Carnaval
Portela leva religiosidade afro-gaúcha e resgata um Sul Negro no Carnaval 2026
Enredo propõe releitura histórica e mítica a partir da trajetória do Príncipe Custódio, do Negrinho do Pastoreio e de Exu Bará
A Portela vai atravessar a Marquês de Sapucaí em 2026 com um enredo que lança luz sobre a religiosidade afro do Rio Grande do Sul e o apagamento histórico da presença negra no estado. Intitulado “Mistério do Príncipe do Bará, a Oração do Negrinho e a Ressurreição de sua Coroa sob o Céu Aberto do Rio Grande”, o desfile parte da trajetória do Príncipe Custódio, liderança vinda do Benin que chegou ao Brasil como referência política, religiosa e cultural, e não como escravizado. A narrativa propõe revelar um “Sul Negro” encoberto pelo racismo estrutural, costurando história, mito e espiritualidade.
A construção do desfile se dá por meio de uma fábula que estabelece o diálogo entre o Negrinho do Pastoreio, figura do folclore gaúcho, e Exu Bará, orixá dos caminhos no Batuque, religião afro-gaúcha. Segundo o carnavalesco André Rodrigues:
“Esse enredo vai ser contado a partir de uma fábula criada, que é o diálogo entre o Negrinho do Pastoreio e o Exu Bará”.
Ele explica que a primeira parte do desfile apresenta o Negrinho revelando a história de Custódio em meio à “névoa do racismo”, enquanto a segunda metade mostra Bará apresentando os ecos e a herança deixados pelo príncipe, culminando na redenção simbólica do próprio Negrinho.
Para André Rodrigues, os três personagens ocupam esferas distintas, mas complementares.
“Esse desfile lida com três personagens em três esferas diferentes: Bará, que é um orixá; o Negrinho, que é um mito; e o Custódio, que é um personagem que de fato viveu”, afirma.
O carnavalesco destaca ainda o caráter pedagógico e político do enredo ao reforçar que
“Só conhecendo novas histórias a juventude negra pode, de fato, se libertar”.
A Portela será a terceira escola a desfilar na primeira noite do Grupo Especial, no domingo de carnaval, 15 de fevereiro. Maior campeã do carnaval carioca, com 22 títulos, a escola azul e branca busca reafirmar, na avenida, um Rio Grande do Sul também africano.