Carnaval
Arranco do Engenho de Dentro aposta na força feminina e no riso como resistência no Carnaval 2026
Escola leva para a Sapucaí o enredo “A Gargalhada é o Xamego da Vida”, que homenageia a primeira palhaça negra do Brasil e celebra a liderança das mulheres no samba
O Arranco do Engenho de Dentro vai levar para a Marquês de Sapucaí, no Carnaval de 2026, um desfile marcado pela leveza, pela alegria e pela valorização da potência feminina. Com o enredo “A Gargalhada é o Xamego da Vida”, a escola transforma a avenida em um grande circo imaginário e faz do riso um ato de resistência.
A narrativa gira em torno do palhaço Xamego, personagem inspirado em Maria Elisa Alves dos Geis, considerada a primeira palhaça negra do Brasil. Sobrinha de Benjamin de Oliveira, o maior palhaço negro da história do país, Maria Elisa encontrou no riso uma forma de expressão e enfrentamento, mesmo em um tempo em que mulheres não tinham espaço na palhaçaria e precisavam se esconder atrás de identidades masculinas para atuar.
O enredo apresenta a gargalhada como símbolo de cura, força e esperança, exaltando o riso presente nas pequenas coisas do cotidiano, nas calçadas, no samba simples e na vivência popular. No desfile, o circo vira avenida, o samba vira riso e a festa se transforma em celebração da alegria como linguagem política e social.
À frente do desfile pelo segundo ano consecutivo, a carnavalesca Annik Salmon destaca o significado do enredo.
“Ele homenageia a primeira palhaça negra do Brasil, uma mulher que enfrentou o preconceito do seu tempo para levar alegria e gargalhada. Mas ela precisou se vestir de homem, porque no seu tempo as mulheres não podiam ser palhaças”, explica.
Annik ressalta que o riso sempre foi um território negado às mulheres.
“As mulheres sempre foram afastadas do espaço da criação e do espaço público, mas, sobretudo, foi negado a elas o direito de fazer rir, de subverter a ordem através do riso. Esse enredo transforma o terreiro do Arranco em um grande picadeiro para reconhecer a importância de Maria Elisa e do seu ato de coragem. É um enredo muito feliz”, afirma.
A carnavalesca também destaca a mensagem que a escola pretende passar ao público.
“O legado das mulheres deve ser celebrado. ‘A Gargalhada é o Xamego da Vida’ porque, assim como Maria Elisa, quando a gente leva a vida com leveza, tudo fica mais alegre. Problemas existem, mas a vida precisa desses momentos de alegria, e o Carnaval é um deles”, diz.
Fundado em 1973, o Arranco desfila com as cores azul e branco, herdadas de sua madrinha, a Portela, e se destaca em 2026 pela liderança feminina. Além de Annik Salmon, a escola conta com Laísa Lima, como mestre de bateria, e Pâmela Falcão, como intérprete, reforçando o protagonismo das mulheres nas primeiras divisões do Carnaval carioca.
O Arranco do Engenho de Dentro será a terceira escola a desfilar no sábado de Carnaval, dia 14 de fevereiro. A agremiação foi campeã da segunda divisão em 1988, com o enredo “Pra Ver a Banda Passar Cantando Coisas de Amor”, inspirado na obra de Chico Buarque.