Argentina, indica que 32,3% da população vive em situação de pobreza. O número representa 2,5 milhões de famílias, ou 24,4% do total.

Para definir se um cidadão está abaixo da linha da pobreza, o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) considera a renda familiar e o acesso a necessidades como alimentos, vestuário, transporte, educação e saúde.

Segundo analistas, os avanços sociais impulsionados pela desaceleração da inflação perderam força. Novos progressos dependem cada vez mais da criação de empregos e do crescimento dos salários reais.

O levantamento do Indec também aponta que 2,2 milhões de pessoas estão em situação de indigência, o que equivale a 7,5% da população avaliada. No segundo semestre de 2025, o número era de 1,9 milhão (6,3%).

Entre as famílias, 600 mil foram consideradas indigentes (5,6%) no primeiro semestre de 2026, um aumento em relação às 500 mil (4,8%) dos seis meses anteriores. O Indec considera indigentes as pessoas sem acesso a uma cesta de alimentos capaz de suprir as necessidades diárias.

Protesto contra decisão sobre terras rurais

A Associação Trabalhadores do Estado (ATE) iniciou, nesta terça-feira (6), uma paralisação nacional contra a decisão da Suprema Corte que abriu caminho para a aplicação da revogação da Lei de Terras Rurais, aprovada em 2011 e que estabelecia restrições à compra de propriedades rurais por estrangeiros.

A decisão foi tomada em 29 de setembro. A Suprema Corte rejeitou a ação que questionava a revogação porque considerou que a entidade que apresentou o processo não tinha legitimidade para fazê-lo. O tribunal, portanto, não decidiu que as restrições eram inconstitucionais, mas a revogação da lei feita pelo governo Javier Milei em 2023 pode agora produzir efeitos.

A Lei de Terras Rurais estabelecia que estrangeiros não poderiam controlar mais de 15% das terras rurais do país. A norma também previa limites para a propriedade estrangeira nos níveis provincial e municipal.

A questão voltou a ser alvo de críticas durante o governo de Javier Milei. O Executivo havia tentado flexibilizar as restrições por meio do Congresso, incluindo a mudança em um projeto mais amplo sobre propriedade privada. A proposta, porém, foi retirada em agosto após o governo não conseguir os votos necessários e enfrentar resistência de aliados e de diferentes setores sociais.

A ATE criticou a decisão da Suprema Corte e afirmou que a medida prejudica a soberania argentina.

Inflação acelera e desemprego aumenta

Créditos: depositphotos.com / diegograndi

O avanço da pobreza coincide com a aceleração da inflação entre o fim de 2025 e o início de 2026. O índice de preços, que havia caído de quase 290% para cerca de 30% em 12 meses nos dois primeiros anos do governo Milei, voltou a subir.

No setor produtivo, aproximadamente 30 mil empresas fecharam na Argentina desde o início do novo governo. Paralelamente, o desemprego subiu para 7,9%, o maior nível desde 2021, e quase metade da população economicamente ativa está na informalidade.

Críticos apontam que medidas como cortes de gastos, fim de subsídios e flexibilização de importações pressionam as famílias e a indústria local. O governo afirma que as ações são necessárias para equilibrar as contas públicas, restaurar a confiança de investidores e criar bases para um crescimento sustentável.

Javier Milei chegou ao poder no fim de 2023 com forte apoio de eleitores de baixa e média renda, frustrados com anos de inflação elevada. Embora seu governo tenha estabilizado as contas públicas, organizações sociais relatam que mais argentinos enfrentam dificuldades financeiras.

Pesquisas recentes mostram queda na aprovação do presidente entre os mais pobres. Um levantamento da AtlasIntel de setembro revelou que a desaprovação entre entrevistados com renda mensal de até US$ 650 chegou a quase 70%.

Nessa mesma faixa da população, a aprovação caiu para menos de 30%. Um ano antes, os índices eram de 57% de desaprovação e 37% de aprovação. Considerando o total da população, 58% desaprovam Milei, ante 38,1% que o aprovam.