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Cientistas fazem descoberta histórica: um tubarão de 399 anos, nascido em 1627 foi localizado no Oceano Ártico e bate recorde de longevidade entre animais vertebrados
Tubarão-da-Groenlândia cresce devagar e pode atravessar mais de quatro séculos
Existe um animal nadando agora nas águas geladas perto da Groenlândia que provavelmente já vivia quando o Brasil ainda engatinhava como colônia portuguesa. Um tubarão-da-Groenlândia com idade estimada em quase quatro séculos foi identificado por cientistas no Oceano Ártico e ocupa o posto de vertebrado mais longevo já registrado. A descoberta impressiona não só pela longevidade, mas por revelar um ritmo de vida em uma escala de tempo que quase escapa à compreensão humana.
Como um animal atravessou tantos séculos de história?
Enquanto essa fêmea começava a nadar nas profundezas do Atlântico Norte, a Europa vivia o reinado de Luís XIII e o telescópio de Galileu ainda era novidade. Ela atravessou três séculos e meio de transformações históricas num ritmo tão lento que parece pertencer a outra dimensão temporal, e segue ali, deslizando sob o gelo.
A descoberta não é recente. Foi publicada em 2016 na revista científica Science, mas continua sendo referência sempre que se fala do animal com coluna vertebral mais velho do planeta. E o dado mais surpreendente é que a idade não saiu de um palpite, e sim de uma técnica engenhosa que usa a poeira nuclear dos anos 1950 como uma espécie de cronômetro natural.
Como um tubarão consegue viver tanto tempo?
A resposta está em uma combinação de fatores ligados ao ambiente extremo em que ele vive. O Somniosus microcephalus habita águas com temperatura próxima do congelamento, em profundidades que passam dos dois mil metros. Ali, tudo no corpo dele funciona em câmera lenta. Os principais elementos por trás dessa longevidade são:
- Metabolismo lentíssimo, já que a água perto de zero grau reduz o consumo de energia e o desgaste das células
- Crescimento de cerca de um centímetro por ano, ritmo raro para um animal que ultrapassa cinco metros
- Maturidade tardia, com as fêmeas começando a se reproduzir só por volta dos 150 anos
- Reparo celular eficiente, com mecanismos genéticos que corrigem danos ao DNA com precisão incomum
Como se descobre a idade de um tubarão sem certidão de nascimento?
Aqui está a parte mais criativa da história. Um tubarão não tem anéis como uma árvore nem estruturas ósseas fáceis de contar, e por isso datar esse animal sempre foi notoriamente difícil. Por muito tempo, a idade real da espécie foi apenas um palpite dos biólogos marinhos do Ártico.
A equipe liderada pelo biólogo dinamarquês Julius Nielsen, da Universidade de Copenhague, achou a saída no cristalino do olho. O núcleo dessa estrutura se forma ainda na fase embrionária e não se renova ao longo da vida, funcionando como uma cápsula do tempo. Os pesquisadores isolaram esse núcleo, mediram os níveis de carbono-14 nas proteínas e compararam com curvas conhecidas do isótopo no oceano, usando como referência o pico gerado pelos testes nucleares das décadas de 1950 e 1960.
Quais são os números mais impressionantes do estudo?
A pesquisa analisou 28 fêmeas coletadas como captura acidental em pescarias na Groenlândia, e os dados ajudam a dimensionar o feito. Vale conhecer os principais indicadores:
- A maior fêmea teve idade central estimada em 392 anos, com margem que a coloca entre 272 e 512 anos
- Esse mesmo exemplar media 5,02 metros de comprimento, dentro do padrão da espécie
- A maturidade sexual foi estimada em torno de 156 anos, sinal de uma reprodução extremamente lenta
- A espécie é classificada como vulnerável pela UICN, com população em declínio

Por que a idade exata gera tanta confusão nas manchetes?
Aqui entra uma nota importante para não distorcer a ciência. A idade de “399 anos” que circula em muitas manchetes é apenas uma estimativa central. O artigo original aponta 392 anos com margem de mais ou menos 120 anos, ou seja, o animal tem entre 272 e 512 anos, com 95% de certeza. Mesmo no limite inferior dessa faixa, ele continua sendo, com folga, o vertebrado mais velho já conhecido pela ciência. A imprecisão não enfraquece a descoberta, apenas reflete a honestidade do método, que trabalha com faixas de probabilidade em vez de cravar um número redondo.
O que essa descoberta muda para a conservação da espécie
Uma espécie que só se reproduz depois dos 150 anos vive num regime biológico incompatível com as ameaças modernas. Pesca acidental em redes de arrasto, poluição química chegando ao Ártico e aquecimento das camadas profundas do oceano agem em escala de anos ou décadas, enquanto o tubarão responde em escala de séculos. Perder uma fêmea reprodutora hoje significa apagar uma linhagem que só se completaria daqui a três ou quatro gerações humanas.
É esse descompasso de velocidades que mais preocupa os cientistas. O animal que atravessou revoluções científicas, guerras mundiais e séculos de mudança nadando devagar sob a superfície gelada virou símbolo de uma fragilidade silenciosa. Se conseguirá atravessar o próximo século, ninguém garante, porque agora a pressão vem de uma rapidez que a evolução dessa espécie nunca precisou enfrentar.