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Um carteiro colecionou pedras estranhas durante 33 anos e construiu uma obra de arte que acabou sendo apreciada por Picasso
Obra de Ferdinand Cheval mistura culturas e inspira surrealistas
Um simples tropeço mudou a vida de Ferdinand Cheval, carteiro rural francês que percorria dezenas de quilômetros por dia entregando correspondência. A pedra que quase o derrubou virou o início de uma obsessão que resultaria em um dos exemplos mais curiosos de arquitetura naif do mundo.
Como uma pedra no caminho virou uma obra de arte?
Em 1879, aos 43 anos, Cheval tropeçou em uma pedra de formato incomum durante sua ronda diária pela região de Hauterives, no sudeste da França. Impressionado com a beleza daquele pedaço de rocha, guardou o achado no bolso para admirar em casa, sem imaginar que aquele gesto simples daria início a três décadas de trabalho ininterrupto.
A partir daquele dia, o carteiro passou a recolher pedras ao longo dos mais de 30 quilômetros que caminhava diariamente. No começo, carregava os achados nos bolsos, depois passou a usar uma cesta e, por fim, um carrinho de mão que se tornaria símbolo de sua rotina.
Como um homem sem formação em arquitetura ergueu um palácio inteiro?
Cheval nunca estudou arquitetura nem engenharia. Aprendiz de padeiro na juventude, ele observava fachadas, jardins e cartões postais durante o trabalho, absorvendo aos poucos referências visuais que depois aplicaria à própria construção, sempre à noite, à luz de lampião, depois de cumprir sua rota de entregas.
- Os primeiros 20 anos foram dedicados às paredes externas da estrutura;
- As pedras eram unidas com cal, argamassa e cimento;
- A fachada principal chegou a 26 metros de comprimento e 10 metros de altura;
- Elementos de diferentes culturas, como mesquitas e templos hindus, foram reproduzidos em nichos.
O resultado misturava estilos góticos, egípcios, hindus e árabes em uma única construção, sem seguir nenhuma escola arquitetônica reconhecida na época.
O que Picasso e os surrealistas viram nessa obra?
Pouco antes de sua morte, Cheval recebeu reconhecimento de nomes como André Breton e Pablo Picasso, que enxergaram na construção uma antecipação dos princípios do surrealismo, décadas antes do movimento existir formalmente.
Picasso chegou a produzir uma série de desenhos inspirados na figura do carteiro, hoje reunidos sob o nome de Facteur Cheval sketchbook, um gesto que ajudou a consolidar a obra como referência da chamada arte bruta.
Quanto tempo levou até a construção ficar pronta?
Cheval concluiu o palácio em 1912, aos 77 anos, depois de 33 anos de trabalho quase diário, o equivalente a 93 mil horas somadas ao longo de mais de 10 mil dias. Em uma das fachadas, ele deixou gravada a frase que resume sua trajetória, atribuindo a obra ao esforço de um único homem.
Ao terminar o palácio, ele ainda dedicou oito anos à construção de seu próprio mausoléu, já que as autoridades francesas não permitiram que fosse sepultado dentro da própria criação.
Esse tipo de obra ainda inspira artistas hoje?
Em 1969, o governo francês declarou o palácio monumento histórico nacional, reconhecimento raro para uma obra erguida sem qualquer formação técnica ou recurso financeiro por trás do projeto.
Mais de um século depois de concluída, a construção segue atraindo visitantes e pesquisadores interessados em entender como a persistência de um único trabalhador rural resultou em um marco da arquitetura visionária mundial.