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Um único homem passou 40 anos plantando árvores em um banco de areia árido: agora é uma floresta de 526 hectares repleta de elefantes, rinocerontes e tigres
Um banco de areia ganha vida após décadas de dedicação silenciosa
No fim dos anos 1970, um adolescente indígena da etnia mishing encontrou uma pilha de cobras mortas num banco de areia estéril do rio Brahmaputra, no estado de Assam, na Índia. As cobras haviam sido arrastadas por uma enchente e morreram pelo calor extremo, sem nenhuma árvore ao redor para oferecer sombra. Quatro décadas depois, aquele mesmo banco de areia virou uma floresta de cerca de 526 hectares, habitada por elefantes, rinocerontes e tigres, obra de um único homem: Jadav Payeng.
O que levou Jadav Payeng a começar a plantar árvores sozinho?
Aquela cena marcou Payeng para sempre e o levou a tomar uma decisão que mudaria completamente aquele pedaço de terra: plantar árvores sozinho, ano após ano, até transformar o lugar numa floresta. Na época, ele já entendia que a falta de vegetação piorava a erosão da ilha de Majuli, onde vivia, e colocava em risco tanto os animais quanto os moradores da região.

Como o processo de plantio começou na prática?
Payeng começou de forma simples, plantando bambus e algumas sementes ao redor da própria casa, erguida perto do banco de areia. Regava as mudas de manhã e à noite, todos os dias, e recorria a um truque incomum para melhorar o solo pobre: buscava formigas vermelhas de sua vila e as levava até a área plantada, já que os insetos ajudavam a arejar a terra e equilibrar outros organismos do solo.
Por um período, ele contou com apoio de um projeto oficial de reflorestamento tocado pela divisão florestal da região, que havia plantado cerca de 200 hectares nas proximidades e ensinou a Payeng técnicas de plantio adequadas ao ambiente de areia, silte e enchentes constantes. O programa governamental foi abandonado em 1983, mas Payeng continuou sozinho, sem apoio institucional nenhum, pelas três décadas seguintes.
Quando as autoridades descobriram a floresta que ele havia criado?
O trabalho de Payeng passou despercebido pelas autoridades por quase 30 anos. A situação só mudou em 2008, quando funcionários do departamento florestal foram até a região em busca de um grupo de 115 elefantes que havia se refugiado ali depois de causar danos numa vila próxima. Ao chegar ao local, os funcionários se depararam com uma floresta densa e extensa, algo que ninguém esperava encontrar num banco de areia antes considerado improdutivo.
Quais animais vivem hoje na floresta de Payeng?
A floresta, batizada de Molai em homenagem ao apelido de Payeng, hoje ocupa cerca de 1.300 acres, o equivalente a aproximadamente 526 hectares, e abriga uma diversidade de espécies que seria impensável décadas atrás naquele mesmo trecho de terra.
- Tigres de Bengala, considerados espécie ameaçada
- Rinocerontes-indianos, incluindo indivíduos que já foram alvo de tentativas de caça ilegal
- Elefantes, que visitam a região sazonalmente e já tiveram filhotes nascidos ali
- Mais de cem veados e coelhos, além de macacos e diversas espécies de aves, incluindo abutres

Que reconhecimento Jadav Payeng recebeu pelo trabalho?
O trabalho de décadas rendeu a Jadav Payeng reconhecimento que ultrapassou as fronteiras de Assam e chegou a outros países interessados em iniciativas de reflorestamento.
- Padma Shri, quarta maior honraria civil da Índia, recebida em 2015
- Doutorados honorários concedidos por duas universidades indianas, mesmo sem diploma formal
- Documentário premiado sobre sua história, lançado em 2012
- Convite do governo do México, em 2021, para ajudar em projetos de recuperação florestal no país
O legado de uma floresta criada por um homem só
A história de Payeng costuma ser lembrada como exemplo do que uma única pessoa é capaz de fazer ao longo de décadas de trabalho contínuo, sem depender de grandes recursos ou de apoio institucional constante. O que começou com poucas mudas plantadas por um adolescente virou um ecossistema completo, capaz de sustentar espécies que exigem território extenso e condições ambientais estáveis para sobreviver.
Payeng segue morando dentro da própria floresta que criou, e afirma pretender continuar plantando árvores pelo resto da vida, com planos de expandir ainda mais a área verde ao longo das margens do rio Brahmaputra. Para ele, cada nova muda representa uma continuação direta daquele momento de décadas atrás, quando decidiu que a cena das cobras mortas não se repetiria enquanto ele pudesse fazer alguma coisa a respeito.